“Aeroportos portugueses tiveram o maior crescimento desde a Expo 98”

O presidente da Vinci Airports, dona da ANA, deposita grandes expectativas na liberalização do transporte aéreo nos Açores. Para este ano, o grupo prevê investir entre 50 a 80 milhões de euros.

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Nicolas Notebaert, presidente da Vinci Airports, diz que aeroporto complementar à Portela ainda não começou a ser discutido João Silva

A Vinci Airports gerou receitas 717 milhões de euros em 2014. Que fatia coube à ANA?
O ano passado foi fantástico. A ANA representa cerca de 75% dos resultados da Vinci Airports. Em termos de tráfego, a Vinci Airports teve um crescimento foi de 9,1%, mas em Portugal a subida atingiu 9,5%. No Camboja foi um pouco superior, de 12,8%, e em França tivemos o maior crescimento em Nantes, com 5,8%. Foram bons resultados em todas as geografias, mas a maior conquista para a ANA foi o facto de os aeroportos portugueses terem tido em 2014 o maior crescimento desde 1998, desde o ano da Expo. Foi um ano muito particular para Portugal, porque teve o dobro do crescimento da Europa. E, além de ser o melhor resultado em 16 anos, há um crescimento continuado, porque em 2013 a subida já tinha sido de 5%.

O que explica este crescimento?
Há dois ou três factores. Em primeiro lugar, um esforço conjunto das equipas da Vinci Airports e da ANA, porque a fusão foi muito bem-feita e 2014 foi o primeiro ano em que caminhámos juntos. Em segundo lugar, trabalhar com todo o tipo de companhias de aviação. A TAP abriu rotas que reforçam a relação do hub [placa giratória] de Lisboa com a América Latina, foi o primeiro ano completo da Ryanair em Lisboa, a Transavia cresceu muito, em particular na Madeira e em Lisboa, e a Easyjet, que já era muito forte na Portela, abriu a base no Porto. E, em terceiro lugar, houve uma cooperação muito próxima com as entidades de turismo em Portugal, com as autarquias e com o Governo. O verdadeiro sucesso é o que se partilha. Já este ano, o maior crescimento está a vir dos Açores por causa da liberalização do transporte aéreo. A região tem um potencial tremendo.

Pode concluir-se que uma parte importante do crescimento foi conseguida à custa das low cost, já que nomeou três?
Todas as companhias contribuíram. A TAP abriu muitas rotas e foram bem-sucedidas. A Ryanair teve sucesso em Lisboa e a Easyjet no Porto. Todas as companhias de aviação cresceram e particularmente as principais: TAP, Easyjet, Ryanair e Transavia. Não foi uma particularidade das low cost. Foi o sucesso do produto. O que a Vinci disse ao Governo português há três anos, aquando da privatização, é que está comprometida com o desenvolvimento dos aeroportos. E se virmos os resultados de 2014 é isso que reflectem. Essa é a estratégia e a ANA e os aeroportos portugueses são a peça-chave.

Esperam um grande impacto em 2015 da liberalização do transporte aéreo nos Açores, que acontecerá em Março?
Já estamos a senti-lo. Desde o início do ano, o tráfego está a crescer 15% no país e os Açores estão com um crescimento 25%. E isto antes da liberalização. As políticas de atracção de turistas e as alterações nas tarifas já estão a ter efeitos.

O que esperam dos Açores este ano?
É difícil de prever. Uma boa notícia em 2014 foi o facto de não haver uma canibalização da rede. O crescimento de algumas companhias de aviação não penalizou outras. O que não sabemos sobre o mercado açoriano é qual é o limite na oferta das companhias. Posso assegurar ao Governo Regional dos Açores que podemos contribuir para o crescimento das ilhas porque já existe capacidade em termos de voos e o restante mercado pode seguir este crescimento, nomeadamente os hotéis. O aumento do tráfego que temos sentido desde o início do ano, em meses fracos como Janeiro e Fevereiro, é um sinal. O produto é fantástico, as companhias de aviação acreditam nele e a ANA, com o apoio da Vinci Airports, está disponível para suportar o crescimento da região.

E quais são as expectativas em termos de subida global do tráfego em Portugal para 2015?
Para ser honesto, 9,5% é o maior crescimento desde 98. Não é um standard para fazer comparações. O aumento de 5% em 2013 já tinha sido muito bom. O que queremos é seguir uma política de sustentabilidade do crescimento, estamos comprometidos a longo prazo com a ANA. Não pensamos em objectivos a curto prazo. Deveremos ter bons resultados este ano, porque começámos muito bem, mas não queremos fixar barreiras.

O que seria um crescimento sustentável? Voltar aos 5% de 2013?
Diria que estaremos sempre a pensar em crescimento e tudo o que seja acima de 4% é um resultado fantástico, porque é a média. Mas julgo que ficaremos acima da média durante o ano. O crescimento do tráfego é bom para toda a gente. É bom para o país, para os hotéis, para a economia, significa criação de postos de trabalho e esse é um dos nossos grandes compromissos para com o país. E depois reinvestir os ganhos para garantir a sustentabilidade do crescimento.

Qual é o plano de investimentos para este ano?
O plano estratégico foi aprovado no ano passado pelo Governo e prevê um investimento global entre 270 e 300 milhões de euros em cinco anos. Mas insistimos em dois ou três pontos. O primeiro é sermos muito reactivos. Avaliamos e mudamos o programa de investimentos todos os anos de modo a responder aos objectivos de qualidade que estão plasmados no contrato. Alocamos uma parte do investimento para resolver constrangimentos nas infra-estruturas. No passado, o programa era muito mais rígido. Em segundo lugar, estamos a preparar mudanças nos aeroportos de Lisboa, Porto, Madeira e Faro, que não têm como único objectivo aumentar a capacidade, mas também a qualidade.

Qual será o valor do investimento para este ano?
Ficará entre 50 e 80 milhões de euros. É um ano importante do plano de investimentos e será dedicado a todos os aeroportos. Temos equipas a avaliar os constrangimentos em todas as infra-estruturas e trabalhar nas mudanças que são necessárias no imediato.

Apesar da liberalização nos Açores, não vai ser necessário um investimento adicional na região?
Não. Temos capacidade instalada e naturalmente vamos monitorizando para nos certificarmos que a infra-estrutura responde ao que é preciso. É muito mais uma questão de organização, porque a capacidade está lá.

E relativamente ao aeroporto da Portela. Está ou não a ser analisada a abertura de um aeroporto complementar?
Há apenas uma regra sobre esse tema que é o contrato assinado com o Governo e que estabelece pré-condições a partir das quais essa discussão começará. Fazemos o nosso melhor para crescer o mais possível e é claro que, se crescermos dessa forma, essa pré-condições serão alcançadas rapidamente. Mas não se pode definir uma data. Essas pré-condições incluem, por exemplo, patamares ao nível do tráfego (acima de 22 milhões de passageiros) e do número de movimentos (acima de a 185 mil). Nessa altura, estaremos preparados para discutir. Não há como pensar nisso antes porque o contrato é claro.

Não será tarde iniciarem a discussão só nessa altura?
Estas pré-condições não correspondem ao limite de capacidade do aeroporto, mas sim ao ponto de partida para se iniciar a discussão. O tempo que restar após o cumprimento destas pré-condições será suficiente para organizar o tráfego num aeroporto complementar.

Portanto, está a dizer que a discussão ainda nem sequer começou.
Não, não poderia começar.

Começou na praça pública já há algum tempo, como sabe.
Durante o processo [de privatização] é natural que nos tenhamos debruçado sobre o tema. Era o nosso dever. Mas a partir daí cumprimos o contrato. Todos podem ver que estamos a fazer o nosso melhor para que estas pré-condições sejam atingidas o mais cedo possível. Mas a discussão só acontecerá quando forem alcançadas.

Quando prevê que essas pré-condições sejam atingidas?
Não temos uma data fixa, mas tendo em conta os resultados que temos conseguido é de esperar que sejam atingidas nos próximos anos. Não participámos na elaboração deste contrato. Estamos só a cumpri-lo.

Mas é certo que o Montijo será o local escolhido para o aeroporto complementar?
Não pensamos dessa forma. Fazemos o nosso melhor para cumprir as pré-condições e depois temos tempo suficiente para estudar todas as opções.

O que pensa da política de separar as low cost das companhias tradicionais?
A prova de que não podemos iniciar a discussão agora é precisamente essa. Ninguém sabia dizer, com certezas, como iria ser o desenvolvimento das companhias de aviação nos últimos dez anos. Tudo muda a todo o tempo. Se estivermos a trabalhar antes da hora, vamos cometer erros. A vantagem deste contrato é que essa avaliação só será feita numa altura em que já saberemos melhor qual vai ser a evolução.

O aumento das taxas aeroportuárias tem sido um tema muito polémico, que levou inclusivamente a associação das companhias de aviação em Portugal e a IATA (que representa o sector a nível internacional) a fazer uma queixa ao regulador do sector. Que decisão espera?
Há um regime regulatório que foi criado pelo Governo antes da privatização. É novo, claro e os resultados de 2014 mostram que é provavelmente melhor do que o anterior. O que esperamos é que esse regime seja aplicado. Isto não é um jogo entre actores. São regras. Estou confiante de que a regulação será cumprida. Há regras, que foram definidas claramente, que a ANA cumpriu e que provaram ser eficientes para permitir o crescimento. Além disso, os preços dos aeroportos portugueses são muito baixo comparativamente com os seus concorrentes. Estamos cerca de 15% abaixo dos aeroportos comparáveis. Os aeroportos portugueses são muito baratos.

Já estavam à espera desta oposição por parte das companhias ou foi uma surpresa?
Se perguntar na rua às pessoas que compram pão se o preço deve aumentar, a resposta vai ser não. Há uma regulação e é preciso aplicá-la. Estamos confiantes de que o INAC irá aplicar as regras.

A privatização da TAP finalmente avançou. Quais são as vossas preocupações em relação a este processo?
Não temos preocupações. Em 2012, quando estávamos a concorrer pela ANA, havia um processo a decorrer em simultâneo para a TAP. Já sabíamos que [a privatização] iria acontecer. Em segundo lugar, o nosso compromisso desde o início é garantir o sucesso dos aeroportos portugueses e do hub de Lisboa. Sabemos que esse é o mesmo interesse do Governo e estamos confiantes de que qualquer escolha que seja feita terá em vista esse interesse.

Mas tendo em conta as restrições que existem nos auxílios estatais a companhias europeias, preferem ter uma TAP privada?
Não faremos comentários sobre o tema porque a estrutura de capital da empresa é uma decisão do Governo. O que podemos dizer é que, no nosso caso, ninguém pode dizer que a privatização da ANA não foi um sucesso.

Só não falou ainda do aeroporto de Beja. Os resultados em 2014 não foram bons?
Foram. O tráfego cresceu um pouco. A estratégia assenta muito no transporte de carga e tem de estar muito associada ao desenvolvimento da própria região do Alentejo, que é um activo para o futuro. Preparar uma região para o turismo é um projecto a longo prazo. Mas acreditamos que esta transformação ocorrerá no médio prazo. O activo está lá.

Já conseguiram fechar o acordo com o investidor que pretendia instalar na região uma unidade de desmantelamento de aviões?
Julgo que ainda estamos a trabalhar nesse tema. É preciso entender bem o mercado, avaliar como nos manteremos competitivos. Em Beja temos a capacidade. A solução por agora é trabalhar nas áreas de manutenção e da carga, mas também a preparar o mercado. Convencer os operadores a voar para lá. Mas estou confiante por causa da qualidade do activo Alentejo.

Em termos internacionais, qual é a visão da Vinci Airports, agora que acabaram de ganhar a concessão por 20 anos do aeroporto de Santiago do Chile?
O Chile prova o que estamos a tentar fazer com a ANA. Desde o início dissemos que queremos crescer como um grupo e a ANA é a peça-chave. O sucesso em Santiago do Chile foi enorme, porque é um aeroporto que movimenta 16 milhões de passageiros por ano e permitiu-nos entrar no terceiro continente, depois da Europa e de África. Estamos focados na América Latina e primeiro vamos digerir esta vitória, que é boa para todos. Vamos descobrir novas companhias de aviação e tentar convencê-las a voar para Portugal. É uma conquista boa para a rede e permite também aos trabalhadores ambicionarem uma carreira internacional. Vamos continuar, naturalmente. Do Japão, índia e Indonésia também recebemos aproximações. Assinámos um memorando de entendimento na Sérvia e haverá em breve novos processos em África e na América Latina a que estaremos atentos. Somos um actor global.