Editorial

Empresas e famílias já ajustaram. E o Estado?

A dívida pública portuguesa ainda não inverteu a trajectória de crescimento – o que é preocupante.

Viver acima das possibilidades significa gastar aquilo que não se tem. E, quando se gasta aquilo que não se tem, tem de se ir pedir emprestado a quem tenha. Segundo muitos economistas, foi este comportamento que, levado ao extremo, levou o país quase à bancarrota em 2011. Como tal, a evolução dos empréstimos do Estado, das famílias e das empresas é um bom indicador do ajustamento que o país teve de fazer.

Os números publicados esta segunda-feira pelo Banco de Portugal mostram que as famílias e as empresas estão claramente a mudar de comportamento. O peso da dívida das empresas privadas no PIB caiu de 155,8% no final de 2013 para 142% no final de 2014. Uma evolução que reflecte com certeza o abrandamento da economia, as restrições da banca ao crédito, mas também é o espelho do esforço que o tecido empresarial tem feito para se libertar das amarras do endividamento excessivo.

Se olharmos para o comportamento das famílias, a evolução vai no mesmo sentido positivo. O Boletim Estatístico de Fevereiro mostra que o total do endividamento dos particulares caiu de 91,3% do PIB no final de 2013 para 85,7% no final de 2014, com a redução dos empréstimos à habitação a desempenhar um papel crucial para reequilibrar as contas das famílias.

O reverso da medalha são os valores da dívida do Estado que, mesmo depois do resgate, continuam a subir (para 128,7% do PIB), contrariando as previsões do próprio Orçamento do Estado. E, mesmo descontando o efeito da almofada de liquidez, o rácio do endividamento sobe. Uma parte da escalada da dívida pública estará relacionada com fenómenos contabilísticos, como, por exemplo, a contabilização da dívida de empresas públicas que antes estavam fora do perímetro do Estado. A outra parte deve-se à ausência da reforma do Estado que faça diminuir os gastos públicos de forma permanente. E aqui ainda há muito por fazer.