Crítica

Oração aos santos da sexualidade popular

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A palavra popular tem as costas largas. Mas quando uma peça evoca Santareno e Régio dum só trago, já para não falar em García Lorca e García Márquez, estamos em pleno campo da poética do povo, nem que seja aparentemente. Os autores citados são antepassados ilustres desta peça, que ganhou em 2012 o prémio luso-brasileiro de dramaturgia António José da Silva, entretanto desactivado pelas instituições que o atribuíam.

Esta versão de Nossa Senhora da Açoteia, cortada — o texto original é maior — mas também enriquecida pelo actor e encenador Luís Vicente, é um retrato da pronúncia regional e das atitudes em relação ao sexo e ao casamento numa pequena comunidade piscatória, no caso do Algarve, nos anos 60 do século passado, que mostra, em especial, a tensão entre o desejo feminino e o desejo masculino, e o modo com cada um deles é, quando era, permitido. A história desta linhagem de mulheres foi inspirada por uma visita do autor, com a mãe e uma tia, a uma antiga fábrica de conservas transformada em museu.

O texto é o relato na primeira pessoa, como se falasse sozinha, mas na presença do marido, estendido na cama, dos segredos de família de uma mulher cujas antepassadas sempre mataram, mais tarde ou mais cedo, os cônjuges. A razão principal, entre outras, era a violência iniciada por eles quando elas não lhes davam filhos varões.

As mortes sangrentas são contadas com aparente descaso, como se outra coisa não pudesse ter acontecido, dada a sucessão de acontecimentos. Os atos sexuais são contados com gozo, em tom de confidência, mas sem fazer disso bicho de sete cabeças. Sem culpa nem censura, e sem pathos absolutamente nenhum, a mulher revela-se inocente, no fundo expondo uma ordem de valores que sai da esfera da moralidade burguesa — ou pelo menos a provoca. Não é todos os dias que se vê isto em cena. Mostrando-se como marioneta nas mãos do destino, ou pelo menos nas mãos da bisavó, da avó e da mãe, por sua vez vítimas dos homens do mar, esta mulher é quase santa. Depois de ganhar a nossa simpatia dessa maneira, as revelações finais — que não vamos contar — surgem como naturais, ao invés de monstruosas. Esse trabalho de desnaturalizar preconceitos é igualmente precioso.

O tom é realista, e vem das fontes documentais, biográficas e/ou etnográficas, mas o que conta na peça, como no espectáculo, são as metáforas e a simbologia dos actos e das circunstâncias. O lado feminino executa o lado masculino, não tanto de acordo com a cartilha freudiana, mas sobretudo segundo uma tradição de grotesco marítimo e rural, no qual se incluem os eventos milagrosos, que vem da literatura oral, e graças ao ar desabrido da narradora, que permite conjugar erotismo e culto religioso. Também não é frequente. Devia ser mais.