Opinião

A prova experimental da homeopatia e Benveniste

Não defendi a homeopatia como ciência, não tenho competência para isso. Mas cito dois Prémios Nobel, ambos vivos.

1. David Marçal e Carlos Fiolhais mostram como ler um texto que critica as suas próprias posições é susceptível de desentendimentos tais que nem merecem resposta taco a taco (nome, título, editora, data, não chegam para identificar um psiquiatra?).

Pretendem claramente denunciar a minha capacidade de argumentação, a qual não se deu como a dum ‘cientista’, que não sou, apesar de ter tido na minha juventude uma licenciatura em engenharia civil pelo IST, antes de vir a ensinar Filosofia da Linguagem na Faculdade de Letras de Lisboa. A tese de doutoramento sobre a epistemologia da Linguística estrutural abriu-me inesperadamente acesso à questão da relação entre a fenomenologia (Husserl, Heidegger, Derrida) e as principais descobertas científicas do século XX, a saber a teoria do átomo e da molécula, a biologia molecular, interdito do incesto e exogamia como nó do social (Lévi-Strauss), a dupla articulação da linguagem, a teoria das pulsões de Freud. O interesse desta descoberta (ver o meu blogue filosofia com ciências) é antes de mais filosófico, mas as várias ciências são reorientadas fenomenologicamente umas em relação às outras. As ciências foram geradas adentro da filosofia (Galileu e Newton consideravam-se filósofos da natureza), foi Kant quem as separou da metafísica permitindo-lhes ganhar autonomia conceptual e metodológica. Essa tarefa esgotada nos seus efeitos, é pelo contrário a questão da unificação dos saberes que é hoje um dos mais graves problemas do conhecimento, a que esta aliança entre ciências e filosofia permite uma achega, contando nomeadamente com Prigogine. Dito isto, vamos à homeopatia.

2. A leitura do texto póstumo de Jacques Benveniste, Ma vérité sur la ‘mémoire de l’eau’, 120 páginas na Teia, mostra que, ao contrário do que consta nos mentideros cientistas que Fiolhais e Marçal repetem como verdade revelada, ele resolveu laboratorialmente a questão da homeopatia sem ter no entanto conseguido explicar teoricamente essa solução experimental. A história da ciência e da técnica europeia tem muitas situações destas, soluções empíricas de questões que não se entendem teoricamente. Um dos casos mais conhecidos é o da máquina a vapor, comercializada em 1776 e que só foi compreendida teoricamente com a termodinâmica um século depois. Durante um século, o seu paradigma científico permaneceu ‘eficaz’ empiricamente, adiado o seu complemento teórico; pode-se pensar que seja actualmente a situação da homeopatia, eficaz como terapia de medicina e em busca de complemento teórico à experimentação laboratorial conseguida em vários laboratórios, como Benveniste conta num texto duma honestidade límpida. Porque é que a história dele não contará, só a dos que o não leram e repetem apenas o que ouvem ou lêem?

3. Não defendi a homeopatia como ciência, digo no início do § 3 do meu texto de 29/01 que não tenho competência para isso. Cito dois Prémios Nobel, ambos vivos, um médico laureado pelos seus trabalhos sobre a sida, o outro físico inglês laureado em 1973, que conheceu de perto Benveniste.

4. "Em recente entrevista concedida à revista Science de 24 de dezembro de 2010, o virologista Luc Montagnier, ganhador do prémio Nobel de Fisiologia e Medicina de 2008 pela descoberta do HIV, defendeu Benveniste, que se tornou alvo de chacota (ganhou o antiprémio IgNobel) e descrédito quando declarou que a diluição alta usada em homeopatia tem efeitos biológicos. Montagnier publicou pesquisa relatando a detecção de sinais electromagnéticos produzidos por "nanoestruturas aquosas" de sequências de DNA bacteriano biologicamente activas. "Benveniste foi rejeitado por todos, porque estava muito à frente. Ele perdeu tudo - seu laboratório, seu dinheiro (...) Eu acho que ele estava em grande parte certo. O problema era que seus resultados não eram 100% reprodutíveis", declarou Montagnier. "Não posso dizer que a homeopatia está certa em tudo. O que posso dizer agora é que as altas diluições estão corretas. Altas diluições de alguma coisa não são nada. São estruturas de água que imitam as moléculas originais (...) Há uma espécie de medo em torno desse tema na Europa. Disseram-me que algumas pessoas têm reproduzido os resultados de Benveniste, mas têm medo de publicá-los por causa do terror intelectual promovido por pessoas que não entendem isso," completou o virologista.

5. “Em relação aos seus comentários sobre afirmações acerca da homeopatia, as críticas centradas sobre a quantidade incrivelmente pequena de moléculas presentes numa solução depois de ter sido diluída repetidamente são algo que não tem sentido, já que os defensores dos remédios homeopáticos atribuem os seus efeitos não às moléculas presentes na água, mas às modificações da estrutura da água. Uma simples análise pode sugerir que a água, sendo um fluido, não pode ter uma estrutura do tipo que tal imagem exigiria. Todavia casos como os dos cristais líquidos, que fluem como um fluido normal e podem manter uma estrutura ordenada em distâncias macroscópicas, mostram os limites de tais maneiras de pensar. Não houve, tanto quanto eu saiba, qualquer refutação à homeopatia que permaneça válida actualmente depois de se ter em conta este ponto concreto. Um tema relacionado é o fenómeno, afirmado por Yolene Thomas, colega de Jacques Beneviste, e outros, como bem estabelecido experimentalmente, dito a “memória da água”. Se for válido, isso terá um significado além da homeopatia em si mesma e atesta a visão limitada da comunidade científica moderna que, em vez de se apressar a provar tais asserções, a sua única resposta foi expulsá-las da discussão.” (Brian D. Josephson, University of Cambridge).