Discurso de Netanyahu no Congresso tem efeito “destrutivo” nas relações com os EUA

Primeiro-ministro israelita fala em Washington duas semanas antes de ir a votos. Obama teme que a relação entre os aliados se reduza a uma relação partidária.

Netanyahu com o gráfico sobre a ameaça iraniana na ONU, em 2012
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Netanyahu com o gráfico sobre a ameaça iraniana na ONU, em 2012 Keith Bedford/Reuters

Vários responsáveis da Administração de Barack Obama criticaram o primeiro-ministro israelita, Benjamin Netanyahu, depois de este ter dito que os Estados Unidos e outras potências desistiram de impedir o Irão de obter a bomba atómica. Estas afirmações, quando se completava a última ronda de negociações com Teerão, enfureceram a Casa Branca, seis dias antes do discurso de Netanyahu no Congresso – uma visita a convite da liderança republicana que deixou Obama muito desconfortável.

Não há dúvidas de que Netanyahu, em plena campanha eleitoral, vai aproveitar o palco do Congresso para tentar minar as negociações sobre o programa nuclear iraniano, que sempre criticou. Os EUA e outros “aceitaram que o Irão vai, gradualmente, em poucos anos, desenvolver capacidades para produzir material para muitas armas nucleares”, disse o chefe do Governo israelita numa visita a um colonato. “Respeito a Casa Branca e o Presidente dos EUA, mas neste assunto, que pode determinar a nossa sobrevivência, tenho de fazer tudo para impedir um perigo tão grande para Israel.”

De regresso de Genebra, onde integrou a última ronda de negociações que visa obter um acordo que garanta que o programa nuclear de Teerão se limita à produção de energia, o secretário de Estado norte-americano, John Kerry, questionou o “bom senso” do aliado. “Ele pode ter feito uma apreciação que não está correcta”, disse Kerry, aconselhando a que se espere pelo discurso de Netanyahu, na terça-feira, para perceber a sua opinião.

Mas Kerry foi um bocadinho mais longe e lembrou que Netanyahu “foi profundamente defensor e não teve quaisquer reservas sobre a importância de invadir o Iraque, no mandato de George W. Bush, e todos sabemos o que aconteceu com essa decisão”.

Entretanto, uma investigação da Al-Jazira mostrou que quando Netanyahu foi à Assembleia-Geral da ONU avisar que o Irão tinha concluído 70% do caminho para a “construção de uma arma nuclear”, os serviços secretos israelitas acreditavam que os iranianos ainda “não estavam a desenvolver as actividades necessárias para produzir armas”. Num telegrama enviado para a África do Sul em Outubro de 2012, menos de um mês depois do discurso, a Mossad escreve que os cientistas iranianos “estão a trabalhar para resolver problemas em áreas que parecem legítimas, como os reactores onde é feito o enriquecimento” de urânio.

O acordo político permanente com Teerão desejado por Washington tem de estar terminado até ao fim do mês de Março, com os negociadores (o chamado grupo dos 5+1) a quererem um acordo técnico completo pronto até ao fim de Junho. Ora, Netanyahu tem eleições a 17 de Março, uma corrida complicada contra o centro-esquerda, e não vai desperdiçar nenhuma oportunidade para sublinhar o que considera ser a ameaça iraniana. Nos EUA, os republicanos também estão contra um acordo com o Irão e querem, pelo contrário, fazer aprovar novas sanções contra o país.

Assim que foi divulgado que Netanyahu falaria no Congresso no dia 3 de Março, a Casa Branca fez saber que Obama não se encontraria com ele, uma vez que as regras ditam que o Presidente não recebe líderes de outros países quando estes estão prestes a ir a votos. A Administração não foi informada do convite e considera isso “uma violação de protocolo”.

“O que aconteceu ao longo das últimas semanas por causa do convite que foi feito pelo presidente [da Câmara dos Representantes, John Boehner] e a aceitação por parte do primeiro-ministro Netanyahu, duas semanas antes das suas eleições, é que foi injectado nos dois lados um grau de partidarismo que não é só infeliz, penso que é destrutivo do tecido na [nossa] relação”, afirmou a conselheira nacional de segurança de Obama, Susan Rice, em declarações à televisão PBS.

Momento crítico

“Os responsáveis da Administração têm respondido à agressiva oposição de Netanyahu ao acordo nuclear que estão a negociar com o Irão – não estão contentes com o facto de o seu discurso no Congresso lhe dar uma plataforma para defender a sua posição quando as conversações estão no momento crítico”, analisa a jornalista Barbara Plett Usher, no site da BBC. “Os comentários de Susan Rice sublinham esta tensão e são a referência mais directa de um responsável aos danos causados pela controvérsia sobre a visita.”

Já depois de Rice ter falado, o porta-voz da Casa Branca avisou que a relação entre os dois aliados se está a tornar numa questão de política partidária. “O Presidente disse que a relação entre os EUA e Israel não pode ser reduzida a uma relação entre o Partido Republicano e o Likud”, o partido de Netanyahu, afirmou Josh Earnest.

Nem Obama nem os democratas, que se sentem obrigados a escolher entre o seu Presidente e a vontade de não irritar Israel, estão contentes. O líder israelita recusou entretanto um convite para se encontrar em privado com os senadores democratas. Alguns membros do Congresso, incluindo o vice-presidente, Joe Biden, já disseram que não estarão presentes durante a intervenção de Netanyahu.