A casa do senhor José e da dona Hermínia

O senhor José já estava muito surdo. Escutava a novela no volume máximo, a gente ficava com a impressão de que o mundo era invadido por gigantes. A dona Hermínia gostava absolutamente dele. Casaram havia muitos séculos, não sabiam nada um sem o outro. Eram-se fundamentais, como ovo e galinha, desconheciam quem produzira quem. Amavam-se iguais a adultos e crianças ao mesmo tempo. Brincavam com o cansaço, com a lentidão, brincavam com a humildade. A novela gritava para a rua inteira, os dois ocupavam as poltronas e havia uma espécie de ramo de flores que nascia das cores dos seus olhos. Quem os via pressentia uma rara coisa da primavera.

Na Ilha da Conceição, arredores de Niterói, na linha do 15, o Brasil era feito de realidade. Os sonhos desciam à terra, porque a urgência de todas as coisas não fazia gente boba, apenas agarrada à inteligência e cheia de vontade de aproveitar cada instante. Estava sempre alguma casa em festa. Aniversários ou aulas de aeróbica faziam com que gente andasse em grupos e para cada noite se guardasse uma alegria. Uma alegria construída em cima da pura capacidade de sobreviver. Eu, amigo da dona Preciosa, alojado na casa da dona Hermínia e do senhor José, estava sempre convidado. Aparecia de tudo, mulher linda, menos linda, bicha linda, menos linda, homens e outros homens, pessoas sem intenções, sem definições, nunca vistas, não pessoas, peixinhos de aquário. Todos me elogiavam com um cumprimento sedutor. Eu, durante aquele mês, achei ser sexy. Gostei. Nunca se é mais sexy do que quando se está no Brasil. Aprendi isso bem.

Primeira viagem para o país de Drummond e João Cabral. Mudou minha infância. Porque voltei com a impressão gloriosa de ter recomeçado tudo. Reinaugurei minha biografia. Quase precisei de outro nome.

Fui ver a vidraça da casa de Caetano Veloso, queria que ele viesse cumprimentar o povo que se espalhava na praia só disfarçando. Civilizadamente, bebia água de coco e esperava. Não apareceu. Conheceria Caetano mais tarde. Alguém disse que Adriana Calcanhotto estaria numa pastelaria ali do Leblon. Senti até uma tontura. Não vi. Acho que foi mentira. Regressava à Ilha da Conceição como se me protegesse de meu jeito deslumbrado. Ali, todos gostavam de cantores e cantoras, mas ninguém conservava mais o meu modo carente de amar. Eu devia ter acreditado em diários pessoais, para registar a cada passo a dimensão do meu absurdo. Mas não o fiz. Lamento. Adoraria estudar meu primeiro mês no Brasil através da confissão honesta da época. De facto, lembro hoje como uma deslocação no meu paradigma. Ficava repetindo para que a vida me deixasse ser outro. Menos tímido, menos feio, menos triste, menos esperando, menos devagar. Pensava no que dizia Agostinho da Silva, e sempre penso: os brasileiros são os portugueses à solta. Eu queria ser solto.

Nos sebos do centro fui comprar poesia. Li Paulo Leminski como um químico diluído nas minhas veias. Era um rock dos livros. Um certo Iggy Pop das palavras. Cheio de uma esperteza literária e urbana. Coisa de sentir que cursávamos todos os segredos da cidadania do asfalto e do concreto. Eu fiquei metropolitano. Tão gigante e capaz de invadir quanto as personagens da novela do senhor José. Engordara de alma. Era também por causa do Arnaldo Antunes. Pegava os livros da Iluminuras e via pelas páginas a vertigem da cidade, como se o papel fosse buraco.

A dona Preciosa falava muito do Cartola, por causa da minha alma romântica e de menino. O Cartola era uma portuguesice do Brasil. E é mesmo. Triste e gostando de ser triste. Eu fiquei apaixonado por ele. Num sebo perguntei se tinham discos dele. Responderam que sim, tinham disco de tudo quanto era velhinho. Achei obsceno. Amor a gente nunca desusa. Comprei. Amor não é velhinho. Cartola é só amor.

Subi ao Cristo e vi o Rio. Como estamos altos, prestes voando, a cidade, suas casas e árvores, águas e gente, descem de nós, como se descendessem de nós, são predicados de uma veste quilométrica que vestimos. Eu, no meio de todos os turistas, ri. Não era importante tirar uma fotografia, era importante jurar a mim mesmo que haveria de voltar. Voltar ao Rio de Janeiro passara a ser tão elementar quanto voltar a mim mesmo.

No tempo em que havia o senhor José e a dona Hermínia diante da televisão, admito, era mais bonito. Agora, a beleza chega também a partir da saudade. A gente olha, está, vive e sente saudade. Que é o mesmo que dizer que nos esforçamos para que as coisas boas não passem completamente. Fiquem um pouco. Regresso sempre ao Brasil para que tudo fique mais. E ouço Cartola em Portugal para gostar de ainda sofrer por amor. Mesmo. Igualmente carente e deslumbrado.

Correcção: Onde se lia João passou a ler-se José porque este é o nome pelo qual o senhor José João era mais conhecido

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