Crítica

A grande moca americana

Paul Thomas Anderson nunca filmou a América de forma tão divertida, e desde Boogie Nights que não o fazia de maneira tão conseguida.

Eis que Paul Thomas Anderson faz um furo no balão que laboriosamente enchera em Haverá Sangue e O Mentor e deixa sair um bocadinho de ar.

Faz bem, com o ar sai também muita daquela grandiloquência “bigger than life” totalmente maneirista – e cheia de “discurso”, sobre a América evidentemente – e o seu cinema volta a proporções mais agradáveis. Em troca do ar que sai, entra imenso fumo de charro, dos incontáveis charros que as personagens fumam ao longo do filme. Vício Intrínseco é um filme “drogado”, como “drogado” era, por exemplo, Boogie Nights. Mas esse era cocainado, anfetaminado, um speed permanente, este é apenas preguiçosamente charrado, lento, de gargalhadas à beira da incoerência total. Ao excesso de “dizer” (mas tão elogiado) dos filmes precedentes tem-se criticado a Vício Intrínseco a ausência de um discurso claro. Mas com certeza: é só uma enorme nuvem de fumo e, quando muito, a ideia de que a América, afinal, é uma grandessíssima moca.

“Mocado” está – quase sempre – Joaquin Phoenix, protagonista do filme, na pele de um semi-detective semi-aldrabão semi-hippie algures na Califórnia da viragem dos anos 1960 para os anos 1970. Dez anos de “contracultura”, rock and roll e Vietname deixaram a paisagem num caos, e esse caos é, de certa maneira, o objecto do filme, a água em que nadam todas as personagens. O romance que sustenta o argumento é de Thomas Pynchon (que, diz-se, aparece a dado ponto do filme, em “cameo” não identificado) mas o tratamento que Paul Thomas Anderson lhe dá reenvia permanentemente para as atmosferas de outros cruzamentos entre filmes e escritores americanos, sobretudo na tradição do noir. A irrisão colorida dos pulps de Elmore Leonard, uns pozinhos de Chandler, uma sleaziness geral que fortemente convoca o universo de James M. Cain – aliás, a sequência inicial, quando ao entorpecido Phoenix aparece uma ex-namorada com uma proposta indecente, abre logo o filme sob o signo do Carteiro (que) Toca Sempre Duas Vezes.

Segue-se uma intriga labiríntica – ao género Big Sleep – cheia de pontas soltas, passagens de A a C sem se perceber qual foi o ponto B, e chega-se ao fim sem a certeza de que a intriga se resolveu, e se se resolveu que raio de intriga afinal era aquela. Temos lido queixumes na crítica americana acerca disto: “não se percebe nada”. Ora é exactamente isso que tem graça, a possibilidade que o filme dá ao espectador de se perder num mar de “mcguffins”. E com boas razões, visto que no fundo são drogados a contar histórias de drogados. Nunca sabemos, e muito especialmente em certas cenas, se algo está mesmo a acontecer ou se não passa do delírio de mentes alteradas e paranóicas (o Fear and Loathing em Las Vegas que Terry Gilliam extraiu a Hunter S. Thompson, com o qual PTA até partilha um actor, Benicio del Toro, é outro título que vem à memória, mas em muito menos grotesco).

Mentes paranóicas: Vício Intrínseco é um filme que vive exuberantemente, até jubilatoriamente, as teorias da conspiração. É a América no seu máximo de alucinação, estendida a múltiplos pontos críticos da sua história nas últimas décadas. A política – do anti-comunismo a misteriosas “irmandades arianas”; a economia – da dita “paralela” dos tráficos de droga e outras coisas à alta finança; a divisão cultural e social – dos “vadios” fora do sistema às grandes famílias da putativa aristocracia americana (fantásticas cenas com o outrora hal-hartleyano Martin Donovan e com o regressado Eric Roberts), passando pelo polícia, muito “John Wayne-style”, que Josh Brolin formidavelmente compõe. Quer dizer: tudo aquilo sobre que Anderson tem tão ostensivamente falado, do alto de um palanque (vide, ainda, Haverá Sangue e o Mentor), aparece aqui desmembrado, dado por sinais dispersos e nada sublinhados. Ponto a favor dele.

E ponto a favor dele, ainda (e ainda na relação com esses filmes), é que essas figuras de homo americanus, machos dominadores de constituição psicológica ambígua, que estavam no centro desses filmes, aparecem agora também eles divididos em várias personagens – os aristocratas, os polícias, os políticos, os médicos – oferecendo o centro a uma personagem – a de Phoenix – que em nada se confunde com eles, e vive da parasitagem do “sistema” que eles construíram, como se Vício Intrínseco também falasse do parasitismo como parte integrante do “sonho americano”.

Mais do que um retrato “de época”, portanto, a Califórnia do filme vale por um microcosmos, borbulhante e alucinado, dessa entidade que Paul Thomas Anderson anda há anos a tentar esquematizar e metaforizar: a América. Nunca o fez de forma tão francamente divertida, e desde Boogie Nights que não o fazia de maneira tão conseguida.