Entrevista

“Só falta convencer os portugueses a acreditar em Portugal”

Luiz Schwarcz esteve em Lisboa a lançar a Companhia das Letras Portugal, chancela do grupo editorial Penguin Random House. Trará para o mercado português autores brasileiros, consagrados, clássicos e jovens. É a editora mais carismática do Brasil.

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Luiz Schwarcz é o editor no Brasil de José Saramago, Miguel Sousa Tavares, Chico Buarque, Ruy Castro, Fernanda Torres João Silva

Este foi o ano “mais trabalhoso” da vida do editor brasileiro Luiz Schwarcz, que nasceu em São Paulo em 1956. Mesmo assim, o fundador da Companhia das Letras levou para férias o seu computador onde iam 100 páginas escritas de um futuro romance. Não é o primeiro que tenta fazer.

Os seus livros, nunca editados em Portugal – Discurso sobre o capim e de Linguagem de sinais –, foram romances fracassados que se transformaram em contos. Mas no momento em que imaginou o título deste livro e entendeu como ele acabava, Luiz Schwarcz também chegou à conclusão de que não tem tempo suficiente para se dedicar ao romance. “Então está parado e não vejo chance de o continuar a curto prazo. Talvez tenha de voltar a ele noutro momento da minha vida”, conta ao PÚBLICO sentado no pátio de um hotel lisboeta.

Desde que, em 2011, Schwarcz vendeu 45% da Companhia das Letras à Penguin, casa que se associou mais tarde à Random House formando o maior grupo editorial do mundo, a sua vida mudou. Apesar disso permanece o editor de ilustres escritores brasileiros, agora em associação com outros membros da sua equipa. Está a trabalhar com o editor Otávio Marques da Costa no próximo livro de Ruy Castro, que sairá este ano no Brasil. É uma obra que conta o que aconteceu na época antes de Chega de Saudade, outro livro do autor que reconstitui a vida boémia e cultural carioca dos tempos da Bossa Nova.

“É a volta do Ruy à história da música - fala dos casinos e das boates do Rio de Janeiro antes do aparecimento de João Gilberto - e a volta a um livro de não-ficção longo, como foram os seus outros livros e que faz tempo [que] ele não faz”, revela o editor na manhã seguinte ao lançamento, em Lisboa, do novo romance de Chico Buarque, O Irmão Alemão, e da apresentação da chancela Companhia das Letras, da Penguin Random House Grupo Editorial em Portugal.

A edição portuguesa de O Irmão Alemão, o primeiro livro da chancela Companhia das Letras em Portugal, é diferente da brasileira. Porquê?
Queremos respeitar a independência editorial da Companhia das Letras de Portugal. Há uma vontade, uma decisão, para que os livros tenham uma pequena diferença gráfica. Neste caso o tamanho do livro é um pouco diferente também. Vivemos em países diferentes, alguns padrões gráficos são diferentes e isso é bom.

Também vão fazer adaptações para o português de Portugal?
Neste livro não aconteceu. Imagino que a decisão vá ser tomada caso a caso. Não sei exactamente como a Clara Capitão [directora da Penguin Random House Portugal] optará por fazer nos romances Fim, de Fernanda Torres, ou em Dias Perfeitos, de Raphael Montes. Eles podem eventualmente justificar um glossário no final para algumas gírias, para termos que não são conhecidos do português. Ou eventualmente pequenas substituições com a aprovação do autor, não acho que se deva sacralizar o texto dessa maneira. É muito importante que as diferenças sejam mantidas para que o sabor local da literatura se mantenha, no entanto se isso prejudicar a compreensão acho que questões podem ser levantadas e resolvidas caso a caso.

Já houve autores brasileiros descontentes com a adaptação feita por editoras portuguesas. Ruy Castro é um deles.
O autor vai ter que ser consultado, o papel do editor nesse caso é recomendar. Se o editor da Companhia das Letras de Portugal recomendar algumas mudanças, o meu papel será de criar esse diálogo, essa ponte, para que o leitor português possa ter a compreensão necessária sem que isso implique alguma perda da própria qualidade literária do texto.

Em 2011, numa entrevista ao PÚBLICO, dizia que não se sentia motivado para a internacionalização da Companhia das Letras mas “quem sabe um dia...”. Esse dia chegou?
Chegou um pouco por acaso. [O ano passado] vim a Portugal para o lançamento de Alabardas, de José Saramago e me dispus a fazer uma reunião no sentido de se entender o futuro da Penguin Random House Portugal em conjunto com a Companhia das Letras. Nessa reunião, um pouco por acaso, lembrei que há autores brasileiros que têm muito sucesso aqui, há clássicos brasileiros que estão fora do mercado português - que têm leitura escolar e são muito importantes, como o Carlos Drummond de Andrade ou o Vinicius de Moraes - e perguntei se haveria algum interesse em publicá-los aqui. E acrescentei se por acaso o selo [a chancela] Companhia das Letras ajudaria. Foi uma pergunta, não vim preparado com essa proposta, o que é um pouco diferente de optar por uma internacionalização.

Mas reconhece que é uma internacionalização.
Sim, mas conta com o investimento e o apoio da Penguin Random House daqui. Isso facilitou muito. De alguma forma não é no sentido da sua pergunta de 2011, de a Companhia criar um empreendimento em Portugal. O que se passou é que a minha proposta foi acolhida com entusiasmo, tanto pela Clara Capitão como pela Núria Cabutí Brull, a executiva da Penguin Random House (PRH) em Espanha, que tem uma relação mais próxima com a gestão do grupo em Portugal, e a partir daí comecei a me contradizer em relação à sua pergunta de 2011...

Meses depois dessa conversa vendeu 45% da Companhia das Letras que fundou.
Quando a Penguin nos procurou e disse que aceitaria comprar uma porção minoritária da Companhia estudámos pela primeira vez mais a fundo a ideia de nos associarmos a um grupo maior. Já havíamos sido procurados por outros grupos, inclusive portugueses, e nunca nos interessou. Mas no momento em que a Penguin nos procurou estava claro para mim que a Companhia das Letras -  que havia começado o seu trabalho como um selo exclusivamente literário e teve um papel bastante importante no sentido de democratizar a alta cultura no Brasil -, se permanecesse exclusivamente como era, se transformaria num projecto de nicho, elitista, em vez de ser um factor democratizante. Com o Brasil novo, com as classes C e D passando a consumir livros, a Companhia precisava de se abrir para esses novos leitores.

Queria criar chancelas mais populares, sem tradição na Companhia...
Nesse sentido a Penguin traria uma grande ajuda para a formação dos novos selos comerciais que não são a minha especialidade como editor. Foi uma das razões para aceitar a venda, já que com essa associação teríamos essa apropriação de know-how de uma área editorial que desconhecíamos. Além disso, na altura olhávamos para o mundo digital e imaginávamos um crescimento bem mais rápido [do que aconteceu no Brasil, o último país onde a Amazon se instalou]. De alguma forma pensámos que a associação com um grupo editorial internacional nos abreviaria o conhecimento do marketing e das técnicas de edição digital.

Com a venda, o seu papel na editora mudou?
Mudou porque tenho um tempo considerável destinado a viagens para a ligação da Companhia com as outras empresas do grupo. Por exemplo, hoje a Companhia das Letras tem acesso privilegiado aos direitos internacionais do grupo Penguin Random House. Temos uma primeira leitura garantida dos livros cujos direitos pertencem à Penguin Random House e acesso às escolhas editoriais que estão sendo feitas dentro do grupo. Depois procuro estabelecer uma troca de informações rápida entre as empresas de Espanha, Portugal, Estados Unidos, Inglaterra e do Brasil.

Há já uma mudança em relação ao que era habitual fazer-se. A Companhia das Letras está a comprar direitos para os diferentes territórios de língua portuguesa, para o Brasil e Portugal.
Em alguns casos, estamos tentando. Apresentamos à Penguin Random House de Portugal e tentamos verificar o que há de interesse comum e comprar junto. A compra de direitos em conjunto em alguns casos de livros que não sairão necessariamente aqui pelo selo Companhia das Letras mas poderão sair pelo selo Alfaguara ou Objectiva [que pertencem ao grupo Penguin Random House desde a compra das edições gerais da Santillana em 2014] é um apoio, um sinal de que o investimento do grupo é duradouro, é significativo, e de que o grupo acredita em Portugal. Vejo pelas minhas visitas que só falta convencer os portugueses a acreditar em Portugal. Os espanhóis, os americanos e agora um brasileiro acreditam.

A LeYa tinha como objectivo vir a ser o grande grupo para a língua portuguesa. Não conseguiu. Talvez esteja a acontecer o contrário agora vindo do Brasil.
Mas vamos com calma.

Contudo a Núria Cabutí Brull, no lançamento da Companhia das Letras Portugal, lembrou que a Penguin Random House quer reforçar os laços entre ambos os lados do Atlântico. Disse que o que fizeram para a língua espanhola querem agora fazer para a portuguesa.
Sim, no entanto gostaria de diferenciar um pouco a forma de se fazer isso. Não há uma pretensão de se formar um grande grupo no sentido de dominar o mercado de língua portuguesa. Isso é muito importante e pode não ser percebido pela sua subtileza. A entrada da Companhia das Letras aqui é uma entrada respeitosa, não é uma entrada pretensiosa, não estamos dizendo que ‘viemos para dominar o mercado português’. Não. Há que ir com calma, ir realizando um objectivo, que mesmo sendo realizado por um grande grupo não tem a pretensão de hegemonia. Assim a possibilidade de sucesso é muito maior. São passos que são dados com solidez, passos que são dados não no sentido de conquistar o que é do outro ou uma fatia de mercado, esse raciocínio nunca foi parte do raciocínio da Companhia das Letras.

Este ano irão publicar dez livros, alguns de autores literários. Chico Buarque é um caso à parte, mas a média de vendas de autores brasileiros literários em Portugal é muito baixa. O que vão fazer para o combater?
Todo o trabalho é comandado pela Companhia das Letras em Portugal, as decisões são tomadas pelos editores daqui. Dois dos livros brasileiros que sairão pela Companhia das Letras haviam sido contratados pela Objectiva antes da junção das duas editoras no mesmo grupo: o romance de Fernanda Torres e o de Raphael Montes. São livros que foram vendidos para muitos países e tiveram um desempenho muito acima da média no Brasil. No caso da Fernanda, valores acima de 50 mil exemplares, no caso de Raphael cerca de 15 mil o que é um número significativo para um jovem escritor. Já havia uma expectativa comercial para esses dois livros independentemente do selo em que seriam publicados.

E quanto aos outros?
Quanto aos livros dos clássicos brasileiros, leitura obrigatória nas escolas, a expectativa é que a sua vinda é segura. Não sei se representará mil, dois mil exemplares vendidos, mas talvez não sejam números baixos pela importância que trazem como clássicos da literatura de língua portuguesa. No entanto não haverá uma imposição na Companhia das Letras daqui de um número de títulos brasileiros a serem publicados. A constituição do nome Companhia das Letras em Portugal e a junção dos brasileiros com os jovens escritores portugueses ou africanos [Afonso Cruz, João Tordo e Ricardo Adolfo passarão a ser editados em Portugal com a chancela Companhia das Letras] poderá abrir um campo um pouco maior para os autores brasileiros em Portugal. Vamos ver. É um desafio como disse.

Vê algum futuro para as editoras independentes?
A maior parte das editoras brasileiras não faz parte de um grupo internacional, a Companhia das Letras é uma excepção. Também não há no Brasil o predomínio da gestão internacional, mesmo na Companhia das Letras a gestão é local. Temos a maioria e se não a tivéssemos teríamos a gestão que é local. Por isso, de qualquer forma, considero a Companhia uma editora independente. Agora você pode perguntar qual será o futuro das pequenas editoras.

 E qual é?
Talvez hoje ele seja mais difícil no sentido de que há um problema para editoras exclusivamente literárias. A literatura em tradução ou a literatura estrangeira, mesmo que não em tradução – pegando o exemplo da literatura brasileira em Portugal –, ela é comercialmente muito difícil. Antigamente, quando a Companhia começou, um livro que considerávamos um fracasso vendia 2500 exemplares. Hoje um fracasso no Brasil pode representar 400 a 500 exemplares. Como é possível gerir empresas que vendem tão pouco? Essas empresas podem continuar sem uma mirada comercial paralela, com outros selos, como nós fizemos? As editoras mais bem-sucedidas no Brasil – fora a Companhia ou a Record, mais tradicionais - são editoras como a Sextante ou a Intrínseca, com uma aposta quase exclusivamente comercial. Por isso há um desafio muito difícil para o editor literário pequeno. É muito preocupante o futuro da literatura internacional. No futuro só será possível que os mercados voltem a ser muito localizados? Mas a graça da literatura não está no facto de permitir essa troca, essa quebra de fronteiras? Essa é uma questão muito preocupante à qual não sei responder.