Bons resultados na Arco? “Tens de trabalhar. Ponto”

Até domingo, 212 galerias de 30 países estão em Madrid. O mundo anterior a 2008 acabou, mas muitas das 12 galerias portuguesas participantes estão já satisfeitas com os seus resultados

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No stand da Cristina Guerra Contemporary estão duas obras de João Louro dr
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Rather Ripped Viana, marcada a 6700 euros, é uma das peças que Sara & André fizeram para a exposição que no final de Setembro inauguraram no Museu do Chiado. dr
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Lies (2014), de Alexandre Farto (Vhils) no stand Vera Cortês dr
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Lawrence Weiner na Cristina Guerra dr

Podíamos começar assim: no stand que a galeria 3+1 tem na Arco há vários trabalhos de Julião Sarmento. Mas, em rigor, temos de começar assim: no stand que a 3+1 tem na feira arte contemporânea de Madrid há vários trabalhos que se assemelham a obras de... Não são. Mas foi atrás deles que um coleccionador espanhol de Sarmento interpelou um dos responsáveis pela galeria, onde acabaria por passar uma hora do primeiro dia de visitas profissionais à feira, na terça-feira.

De um lado, a grande pintura Rather Ripped Viana (2014) tem as mesmas dimensões e poderia pertencer à mesma série que Estoril Yellow Plants (2013), que a galeria Cristina Guerra tem no seu stand. Mas Estoril Yellow Plants é de facto da autoria de Sarmento e está à venda por 92 mil euros. Rather Ripped Viana, marcada a 6700 euros, é uma das peças que Sara & André fizeram para a exposição que no final de Setembro inauguraram no Museu do Chiado.

De certa maneira, Exercício de Estilo, a primeira grande mostra da dupla num museu, acabou por ser uma antológica de Sarmento: Sara & André refizeram em não plágio a totalidade do arco temporal de uma carreira que arrancou nos anos 1970 para se tornar numa das mais bem sucedidas do século XX português, nomeadamente em termos internacionais. Agora, partilha alguns desses benefícios com a dupla, que, na Arco, vendeu várias outras obras da exposição do Chiado: todo um conjunto das 14 serigrafias de capas de livros que mimetiza uma série análoga de Sarmento (4500 euros), mais duas serigrafias individuais da mesma série (700 euros cada), uma pequena pintura branca (1700). E houve outras vendas, de outros artistas — esta quinta-feira, a meio do último dia de visitas profissionais à Arco e antes das grandes enchentes de público do fim-de-semana, os responsáveis pela 3+1 estavam já contentes com os seus resultados. O caso de quase todas as mais jovens das 12 galerias portuguesas que este ano participam na mais importante feira ibérica de arte contemporânea.

Eram 12h de terça-feira e a feira tinha aberto há apenas uma hora quando Vera Cortês diz ter atingido o break-even, ou seja, o ponto em que tinha já recuperado o investimento feito e a partir do qual começaria a lucrar. Nas paredes exteriores do seu stand duas grandes colagens de Alexandre Farto chamam a  atenção, sobretudo dos visitantes mais jovens da feira.

Farto é Vhils. E Vhils é um caso sério de afirmação internacional, sobretudo nos circuitos mais ligados à cultura urbana (aos 28 anos entrou na lista 30 under 30 da revista Forbes, ao lado de Cristiano Ronaldo e da cientista Maria Pereira). No momento de comprar, isso conta. Mas não é tudo.

Metros à frente fica o stand da Cristina Guerra Contemporary Art. Para além de Sarmento, a galeria tem no seu stand, entre outras peças, duas esculturas de Erwin Wurm (57.500 euros) e um desenho de Lawrence Weiner (40.500 euros). Tem também dois óleos de Juan Araújo que há quatro anos se vendiam por quatro mil dólares e hoje chegam ao mercado a 30 mil euros. Tem ainda duas grandes pinturas de João Louro, que, este ano, será o representante oficial português na Bienal de Veneza, a mais importante bienal de arte contemporânea do mundo.

Na Arco, as pinturas de Louro referenciam as capas dos tomos 1 e 2 da primeira edição em inglês de O Homem sem Qualidades, de Robert Musil. São trabalhos datados já de 2015. E em Veneza o artista terá trabalhos desta mesma série que, de momento, estão à venda por 20 mil euros e cujo valor, depois da bienal, subirá certamente. Mas, quando perguntamos à galerista se algum destes trabalhos está vendido, a resposta é negativa. O que se vendeu até agora no stand? A resposta vem acompanhada de uma gargalhada: “Absolutamente nada.”“Para nós a Arco tem sido assim”, diz a Cristina Guerra, a única portuguesa que faz sistematicamente as duas mais importantes feiras de arte contemporânea do mundo: Basel e a extensão norte-americana desta, em Miami. “Tem sido”, mas não foi sempre.

Antes de 2008, quando a falência do banco de investimentos norte--americano Lehman Brothers lançou a actual crise económica e financeira internacional, galerias como a Cristina Guerra estiveram entre as que beneficiaram da bolha do mercado da arte. Hoje, é mais difícil que artistas com o estatuto e os valores daqueles que representa vendam em feiras médias como a Arco.

Na Graça Brandão, por exemplo, espera-se até domingo a concretização da venda de quatro filmes da dupla João Maria Gusmão-Pedro Paiva apalavrada com o Museu Reina Sofia na edição de 2014 da Arco. Mas, hoje, feiras médias como a Arco servem melhor galerias ainda jovens. Como a Múrias Centeno, que em dois dias vendeu em Madrid sete trabalhos de Mauro Cerqueira e dois de Carla Filipe.

Sob o seu actual nome, a galeria tem apenas um ano: inaugurou-se em Janeiro de 2014, quando Bruno Múrias, antes assistente da galeria Filomena Soares, se juntou a Nuno Centeno, da galeria Nuno Centeno e, antes, da Reflexus. Juntos, ao longo dos últimos 13 meses, estiveram em sete feiras de arte. “Nós viajamos muito, agora. Conhecemos todos os galeristas da nossa geração e vemos que há muita gente mesmo boa a começar a vir à Arco e a gostar. Acho que é uma feira com muito potencial”, diz Nuno Centeno. Receita para bons resultados nesta feira? “Tens de trabalhar. Ponto.”

A jornalista viajou a convite da TourEspaña