Opinião

Repensar o futuro das capitais europeias da cultura

A Cultura que se celebra nestas cidades deve ser pensada à medida do que a Europa pretende ser.

O ritual da escolha de cidades para capitais europeias da Cultura cumpriu-se este ano com Mons, na Bélgica, e com Pilsen, na República Checa, para muitos mais conhecida pela qualidade da sua cerveja do que pela excelência da sua oferta cultural.

Definidos os parâmetros orçamentais e as obras que permitam repensar a malha urbana à medida dos públicos criados pelas capitais europeias da Cultura, ficou a saber-se que a cidade de Pilsen vai ter um novo teatro e um bairro multicultural dedicado ao design. Por seu turno, Mons será animada por mais de 300 eventos, de que se destaca uma grande exposição dedicada a Van Gogh e à obra que, durante dois anos, ali criou, quando trabalhava para ser um bom representante da vontade de Deus junto dos mineiros e de outros operários, em regra socialmente excluídos por uma burguesia que não se revia nos seus valores e no seu modo de vida, bem como nas prioridades ideológicas que norteavam os seus combates. Foi justamente nesse período que Van Gogh consolidou a sua relação com a pintura e com o desenho, imprimindo-lhes a marca da sua ligação com o humano e com a paisagem. Com uma população de cerca de 100 mil habitantes e com 70 milhões de euros de orçamento para programar a vida cultural da cidade em 2015, Mons acredita que as actividades e acções programadas contribuirão para mudar o destino da cidade, como se verificou com outras cidades com um forte passado operário e industrial, como foi o caso de Liverpool, em 2008, assumindo-se para o interior do Reino Unido e para o mundo como “The City of the Beatles”, opção que deu sustentabilidade a um ambicioso projecto de atractividade turística.

Por sua vez, Pilsen, com cerca de 150 mil habitantes, partindo da visibilidade e prestígio que lhe são dados pela produção cervejeira, iniciada em 1842, anuncia cerca de 600 iniciativas dos mais variados géneros e ambições locais e europeias.

Olha-se para estas duas capitais europeias da Cultura com legítima simpatia, mas pensando naquilo que já foram e desejam ser importantes cidades europeias e recordando como nasceu em 1981, do esforço conjunto do francês Jack Lang e da grega Melina Mercouri, ambos ministros da Cultura, o projecto das capitais europeias que, como sabemos, incluiu, com perspectivas e resultados diferentes, Lisboa e o Porto. A Europa de então era, do ponto de vista económico, financeiro, cultural e político, muito diferente da Europa actual, inevitavelmente marcada pelas tensões e divisões que moldam e limitam este continente.

Houve cidades que renasceram e se reinventaram graças a este projectos e outras que se afundaram nas contradições e incapacidades que eles vieram tornar evidentes. Para mim, que integrei um organismo que emitia pareceres sobre as candidaturas, tornou-se evidente que havia pelo menos dois caminhos dominantes: o das cidades que apostavam na reinvenção do tecido urbano, na resolução do problema das acessibilidades e na construção de novos equipamentos, muitos deles de indiscutível dimensão continental. Assim vi Liverpool renascer, ao som da insuperável música dos Beatles, assim vi Weimar, ainda a gerir a memória de um longo passado que marcou toda a história da Alemanha, mas que trazia ainda a marca da RDA, de que fez parte, assim vi Avignon ficar aquém do muito que dela se esperava, assim vi Turim a tentar gerir o peso de um urbanismo carregado sobre o desejo de mudança da população, assim vi Estocolmo, Roterdão e muito mais, sempre com a serena ilusão de que nada ficará pior depois de ter acontecido a Capital Europeia da Cultura.

Criou-se, em torno deste projecto, uma rotina que se consolida sobretudo com a expectativa criada em torno do nascimento de novos equipamentos. Entretanto, a juventude mudou de mentalidade e de nível de expectativa e deixou de estar disponível para abordar alguns temas, criando espaço para outros debates e exigências políticas e sociais. Há dias vi Jack Lang num programa da TV 5 (200 milhões de Críticos) e pareceu-me ver um homem confiante no futuro e na função destas capitais que ninguém sabe o que irá ser daqui a 20 anos ou mesmo se o projecto tem ainda condições para sobreviver.

Mons e Pilsen vão esforçar-se para demonstrar que sim e outras cidades estão já alinhadas para 2016, negociando orçamentos e a viabilidade de algumas acções construtivas.

No momento em que a Europa se interroga sobre o futuro do euro e sobre o modo como irá resolver-se o conflito que opõe a Ucrânia à Rússia e que abre portas para uma nova e temível Guerra Fria”, vale a pena perguntar às estruturas políticas e às populações se projectos com esta dimensão contribuem para tornar melhores as suas vidas a mais imperiosa e urgente a ideia de paz. Algumas grandes cidades culturais da Europa não foram ou não quiseram ser capitais europeias, mas nem por isso a Cultura morreu dentro delas. A Cultura que se celebra nestas cidades deve ser pensada à medida do que a Europa pretende ser na sua relação consigo mesma e com um mundo global onde não basta falar de projectos culturais para evitar que o pior aconteça.

Escritor, jornalista e presidente da Sociedade Portuguesa de Autores