Opinião

D. Pedro V, Portugal e a Grécia

Hoje a Grécia anda pior do que nós. Mas no fundo não somos muito diferentes.

Excepto Jorge Almeida Fernandes neste jornal e José Manuel Fernandes no Observador, que se deram ao trabalho de estudar antes de escrever, toda a gente fala na Grécia sem saber o que foi ou o que é a Grécia; e toda a gente compara Portugal com a Grécia por causa de embaraços financeiros vagamente comuns.

Para meu espanto, esta comparação tem uma curiosa história. Por volta de 1860, um escritor francês, Edmond About, publicou um livro de viagens que se chamava A Grécia Contemporânea, que, a julgar pelo número de citações, se vendeu muito bem em Portugal. O próprio rei, D. Pedro V, o leu; e não só o leu mas também aplicadamente o anotou à margem. E quando morreu, em 1861, não se sabe como o exemplar dele circulou para grande felicidade da oposição ao “fontismo”. Porquê?

Porque D. Pedro V, uma criatura melancólica, a cada aberração que About contava da Grécia, indicava estudiosamente ao lado a aberração correlativa em Portugal. Aos políticos gregos dava os nomes dos seus semelhantes portugueses. Onde se contava a “indignidade”, a corrupção e a trapacice da política grega, ele ia registando exemplos de cá. Até ao lado da história de um ministro da Fazenda (das Finanças) grego que era ladrão, ele não se esquecia de um ministro da Fazenda português com o mesmo cadastro. Como o rei, Eça e Ramalho e o grosso da “inteligência” da época achavam que o livro de About era uma “descrição exacta” de Portugal, embora nós não tivéssemos tantos salteadores, porque nas nossas montanhas não havia infelizmente nada para roubar.

E, no entanto, a dívida pública da Grécia não passava, por essa altura, de uma pequena fracção da dívida pública de Portugal, que excedia (em 54.000 contos) a dívida conjunta da Grécia, da Bélgica, da Suíça, da Dinamarca e da Noruega. Portugal, que estava em paz desde 1850 e, além disso, numa longa fase de estabilidade doméstica, devia à banca francesa e à banca inglesa (em 1882) 420.000 contos, para um orçamento de Estado de 26.000 contos (segundo Rui Ramos, em 1890, quando tudo rebentou devia 600.000). Hoje a Grécia anda pior do que nós. Mas no fundo não somos muito diferentes. Metemos na cabeça, tanto uns como outros, que o mundo era responsável pelo nosso conforto e prosperidade: uma triste ilusão que nos levou ciclicamente à pior das misérias. Uma ilusão que não se muda com demagogia ou com chantagem, por muito que seja o nosso descaramento e fervor.