Comunidade judaica de Copenhaga unida no funeral de vítima dos atentados

Participantes no funeral de Dan Uzan, morto junto a sinagoga de Copenhaga, rejeitam apelo de Nethanyau para que judeus europeus emigrem para Israel.

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A comunidade judaica da Dinamarca é pequena e está bem integrada CLAUS BJOERN LARSEN/AFP

Sob vigilância de polícias fortemente armados, centenas de pessoas reuniram-se, esta quarta-feira, num cemitério judaico de Copenhaga, para o funeral de Dan Uzan, morto na madrugada de domingo, junto à principal sinagoga da cidade, no segundo dos atentados que abalaram a capital dinamarquesa, no fim-de-semana.

Muitas pessoas não puderam entrar na sala de oração onde decorreu uma cerimónia religiosa. A chefe do Governo dinamarquês, Helle Thorning-Schmidt, assistiu ao funeral, no cemitério Vestre Kirkegaard.

“Toda a gente na nossa comunidade conhecia o Dan, ele estava […] sempre pronto a ajudar […] era um exemplo”, disse à AFP o presidente da comunidade judaica da Dinamarca, Dan Rosenberg Asmussen.

Dan Uzan, de 37 anos, foi morto por um tiro na cabeça quando guardava a sinagoga, no interior da qual decorria uma cerimónia religiosa com cerca de 80 pessoas. Horas antes, um primeiro atentado, num centro cultural onde decorria um debate sobre liberdade de expressão e blasfémia, tinha causado a morte de outro homem.

A polícia confirmou entretanto a identidade do suspeito da autoria dos disparos no centro cultural e junto à sinagoga: Omar El-Hussein, 22 anos, dinamarquês de origem palestiniana. Os cinco polícias que ficaram feridos nos tiroteios já deixaram o hospital.

Dinamarqueses que participaram no funeral rejeitaram o apelo do primeiro-ministro de Israel, Benjamin Nethanyau, para que os judeus europeus emigrem para o seu país, em linha com a posição assumida na segunda-feira por um porta-voz da comunidade. “Não acho que os judeus estejam mais seguros em Israel”, disse Sylvia, de 69 anos, citada pela AFP. “Não me sinto em perigo, mas é verdade que, quando vou à sinagoga, penso em eventuais perigos”, acrescentou Jeanette, de 67.

A primeira-ministra tinha já dito, logo após os ataques, que “os judeus fazem parte da Dinamarca”. “Faremos tudo para proteger a comunidade judaica”, disse também Helle Thorning-Schmidt, depois de responsáveis judeus terem lamentado a falta de reforço da segurança junto às instituições judaicas depois dos atentados de Paris, em Janeiro – uma posição que é contrariada pela polícia.

A comunidade judaica da Dinamarca é pequena e está bem integrada. As estimativas sobre o seu número variam, segundo a AFP, entre as 6400 pessoas, calculadas por Israel, e as 8000, de acordo com a própria comunidade. Habitam, na sua maior parte, em Copenhaga.

Instalados desde o século XVII num país conhecido pela sua tolerância, raros são os judeus que têm optado por emigrar para Israel, apesar de vários actos anti-semitas ocorridos nos últimos anos. Os combates entre israelitas e palestinianos no ano passado, na Faixa de Gaza, motivaram um aumento do número de incidentes, mas sem as consequências dos casos mortais do último fim-de-semana.

Os atentados de Copenhaga podem levar a um aumento de pressão da oposição de direita para a adopção de leis mais duras e reforço dos meios de luta antiterrorista. “Durante algum tempo, a Dinamarca tentou a abordagem suave, mas depois deste fim-de-semana achamos que é tempo para uma abordagem dura”, disse à Reuters o vice-presidente do Partido Popular Dinamarquês, de extrema-direita.

Esta força política tem vindo a capitalizar o descontentamento causado pelo aumento da criminalidade e poderá ter um papel importante após as eleições legislativas de Setembro. O partido apoiou o penúltimo executivo de centro-direita, liderado pelo conservador Lars Rasmussen, mas em 2011, quando chegou ao poder o Governo de centro-esquerda de Helle Thorning-Schmidt, obteve 12,3%, o seu pior resultado em décadas.