Depois de Debaltseve, separatistas avançam para Mariupol

Líderes europeus mantêm que os acordos de Minsk têm de ser aplicados. Capturados pelo menos 90 soldados ucranianos durante retirada de Debaltseve.

Fotogaleria
Soldados ucranianos celebram saída de Debaltseve Anatolii Stepanov / AFP
Fotogaleria
Poroshenko comunica ao país a queda de Debaltseve Reuters

Uma semana depois da assinatura do acordo de cessar-fogo em Minsk, os combates continuam no Leste da Ucrânia. A Alemanha, a França e a Rússia insistem na necessidade de levar à prática os compromissos acordados na capital bielorrussa, mas a realidade do terreno volta a impor-se. Depois de perder Debaltseve, as autoridades ucranianas pedem agora o envio de uma missão de pacificação da ONU.

Após vários dias com os combates confinados a Debaltseve, esta quinta-feira os confrontos voltaram a outros locais onde o cessar-fogo até tinha sido cumprido. Para além da continuação de bombardeamentos na cidade recém-tomada pelos separatistas, houve fogo de artilharia em Donetsk e lançamento de rockets perto de Mariupol, no Sul do país.

O foco mais preocupante é precisamente o da cidade portuária no mar de Azov – com 500 mil habitantes, Mariupol é o mais importante reduto nas regiões de Donetsk e Lugansk sob controlo de Kiev. Várias posições ucranianas foram atingidas por morteiros disparados pelas forças rebeldes em Shirokine, a 30 quilómetros de Mariupol, disse à Reuters um porta-voz militar. Os comandos pró-russos estavam a concentrar reservas naquela zona e persiste o receio de que seja lançado um ataque à cidade. Com a conquista de Mariupol, os rebeldes abririam uma ligação terrestre à península da Crimeia.

As novas ofensivas vêm derrubar as esperanças que ainda persistiam de que o cessar-fogo acordado em Minsk pudesse finalmente vingar. Durante a cimeira de Minsk, a pedra na engrenagem das negociações tinha um nome: Debaltseve. Os separatistas pró-russos consideravam que aquele nó ferroviário estratégico devia ficar de fora do regime de cessar-fogo, uma vez que as suas tropas estavam prestes a tomá-lo.

No terreno foi isso que acabou por acontecer. O cessar-fogo entrou em vigor à meia-noite de domingo em toda a linha da frente, com excepção de Debaltseve, onde continuavam as investidas das forças rebeldes. Na quarta-feira, a resistência do Exército ucraniano foi oficialmente terminada pelo Presidente ucraniano, Petro Poroshenko.

A luta por Debaltseve não era nada que surpreendesse os líderes ocidentais, que manifestaram esperança de que, assim que esse capítulo estivesse fechado, as tréguas pudessem finalmente florescer. O tom dominante das reacções de Berlim e de Paris à tomada da cidade foi de condenação pela ofensiva rebelde, mas sem colocar em causa o acordo de “Minsk 2”.

Esta quinta-feira, os líderes da Alemanha, França, Rússia e Ucrânia participaram numa conferência telefónica em que continuou patente o desejo de que o acordo de Minsk seja cumprido, de acordo com a AFP. Poroshenko pediu aos homólogos “garantias claras”, que não foram explicitadas, em caso de novas “violações dos acordos” pelos rebeldes.

Pedido à ONU

O Presidente ucraniano anunciou esta quarta-feira que vai pedir às Nações Unidas que enviem uma missão de manutenção da paz para verificar o cumprimento do cessar-fogo no Leste do país. Horas depois de ter anunciado a saída de milhares de tropas governamentais da estratégica cidade, Poroshenko convocou uma reunião de emergência do Conselho de Segurança e Defesa Nacional que se estendeu pela noite de quarta-feira e em que o pedido foi aprovado.

“O melhor formato para nós é uma missão de supervisão da UE. Será o garante mais eficiente de segurança numa situação em que a palavra da paz não é observada nem pela Rússia, nem por aqueles que apoia”, disse o Presidente, de acordo com um comunicado. A questão do envio de uma força de pacificação foi discutida com a chanceler alemã e com os presidentes da França e da Rússia – os países que mediaram o acordo de Minsk na última semana –, diz o mesmo documento. Cabe agora ao Parlamento aprovar a decisão da presidência e do conselho de segurança.

O pedido de uma missão de manutenção de paz foi criticado pela Rússia, que o encara como um passo para “destruir os acordos de Minsk”. “Quando alguém, em vez de fazer aquilo que foi acordado, promove um novo esquema alimenta a suspeita de que deseja destruir os acordos de Minsk”, afirmou o embaixador russo na ONU, Vitali Churkin.

Com o envio de “capacetes azuis” das Nações Unidas para a Ucrânia dependente da luz verde do Conselho de Segurança – onde a Rússia dispõe de poder de veto – torna-se praticamente impossível que a pretensão de Kiev venha a ser acolhida. É preciso recuar até aos anos 1990 para encontrar a última ocasião em que a ONU aprovou o envio de uma força de pacificação para um país europeu, na altura para os Balcãs na sequência do colapso da Jugoslávia. Por definição, uma missão deste cariz é enviada em situações pós-conflito para assegurar a transição do estado de guerra para a paz.

Para Kiev, a perda de Debaltseve enfraqueceu as perspectivas de que o cessar-fogo seja estabelecido de acordo com os parâmetros de Minsk. Na quarta-feira, cerca de 2500 soldados pró-Kiev abandonaram Debaltseve, depois de dias de investidas dos comandos rebeldes. Vários jornalistas no local vinham relatando um cerco que se estendia há pelo menos uma semana, o que terá obrigado Poroshenko a aceitar a retirada – as autoridades ucranianas recusam-se, porém, a reconhecer que os seus militares tenham sido cercados, com o Presidente a descrever a retirada como “planeada e organizada”.

No entanto, durante a operação de retirada pelo menos 90 soldados foram capturados e 82 estão desaparecidos, segundo dados revelados pelo Exército, que também confirmou a morte de 13 soldados – e não apenas seis, como tinha inicialmente avançado Poroshenko – e 157 feridos.

Os rebeldes dizem estar “completamente em controlo” da cidade, permanecendo apenas alguns pontos de resistência “espalhados” e que estão a ser “neutralizados”, segundo declarações do porta-voz Eduard Basurin, citado pela BBC. Em dez meses de conflito, os combates já provocaram mais de 5600 mortos, de acordo com os dados da ONU, mas há receios de que a contabilização seja bastante superior.