Eu fumo, tu fumas e uma em cada três crianças também

Nova campanha da Direcção-Geral da Saúde quer sensibilizar e prevenir a exposição das crianças ao fumo do tabaco em casa e nos carros. Chama-se Eu fumo, tu fumas e arranca na próxima semana.

Exemplo de um dos cartazes da campanha
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Exemplo de um dos cartazes da campanha DR

Eu fumo, tu fumas, ele fuma, nós fumamos… Um coro de crianças conjuga o verbo fumar num anúncio de rádio. Num cartaz, uma frase lembra a mesma ideia “quando alguém fuma, todos fumam”. Um outro coloca um avô de cigarro na boca e, ao lado, o neto a expirar o fumo que respirou inadvertidamente. Mais uma vez uma frase alerta que “alguns avós oferecem mais do que as memórias aos seus netos”. Estas são algumas das mensagens da nova campanha da Direcção-Geral da Saúde (DGS), apresentada nesta quinta-feira, e que pretende prevenir a exposição das crianças ao fumo do tabaco quando os estudos apontam para que um em cada três menores seja exposto ao fumo em casa ou no carro.

“O fumo é o principal poluente evitável do ar interior e não há um limiar seguro de exposição ao fumo”, começou por explicar a directora do Programa Nacional para a Prevenção e Controlo do Tabagismo, que acrescentou que “mais de 80% do fumo do tabaco é invisível”, o que faz com que inconscientemente muitas pessoas exponham crianças. Como exemplo, Emília Nunes referiu as superfícies, roupas, paredes e tintas em que o fumo se deposita em quantidades suficientes para ser absorvido pelas crianças, mesmo muito tempo depois de se ter fumado no espaço. Otites, asma, dificuldades respiratórias, pneumonias e síndrome de morte súbita do lactente são algumas das doenças que afectam numa proporção muito superior os filhos de pais fumadores.

De acordo com Emília Nunes, quase 37% dos menores de idade estão expostos ao fumo ambiental do tabaco em casa. Um estudo com crianças apenas do 4.º ano de escolaridade também detectou que quase 63% das crianças expostas ao tabaco em casa são filhas de fumadores, mas há 19,2% de crianças sem pais que fumam e que através das visitas acabam por estar em contacto com os químicos. Nos carros o cenário também não é melhor e um estudo que acaba de ser publicado indica que 28% das crianças são expostas ao tabaco nos carros.

O comportamento nos carros é precisamente um dos alvos da campanha Eu fumo, tu fumas da DGS, que num dos vídeos mostra um pai a fumar no carro e a criança na cadeirinha a expelir o mesmo fumo e apela a que “não ofereça este futuro ao seu filho”. A campanha vai arrancar na próxima semana e está disponível até final de Março, num investimento de 75 mil euros, aos quais o secretário de Estado adjunto da Saúde contrapôs os 500 a 600 milhões de euros que os fumadores gastam por ano. “Há um ganho muito grande quando reduzimos o número de fumadores”, sublinhou Fernando Leal da Costa, que explicou que a aposta do Governo passa por sensibilizar as pessoas mais do que por proibir.

Questionado sobre o atraso de dois anos na revisão da lei do tabaco, Leal da Costa disse que espera ter um novo diploma ainda durante esta legislatura, mas confirmou que a proibição do fumo dentro dos carros não está, por agora, em cima da mesa. O governante defendeu que neste momento não temos uma boa lei, mas por respeito aos investimentos que ela exigiu aos espaços que quiseram permanecer para fumadores a revisão ainda não vai prever uma interdição total do tabaco em restaurantes ou bares e essa mudança será “progressiva”. A única certeza é que novos “espaços que queiram iniciar-se devem ser livre de fumo”, disse Leal da Costa.

Em estudo estão também outras opções, como a avançada nesta quinta-feira pelo PÚBLICO, de devolver aos ex-fumadores algum do dinheiro que gastaram nos produtos para a cessação tabágica. O secretário de Estado disse que ainda é prematuro avançar com pormenores concretos, como o valor que poderá ser pago e ao fim de quanto tempo, mas explicou que serão negociados melhores preços com os fabricantes destes produtos. A ideia passa sempre por manter o programa de deixar de fumar ligado aos médicos de família, “já que os medicamentos por si só não têm a eficácia desejável”, sublinhou. Quanto à forma de testar se houve cessação tabágica, Leal da Costa disse que ainda não foi decidida, mas Emília Nunes explicou que outros países já usam testes ao monóxido de carbono.