Ensaiar excertos da história da dança também pode ser um espectáculo

Com base numa pesquisa de coreografias colhidas na história da dança, João dos Santos Martins apresenta Projeto Continuado, uma peça em que o processo de trabalho se torna espectáculo e em que importa a forma de apropriação da obra alheia

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A citação no contexto de um espectáculo funciona, quase sempre, como uma homenagem declarada a uma obra ou a um criador que tenha sido determinante na caminhada de quem ocupa o palco.

Mas não é habitual que seja o próprio motor do espectáculo, como acontece com Projeto Continuado, uma peça de João dos Santos Martins aclamada aquando da sua recente estreia no GUIdance, Festival Internacional de Dança Contemporânea de Guimarães, e agora chegado à Culturgest, em Lisboa, com apresentações esta sexta-feira e sábado.

Não se trata, no entanto, de um encadeamento avulso e desarticulado de citações várias. Se no movimento dos seis intérpretes se poderão descobrir coreografias, exercícios e partituras de dança recolhidas de Doris Humphrey, Loïe Fuller, Yvonne Rainer, Simone Forti, Martha Graham, Trisha Brown e Jane Fonda, entre outros, é porque a citação existe como forma de ter presente que há seis bailarinos em cena a experimentarem gestos que não são originalmente seus, mas dos quais se apropriam diante do público. “Apesar de usarmos a citação enquanto operação durante a maior parte do espectáculo, tentamos desfazer o processo de citação para passarmos a um processo de experimentação”, explica ao PÚBLICO João dos Santos Martins.

Quer isto dizer que os bailarinos não reproduzem simplesmente as coreografias. Exercitam-nas, ensaiam-nas em palco. Aquilo a que se assiste é esse trabalho que poderia corresponder à preparação de um espectáculo, quando vinga “a ideia de atingir a idealização de cada uma das coreografias”. Daí a apropriação, daí o corpo do intérprete a adaptar-se às exigências da criação, daí que Santos Martins fale numa peça que “desvenda um pouco o labor que está na base da produção da dança, de um corpo a dançar”. Daí também que durante uma sequência de solos em que cada bailarino testa uma coreografia diferente, alguém surge entrevistando os intérpretes, pergunto-lhes que dança é aquela, que sentimentos e vontades desperta essa dança específica no corpo do bailarino, de que forma, afinal, o intérprete se relaciona com a obra e não se apresenta como um mera ferramenta nas mãos de ideias alheias.

Projeto Continuado começou, na verdade, quando João dos Santos Martins estudou em Montepellier, tendo integrado, em 2011, o elenco que sob a direcção de Xavier le Roy e Christophe Wavelet recriou Continuous Project – Altered Daily (1970), de Yvonne Rainer. Tratou-se então de uma reconstrução completa realizada a partir dos materiais existentes e de testemunhos recolhidos junto dos participantes originais. Foi essa consciência de que o próprio processo de trabalho pode ser elevado a objecto artístico a dar o mote para o levantamento de materiais coreográficos, dos livros aos vídeos disponíveis na Internet, que abastece Projeto Continuado. E Continuado também porque o trabalho de apropriação das linguagens alheias (por um bailarino, neste caso) é uma constante. É esse somatório de referências que sobe permanentemente a um palco. Quer se exiba, quer esteja oculto.