Giorgio Grassi: “A arquitectura? Estou jubilado, agora prefiro ir à pesca”

É uma referência da arquitectura italiana e europeia do último meio século. Veio na última semana ao Porto lançar um livro e dar uma aula aberta sobre a sua obra. Mostrou-se como sempre foi: ácido, conservador, fugidio, mas ao mesmo tempo simpático e divertido.

Maria João Gala
Maria João Gala
Maria João Gala
Maria João Gala
Maria João Gala
Biblioteca de Valência (à esq.)
Biblioteca de Valência (à esq.) DR
Complexo ABB Roland Ernst na Potsdamer Platz, em Berlim
Complexo ABB Roland Ernst na Potsdamer Platz, em Berlim DR
Capa do livro <i>Leon Battista Alberti e a Arquitectura Romana</i>
Capa do livro Leon Battista Alberti e a Arquitectura Romana DR
Desenho da Casa do Estudante em Chieti, Itália
Desenho da Casa do Estudante em Chieti, Itália Atelier Girogio Grassi
Maqueta para o alargamento do Kulturgeschichtliches Museum, na Alemanha
Maqueta para o alargamento do Kulturgeschichtliches Museum, na Alemanha Atelier Girogio Grassi
Teatro Romano da Sagunto, Espanha
Teatro Romano da Sagunto, Espanha DR
Maqueta para edifício público na Praça Garibaldi, em Treviglio, Itália
Maqueta para edifício público na Praça Garibaldi, em Treviglio, Itália Atelier Girogio Grassi
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Ácido, amargo, pessimista, conservador, fanático da composição… Confrontado com este “retrato” que muitas vezes se faz de si nos meios da arquitectura, Giorgio Grassi, 79 anos, arquitecto que com Aldo Rossi (1931-1997) marcou a escola do chamado racionalismo italiano, responde desta forma tão seca quanto desconcertante: “Concordo”.

Giorgio Grassi (n. Milão, 1935) foi o último convidado do ciclo de “aulas magnas” do ano inaugural do Curso de Estudos Avançados em Projecto, da Faculdade de Arquitectura da Universidade do Porto (FAUP). Na tarde de quinta-feira, viu o Auditório Fernando Távora da escola encher-se de alunos (e também de muitos arquitectos) para o verem e ouvirem falar de algo aparentemente tão árido como O objecto do projecto e o seu modelo. A sessão serviu também para a apresentação de Leon Battista Alberti e a Arquitectura Romana (2007), o primeiro de uma série de seis livros com que a Fundação Marques da Silva e a editora Afrontamento vão publicar em português a opera omnia sic – o mesmo é dizer, as obras completas de Giorgio Grassi.

“É uma loucura!” Na véspera da sessão na FAUP, o arquitecto comentava assim, para o PÚBLICO, a anunciada tradução para português dos seus textos. E só lamentava que a sua idade possa vir a impedi-lo de assistir à edição de toda a colecção, prevista para sair à razão de um volume por ano.

Ainda que seja o primeiro a ser publicado, Leon Battista Alberti e a Arquitectura Romana é o quarto volume da colecção; o próximo a sair será Escritos Escolhidos, 1965-2015, uma colectânea revista e aumentada (relativamente à edição italiana, de 2000) da produção teórica de Grassi.

José Miguel Rodrigues, arquitecto e professor na FAUP, tradutor do primeiro volume e principal responsável por este projecto editorial, explica esta ordenação não cronológica pelo facto de o livro sobre Alberti não estar actualmente disponível se não na língua original italiana, e ao mesmo tempo o considerar “uma obra fundamental para os estudantes portugueses”. Daí a sua decisão de avançar para a tradução. “Esta é a sua obra mais conseguida como livro de Arquitectura”, diz José Miguel Rodrigues ao PÚBLICO, realçando que, ao falar da vida e da obra do arquitecto renascentista Leon Alberti (1404-1472), “Grassi está a falar de si próprio e das suas próprias obras”. Além disso, “o livro tem um certo ar de romance”, acrescenta.

“É verdade que escrevi este livro porque fui obrigado”, confessa o autor, entre risos. “Mas, depois, admito que saiu muito pessoal; saiu um livro de um arquitecto e não de um historiador”.

Num edifício de Siza

 Na véspera da sessão na FAUP, Giorgio Grassi aceitara falar com o PÚBLICO. Aquilo que inicialmente imaginámos que poderia ser uma entrevista formal, resultou, afinal, num animado encontro com muita gente – o director da FAUP, o editor, o tradutor, o apresentador, a assistente, a relações públicas… – à volta do arquitecto italiano, que, de forma sempre amável e divertida, se foi sucessivamente esquivando a responder às perguntas que lhe lançámos.

Depois de uma primeira visita guiada à faculdade projectada por Álvaro Siza – refira-se que esta foi a terceira passagem do arquitecto italiano pelo Porto, depois de duas anteriores no início e no final dos anos 90 –, Grassi condescendeu em elogiar o edifício. “Está muito bem. Siza é um arquitecto que admiro muito – é um dos pouquíssimos” (risos). Conhecem-se desde a década de 1980: “Do tempo de Bonjour Tristesse, em Berlim, quando eu vivi um ano na cidade”, explica o arquitecto italiano, acrescentando que o viu depois várias vezes no seu país natal, nomeadamente aquando da exposição sobre o arquitecto português organizada por Vittorio Gregotti.

“Não quero entrar em detalhes, mas de Siza interessa-me, primeiro que tudo, a sua postura no trabalho da arquitectura”, realça Grassi. Mas, no caso da FAUP, disse gostar também da “diferenciação da escola por blocos e cursos – dá-me vontade de ver melhor”. (E, no dia seguinte, quis ir ver também o Museu de Serralves).

De Siza para a história do movimento moderno e para a situação actual da arquitectura foi um salto, com muitas elipses pelo meio. “Quando falamos do movimento moderno, falamos de três ou quatro nomes, o Mies [van der Rohe], o Aldo [Rossi] e, sem dúvida, o Corbusier – é absurdo, por exemplo, que não se fale mais dele”, dispara Grassi, para logo enumerar os seus ódios de estimação: “Agora fala-se de [Frank] Gehry, da [Zaha] Hadid, que não têm nenhuma expressão cultural”.

 

“O rei vai nu”


 Logo de seguida, um remoque aos jornalistas e às revistas de Arquitectura, aos quais – acusa Grassi – “apenas interessa a fantasia, sem nenhuma relação com o sentido mesmo da palavra arquitectura; e não têm a coragem de dizer: ‘O rei vai nu’”.

A uma pergunta específica sobre o polémico e muito mediático MaXXI – Museu de Arte Contemporânea de Roma, projectado por Zaha Hadid, responde: “Nunca vi. Tive uma vez uma reunião para uma cátedra a dez metros desse edifício, mas não passei por lá, escolhi outra rua!...”

Giorgio Grassi, cuja extensa obra se encontra dispersa por várias cidades da Europa – especialmente em Berlim (onde projectou o complexo ABB Roland Ernst na Potsdammer Platz; foi distinguido, em 2003, com o Architektur-Preis Berlin, e é membro honorário da Bund Deutscher Architekten), Valência (foi professor na escola de Arquitectura ETS e recebeu o Prémio de Arquitectura da Comunidade Valenciana, em 1985) e Groningen, na Holanda (onde desenhou a biblioteca pública, 1989-92) –, lamenta agora que todas as cidades europeias pareçam iguais. “Esta situação de os arquitectos quererem todos tornar-se artistas está a destruir as nossas cidades. Eu já não sei se estou em Milão, ou em Berlim, ou em Londres – é tudo igual”.

Pessimista? “Não vejo nada de positivo. Há uma opinião comum, muito difundida, de que a arquitectura é o produto de uma mente genial que oferece coisas novas, diferentes. Na verdade, não têm nenhuma relação com o que é a vida quotidiana. E a vida quotidiana é também a sua história, com as suas mudanças, que amadurecem com o tempo, não mudam de um golpe, assim, de uma só vez”, nota.

 

Um mestre para Souto de Moura


Já retirado da actividade, tanto de projectista como de teórico – o seu último livro mais recente é uma autobiografia, Vida de Arquitecto, de 2008 –, Grassi diz-se agora mais interessado em falar de outras coisas. “Quando me fazem perguntas sobre arquitectura, respondo: ‘Estou jubilado, agora prefiro ir à pesca’”.

Mas, naturalmente, não consegue deixar de falar – e de intervir – na arquitectura. Foi isso que fez na tarde de quinta-feira, no Auditório Fernando Távora. Antes da sessão, o director da FAUP, Carlos Guimarães, explicou ao PÚBLICO que a escolha de Grassi para participar no curso foi justificada precisamente “pela sua postura crítica, pelo distanciamento perante o star-system, pela capacidade de analisar a realidade da arquitectura e de fazer algo para a fazer avançar a partir de uma cultura densa, não indo atrás da moda da cenografia, da linguagem fácil”.

Na sessão, Grassi foi primeiramente apresentado pelo professor Carlos Machado, que desfiou a extensa biografia do arquitecto italiano e destacou a sua linguagem “directa, imediata, o mais banal possível”, mas marcada por uma “profunda humanidade e humor”.

Depois, falou Eduardo Souto de Moura, que foi, de resto, o responsável pela escolha de Grassi para integrar a lista de arquitectos estrangeiros convidados a vir falar aos estudantes do Curso de Estudos Avançados em Projecto. E tinha sido já também um dos organizadores da primeira visita do italiano ao Porto, em 1990.

Souto de Moura falou de Grassi como “um mestre”, que o marcou quando era estudante e também depois, já na sua actividade de arquitecto, pela importância que a sua obra e a sua reflexão teórica – “que não podem ser separadas”, nota – tiveram, por exemplo, nos seus trabalhos de restauro do mosteiro de Santa Maria do Bouro (agora pousada), em Amares, e do convento das Bernardas (agora hotel), em Tavira. “Com Grassi aprendi a ver a ruína como objecto de debate, matéria de trabalho, mas recusando sempre o pitoresco”.

Lembrando o carácter sempre polémico do arquitecto italiano, característica que este parece ter vindo a refinar com o tempo, Souto de Moura, em declaração ao PÚBLICO, notou que “Grassi propôs uma coisa, que na altura era considerado reaccionário e tecnocrata, que era a autonomia da disciplina da arquitectura”. “Quando andávamos a discutir a crise da arquitectura indo buscar as metodologias das ciências sociais – a linguística, a sociologia, a antropologia… –, ele defendia que era a arquitectura e mais nada”.

E foi ainda (e sempre) de arquitectura que Grassi falou à plateia da FAUP, fazendo um percurso pela sua obra, desde a já demolida Casa dos Estudantes na cidade italiana de Chieti (1976)  “foi uma história desgraçada”, recordou – até à polémica intervenção no Teatro Romano de Sagunto, perto de Valência (1985), que esteve quase para ser demolida – “só não o foi porque isso custava muito dinheiro”, gracejou Grassi –, e que muita gente, incluindo Souto de Moura, vê como um dos pontos altos da sua obra, ao lado da Biblioteca da Campus Universitário de Valência (1990-98), ou da nova sede da Cassa di Risparmio em Florença (2004-08).

Uma obra e uma postura sobre a arquitectura que Grassi sintetizou, parafraseando aquilo que Robert Bresson um dia disse sobre o cinema: “Uma arquitectura é bela quando me dá uma ideia elevada de arquitectura”.