Estudo revela que 12,3% dos idosos portugueses podem ser alvo de violência

Inquérito da Associação Portuguesa de Apoio à Vítima (APAV) confirma que a violência contra os idosos parte, muitas vezes, dos familiares ou amigos.

Cerca de 30% dos idosos pagaram uma caução para entrar no lar
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Cerca de 30% dos idosos pagaram uma caução para entrar no lar Paulo Pimenta

Em cada mil portugueses com 60 ou mais anos, 123 pode ser alvo de algum tipo de violência por parte de familiares, amigos ou pessoas que trabalham com idosos, revela um estudo realizado entre 2011 e 2014 pela Associação Portuguesa de Apoio à Vítima (APAV). O trabalho envolveu instituições nacionais nos últimos quatro anos e os dados foram revelados esta segunda-feira, no Porto, numa conferência organizada pela Universidade Portucalense para discutir o tema Violência Doméstica. A APAV nota que a média nos outros países da União Europeia é de “21 a 22 casos por cada mil pessoas".

"São dados alarmantes e que confirmaram os alertas que a APAV tem vindo a fazer há vários anos", disse Maria de Oliveira, técnica da APAV , que explicou que este estudo foi feito através de chamadas telefónicas, a 1123 pessoas. Estes dados têm preocupado a associação que, para reforçar a informação dada às pessoas, apresentou esta segunda-feira uma campanha sobre os direitos das vítimas de crime. Esta ideia lança uma aplicação para telemóveis, androids e iphones de forma a esclarecer da melhor forma possível todas as vítimas de violência.

Envolvendo a APAV, GNR, Instituto de Medicina Legal, Instituto de Segurança Social e o Instituto Ricardo Jorge, os resultados do estudo demonstraram que são vários os factores associados a este tipo de situações. A idade, a incapacidade funcional e a reduzida escolaridade foram os mais destacados. Depois dos 76 anos, a possibilidade de o idoso sofrer algum tipo de violência cresce 10% a cada ano e a limitação para actividades diárias pode potenciar actos violentos.

De acordo com a técnica, chegou-se à conclusão que existe uma maior prevalência da violência financeira e psicológica, seguida da física. Menos relatada neste inquérito foram a negligência e a violência sexual.

Uma outra vertente da investigação incidiu sobre as vítimas assistidas pelos serviços das instituições. Concluiu-se que, das 510 pessoas assinaladas, a maioria mulheres (76,2%), tinham idades compreendidas entre os 60 e os 69 anos, eram casadas, com escolaridade reduzida e baixos rendimentos. Neste grupo, o tipo de violência mais relatada foi a física, seguida da psicológica e da financeira.

A conferência sobre Violência Doméstica reuniu especialistas das áreas da Psicologia e do Direito e Carlos Rodrigues, membro da coordenação científica do encontro, considerou que na sociedade actual "as pessoas imprimem ritmos demasiado acelerados às suas vidas, em lógicas muitas vezes individualistas" e advertiu para "os riscos de uma competitividade excessiva potenciadora dessa violência".

Segundo dados da APAV, entre 2000 e 2013, houve "um aumento de 149%" de processos de apoio a pessoas idosas vítimas de crime, o que "dá uma média de 15 por semana ou de 2,1 por dia".