Turismo e novos mercados ajudam Unicer a aumentar lucros em 24%

Dona da Super Bock está a “trabalhar com autoridades angolanas” para garantir abastecimento normal, apesar das quotas. E quer produzir localmente cevada e malte.

João Abecasis, presidente executivo da Unicer, quer produzir cevada e malte em Angola
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João Abecasis, presidente executivo da Unicer, quer produzir cevada e malte em Angola Rui Gaudêncio

O aumento do turismo em Portugal ajudou a Unicer, dona da cerveja Super Bock, a subir os lucros para 33 milhões de euros em 2014, mais 24% do que no ano anterior. Apesar de um Verão atípico – época essencial para a venda de cerveja – os visitantes estrangeiros foram determinantes para a empresa, que viu crescer em 3% as vendas globais (incluindo águas e refrigerantes), para 477 milhões de euros. Ao mesmo tempo, 33% da produção é destinada aos mercados internacionais. As vendas aumentaram quase 20% na Europa, Moçambique, Brasil e Arábia Saudita. Já em Angola, o segundo maior cliente depois de Portugal, o ritmo de crescimento abrandou.

Por cá, foi nos restaurantes e bares que o negócio se fez, até porque nos supermercados a pressão dos descontos não ajudou a estimular o consumo. “O contributo do canal horeca [hotéis, restaurantes e cafés] é de 64% em termos do sector e os nossos números são ligeiramente superiores”, disse ao PÚBLICO João Abecasis, presidente executivo da Unicer. “Não é para embandeirar em arco. Associamos isto ao mérito de todos os agentes, muito ligado ao turismo. Sentimos isso em Lisboa, no Porto e em toda a orla costeira, que apontam pistas e oportunidades para 2015”, continuou.

Nas prateleiras, pelo contrário, atingiu-se o limite. “Houve decréscimo, deflação. Atingimos o limite de um paradigma que não vai dar mais resultados. Há um desafio pela frente entre a indústria e a distribuição”, analisa.

A Unicer vai manter o investimento na produção de cerveja artesanal, categoria que nos últimos tempos tem vindo a ganhar terreno com o nascimento de dezenas de novos produtores. Como explica Rui Freire, director de marketing, a marca Selecção 1927 começou há dois anos com edições limitadas de quatro mil garrafas. No último Natal produziram-se 25 mil unidades. “É ainda uma gota no oceano mas o caminho de crescimento que tem tido, faz com que apostemos cada vez mais neste projecto”, adiantou. Este ano, a intenção é aumentar a presença nos bares e restaurantes, com uma “oferta permanente em determinados pontos de venda.

“Quando se vende 600 milhões de litros no global, 100 mil litros de edições limitadas é uma irrelevância simpática, que gera notoriedade e enaltece a experiência cervejeira”, acrescenta João Abecasis. Questionado sobre quotas de mercado da Super Bock, o presidente executivo não avança números, dizendo apenas que “as quotas não pagam salários, nem dividendos, nem compromissos com a banca”.

“Situação fluída” em Angola
Num ano em que reduziu a dívida de 165 milhões de euros para 140 milhões, a Unicer destaca o crescimento de 20% do negócio em mercados que designa de emergentes, como Moçambique, Brasil ou Arábia Saudita. Em Angola, o seu segundo maior cliente depois de Portugal e a valer um quarto das vendas, o ritmo de consumo abrandou, mas manteve uma evolução positiva, diz o CEO, sem adiantar números.

A introdução de quotas à importação de vários produtos alimentares, cerveja incluída, trouxe dores de cabeça aos cervejeiros, numa altura em que a empresa se prepara para avançar com a construção de uma fábrica em 2016. Contudo, João Abecasis garante que o problema das barreiras, adoptadas para desenvolver a economia e a indústria local muito dependente do petróleo, está a ser acompanhado pelo governo angolano. “O que é fundamental hoje - e é nisso que estamos a trabalhar com as autoridades de Angola – é garantir o normal abastecimento ao mercado”, disse.

Questionado sobre se a Unicer pediu uma excepção aos limites às importações (a lei permite o pedido de quota extra), João Abecasis diz que a “situação é fluída”. “O Governo tem procurado estabelecer um conjunto de medidas que lhe permitem ir controlando a situação [da descida do preço do petróleo] e nós temos sido ouvidos no sentido de, apesar dessas medidas e com essas medidas, se manter o normal funcionamento da economia”, disse.

Além da construção da fábrica, a intenção da Unicer é investir na produção local de cevada e malte, matérias-primas essenciais para a produção de cerveja e que Angola tem de importar. João Abecasis afirma que este é um passo que “faz todo o sentido”. “Trata-se da diversificação do sector industrial e também da agricultura”, justifica.

Em Moçambique, “os primeiros passos são positivos”, mas ainda sem escala para justificar investimento numa fábrica local. Já no Brasil, a produção de Super Bock feita através da parceria com a Riograndense atingiu cerca de um milhão de litros no primeiro ano. “O Brasil é um país complicado, mas muito atractivo”, diz João Abecasis. A Unicer não espera “crescimento explosivo” neste mercado, mas tem a sua cerveja à venda em 2500 supermercados em São Paulo, Rui de Janeiro e Belo Horizonte. A Água das Pedras entrou primeiro neste mercado e está em 1500 lojas e restaurantes, sobretudo no Rio de Janeiro. Ao mesmo tempo, foi na região da Ásia Pacífico que a Unicer mais cresceu (40%), graças às versões sem álcool.