Opinião

O fim das ilusões

1. O assassínio de Boris Nemtsov em Moscovo, junto ao Kremlin, caiu como uma bomba nas capitais europeias. Não faltaram adjectivos para o classificar. Não é caso inédito na cena política russa. Mas acontece num contexto inédito das relações entre a Europa e a Rússia.

Antes de Nemtsov, um dos poucos opositores frontais de Putin, o método foi usado para calar de vez outras vozes incómodas num estilo muito próprio do KGB durante a Guerra Fria. Anna Politkovskaia, a jornalista que dedicou a sua vida a denunciar os horrores das guerras na Tchetchénia, foi assassinada à porta de casa. Alexander Litvinenko foi morto em Londres por envenenamento de polónio, quando se preparava para denunciar os assassinos da jornalista. Outros opositores viveram anos na cadeia. Hoje, qualquer veleidade oposicionista é facilmente esmagada. As televisões privadas foram sendo silenciadas. O clima de “ameaça externa” para alimentar o nacionalismo dá ao Presidente russo margem de manobra para silenciar quem for preciso.

2. A morte de Nemtsov faz-nos rebobinar o filme dos últimos 25 anos da relação da Rússia com o Ocidente. Muito novo, foi chamado por Boris Ieltsin para vice-primeiro-ministro para aplicar as reformas económicas necessárias à transição para uma economia de mercado. Foi um tempo de ilusões em que o Ocidente acreditava no caminho inexorável da Rússia para a democracia, mas que se transformou num roubo generalizado das empresas estatais por gente ligada à nomenclatura, enquanto a subida dos preços afectou duramente a vida dos russos. Foi uma década em que a democracia ganhou mau nome, abrindo as portas para a ascensão de Putin. Para Washington ou para as capitais europeias, a Rússia não podia ter outro destino senão o Ocidente. Em 1997, Clinton convidou Ieltsin a integrar o G7, que passou a G8 (até ao ano passado). Foi criado um Conselho NATO-Rússia (que praticamente nunca funcionou) onde as questões de segurança europeia deviam ser tratadas. Bush acreditou que poderia estabelecer uma boa relação com Putin, depois do 11 de Setembro. A Europa acreditou ser possível criar uma parceria estratégica assente numa “comunidade de valores e interesses”. A maior crise de sempre da aliança atlântica, aberta pela guerra do Iraque em 2003, levou Gerhard Schroeder e Jacques Chirac a emparceirarem com Putin num famoso “eixo da paz” em oposição aos Estados Unidos. Enquanto Putin destruía a Tchetchénia com uma violência inaudita, Paris e Berlim estavam disponíveis para lhe passar um atestado de bom comportamento democrático.

3. Entretanto, Putin começava a esclarecer ao que vinha. Em 2005 declarou que o fim da União Soviética tinha sido a maior catástrofe do século XX. A estratégia da “vizinhança próxima” para restabelecer a esfera de influência russa traduziu-se numa série de conflitos muito incómodos para o Ocidente, mas que o Ocidente ignorou. Em 2004, a revolução laranja na Ucrânia ainda parecia ser a tendência dominante nessa “vizinhança”. Só em 2008, Angela Merkel conseguiu convencer George W. Bush a fazer um intervalo no alargamento da NATO, deixando de fora a Ucrânia e a Geórgia. Para os europeus, falhada a comunidade de valores, ficavam apenas os interesses, que cada país tratou à sua maneira. Mesmo quando, em 2006 e 2009, a Gazprom fechou a torneira do gasoduto que abastecia muitos países europeus de leste através da Ucrânia, o aviso não foi levado suficientemente a sério para obviar à dependência energética da Rússia. Foi precisa a crise ucraniana para que a Europa acordasse para uma realidade para a qual não estava preparada.

Do outro lado do Atlântico as coisas não foram muito diferentes. Obama quis restabelecer uma boa relação com Moscovo (o famoso reset), olhando para Putin como um parceiro na resolução dos conflitos internacionais que tinha em mãos. Mas nunca viu a Rússia (nem sequer agora) como um desafio fundamental ao poder americano no mundo. Se prestarmos atenção às suas declarações desde que começou a crise, a Rússia é sempre tratada como uma potência regional e decadente. O que é verdade, mas não deixa de colocar um tremendo desafio à Aliança e à União Europeia, que Washington não pode ignorar.

4. Hoje sabemos onde estamos. Angela Merkel percebeu depressa que Putin desafiava directamente a ordem europeia do pós-guerra e que não havia diálogo possível com ele. Com Obama, tem conseguido liderar a resposta ocidental, evitando as divisões europeias e transatlânticas, com as quais o líder russo contava. Enfrenta alguma hostilidade interna, onde uma maioria de alemães não quer sequer ouvir falar de um conflito com a Rússia. Gerhard Schroeder lançou um abaixo-assinado apelando a uma nova política para o vizinho de Leste e insistindo na “legitimidade” das preocupações russas com a sua segurança. Putin encontrou alguns novos amigos nos países mais improváveis. Na Hungria ou em Chipre (mesmo que nenhum deles tenha tido a coragem de votar contra as sanções) mas também na Grécia ou na Áustria (ainda a viver o complexo de neutralidade imposto pela Guerra Fria). O Presidente russo tem também feito amigos entre os movimentos extremistas e nacionalistas que emergem na Europa, de Marine Le Pen ao Syriza, passando pelo UKIP ou os nacionalistas austríacos.

A novidade é que a Alemanha, incluindo o SPD, tradicionalmente mais amigo de Moscovo, percebeu que o mundo não se reduzia à geoeconomia. A chanceler não tem grandes ilusões e sabe que o braço-de-ferro vai ser prolongado. A NATO vê-se confrontada com uma ameaça à segurança dos seus membros para a qual não estava preparada. Está a deslocar forças para os países mais vulneráveis, em primeiro lugar os Bálticos, e mantém o controlo do espaço aéreo aliado. Tem de voltar a funcionar como uma força dissuasora suficientemente credível. Mas também deixou claro que a sua responsabilidade se limita à segurança dos países aliados, deixando de fora a Ucrânia. Os aliados europeus sabem que a ameaça russa não vai desaparecer no futuro próximo. A Europa vai ter de apoiar com muito mais meios a estabilização da economia e da democracia de Kiev, de forma a criar uma verdadeira barreira contra qualquer outro destino que não o europeu. Uma democracia a funcionar bem é tudo aquilo que Putin não quer na sua zona de influência. Escreve Josef Janning do ECFR que “teme o soft power europeu na medida em que é uma força à qual não tem como responder”.

5. Esta Rússia antiocidental e nacionalista levou também a algumas mudanças significativas na geopolítica europeia. A imprensa britânica acusa David Cameron de ter posto em causa o papel do Reino Unido na Europa e no mundo e o seu estatuto de parceiro confiável dos Estados Unidos. Quem lidera a crise ucraniana? Angela Merkel com François Hollande. Quem é o interlocutor privilegiado de Obama? Angela Merkel. É este o preço que Cameron vai ter de pagar com a sua obsessão antieuropeia.

A tragédia do voo MH17 das linhas aéreas da Malásia com 200 holandeses a bordo, foi o sobressalto que fez endurecer a Europa. O assassínio de Nemstov pode ter um efeito semelhante. Seja como for, esta é a nova realidade em que os europeus se têm de habituar a viver, num mundo onde dominam cada vez mais as “políticas de potência” das quais a Europa se desabituou graças à garantia americana da sua segurança.

Gideon Rachman, o colunista do Financial Times, escreveu recentemente um texto com um título apelativo: “Os corações e as mentes dos russos e os frigoríficos”. A sua ideia é simples. Os russos que ainda se lembram da Grande Guerra Patriótica sabem o que é ter apenas batatas para matar a fome. Os mais jovens, que não conhecem outra realidade senão a actual, só vêem os frigoríficos vazios. É uma esperança? Talvez.