Opinião

Nem mais alemães que os alemães, nem mais gregos que os gregos

Não há Europa, nem há soluções europeias para a presente crise, se descurarmos essa virtude essencial que é a moderação.

Há uma forma degenerada de exibicionismo que consiste no prazer em ser-se exibido. Trata-se de uma volúpia passiva, de uma pulsão amputada de qualquer manifestação de desejo. Corresponderá mesmo a uma forma patológica de necessidade de reconhecimento. É provável que os anões e os gigantes outrora impudicamente exibidos nos circos sentissem, em certos momentos, um inebriamento desta natureza.

O Governo português também teve direito, na semana passada, a um número desta natureza. Maria Luís Albuquerque prestou-se, com indisfarçável deleite, ao papel de uma curiosidade instrumentalizada pelo poderoso ministro alemão das Finanças. Ao fazê-lo, dispôs-se a participar – em condições incompatíveis com a dignidade de um velho Estado-nação membro em toda a plenitude da União Europeia – num confronto lamentável entre o mais poderoso e o momentaneamente mais frágil dos Estados que integram este espaço político. Já conhecíamos a humílima retórica do bom aluno, foi-nos agora dado a observar o espectáculo da redução do sujeito político activo à condição de um adereço propagandístico. Nada disto, infelizmente, pode causar a menor surpresa, dada a forma como o actual executivo sempre se posicionou no contexto europeu, abdicando deliberadamente do esforço de elaboração e projecção de um pensamento crítico próprio, aderindo com um entusiasmo incontido à linha política dominante e ignorando os efeitos nefastos da mesma no nosso próprio país. Esta forma de actuação, ao negar a possibilidade de afirmação de um caminho distinto da trajectória imposta pelas potências dominantes, favorece o sucesso das propostas extremistas que opõem o deslumbramento da revolução à paralisia de um statu quo injusto. Aqueles que, por qualquer motivo, se instalam na apologia de um certo tipo de fatalismo, desesperando do valor e do efeito prático de reformas alternativas, abrem a porta às propostas de redenção mais inverosímeis.

Apesar de tudo, este grotesco acontecimento teve escasso significado no transcurso do projecto europeu, subitamente invadido por novas querelas e arfantes paixões no decorrer das últimas semanas. A antecipada vitória de uma formação política originada nos interstícios da extrema-esquerda helénica provocou os efeitos amplamente pressagiados. Gerou delirantes expectativas, ocasionou surpreendentes adesões, fomentou exagerados receios e proporcionou uma interessante dramaturgia política, representada ao vivo e com actores dados a gestos de espontânea graciosidade. Se virmos bem as coisas, haverá muitas lições úteis a retirar destes episódios tão recentes. Desde logo, haverá que concluir pelo irrealismo das mentes dadas ao culto do exagero, já que a actuação do novel Governo grego tem vindo a contrariar as mais fantasiosas expectativas, quer as dos seus incondicionais admiradores, quer as dos seus fanáticos opositores. Uns e outros vêem-se uma vez mais desautorizados pela realidade. Na verdade, ao longo de três intensíssimas semanas, o Governo de coligação liderado por Alexis Tsipras percorreu o caminho que conduz da irrestrita proclamação de vontades irrazoáveis ao domínio mais fecundo da negociação e do compromisso políticos. Mau grado as explosivas e por vezes divertidas exteriorizações verbais do ministro das Finanças – esse misto de académico e pândego político chamado Varoufakis –, o Governo grego tem dado provas de uma respeitável dose de pragmatismo que, a ser prosseguida no futuro, o acabará por inscrever sem especiais sobressaltos no consenso democrático-liberal fundador do projecto europeu.

É certo que nem tudo o que se passou nestes últimos tempos merece enaltecimento; pelo contrário, ocorreram coisas que suscitam desaprovação. A polarização da discussão entre os executivos alemão e grego constituiu um erro manifesto e contribuiu decerto para a instalação de um forte mal-estar no interior da Comissão Europeia. As declarações proferidas por Jean-Claude Juncker a propósito da troika, ainda que não marcadas pelo ineditismo, traduziram uma especial intenção de afirmação de independência que a todos os títulos se deve registar. Em ocasião anterior, num discurso proferido perante o Parlamento Europeu, o presidente da Comissão já ousara questionar a legitimidade democrática da troika e a bondade das políticas da mesma dimanadas. A sua reiteração no auge da presente crise teve oportunidade, sentido e validez. Permitiu desde logo recordar, a uns e a outros, que está em curso um processo de reorientação programática daquilo que poderemos designar por governação europeia e que esse processo é anterior e alheio ao surgimento de um novo Governo na Grécia. Há, na realidade, três perspectivas em confronto no presente debate político europeu. De um lado, duas perspectivas radicais e extremistas, respectivamente a daqueles que aspiram à manutenção de uma linha puramente austeritária e os que tudo apostam numa via de natureza quase revolucionária; do outro lado, situa-se a perspectiva de quantos, no centro-esquerda e no centro-direita, advogam mudanças progressivas mas consistentes, tendo em vista a superação do risco da deflação e uma correcta associação das preocupações de consolidação orçamental com o crescimento económico imprescindível para a criação de emprego. Esse é o verdadeiro debate útil que hoje se pode travar no contexto europeu. Está muito para além do confronto entre as idiossincrasias helénica e germânica; e pode, se devidamente encarado, concorrer para o relançamento institucional da União Europeia.

Nessa discussão, infelizmente, a direita e uma parte significativa da esquerda portuguesas não estiveram à altura das suas obrigações históricas. Prestaram-se ao triste papel de acríticas claques de apoio aos senhores Schäuble e Varoufakis. Se uns foram mais alemães que os alemães, outros, não querendo ficar atrás, revelaram-se mais gregos que os próprios gregos. No fundo, todos eles revelaram um preocupante estado de imaturidade política.

Por muito que custe aos nosso convictos extremistas, não há Europa, nem há soluções europeias para a presente crise, se descurarmos essa virtude essencial que é a moderação. Não esqueçamos que o presente europeu se situa na confluência de uma dupla herança, a liberal e a democrática. Amputado de uma ou de outra, ou até das duas ao mesmo tempo, dele não subsistiria absolutamente nada. É por isso mesmo que nem todos os projectos políticos são enquadráveis no ideal europeu. Podem até ser alternativos, mas sê-lo-ão sempre apontando para um outro quadro político e até mesmo para uma diferente ordem civilizacional. Podem momentaneamente parecer apelativos, sobretudo quando surgem revestidos de roupagens messiânicas, tenham elas a aparência da vetustez conservadora ou do utopismo adolescente. Tais projectos, se bem sucedidos, trariam consigo o desmoronamento do que melhor existe neste velho continente. Apesar de tudo, há muitas razões para permanecermos optimistas. Há uma só exigência que importa permanentemente reiterar: que não feneça nos grandes partidos de centro-esquerda e centro-direita a vontade em seguir sempre pelo caminho da responsabilidade, com tudo o que isso implica. Dada a circunstância de a direita portuguesa estar associada no presente momento a uma governação assente num extremismo ideológico inusitado, aumentam exponencialmente as obrigações do Partido Socialista. Será tema para acompanharmos com especial atenção nas próximas semanas.