Grécia pressionada pelos seus compromissos financeiros imediatos

Discussão com os parceiros europeus no Eurogrupo vai ser feita com o Estado e a banca com cada vez menos tempo para encontrarem os fundos de que precisam.

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O primeiro-ministro grego, Alexis Tsipras, defende que cumprir o actual programa é prolongar por mais tempo a austeridade que não resultara Reuters

No Estado, as maiores exigências estão agendadas para o Verão. O calendário de amortização da dívida pública grega mostra que os volumes mais altos de pagamentos no decorrer deste ano acontecem nos próximos meses de Julho e Agosto.

É nessa altura que atingem a sua maturidade duas séries de obrigações do tesouro. São cerca de 3500 milhões de euros que têm de ser pagos a 20 de Julho e 3200 milhões de euros cuja amortização tem de ser feita a 20 de Agosto. Estes títulos estão na mão de investidores internacionais, de bancos gregos e, principalmente, dos bancos centrais do Eurosistema, já que o BCE comprou uma quantidade significativa de dívida grega nas fases iniciais da crise.

É para amortizar estes títulos que a Grécia vai ter de encontrar alguma forma de financiamento nova e, preferencialmente, de longo prazo.

Até lá, também há pagamentos volumosos a fazer, mas são maioritariamente relativos a bilhetes de tesouro, ou seja, dívida de curto prazo que a Grécia tem conseguido substituir por novas emissões do mesmo tipo nos mercados. O Estado, mesmo nas últimas semanas, tem feito emissões de bilhetes de tesouro que substituem aquelas que vão atingindo a sua maturidade. É certo que as taxas de juro suportados são muito elevadas, mas ainda é possível encontrar investidores suficientes para que a dívida seja totalmente colocada.

Há ainda alguns pagamentos de menor dimensão que têm de ser feitos ao Fundo Monetário Internacional: 1400 milhões de euros já transferidos em Fevereiro, 1500 milhões em Março e 400 milhões em Abril.

Os analistas dividem-se sobre se nos cofres do Estado grego existem neste momento os fundos disponíveis para fazer face a estas verbas (assumindo que os bilhetes de tesouro continuam a poder ser substituídos por outros). Não é certo qual o montante que existe na tesouraria, nem se será possível a Grécia usar o dinheiro entregue pela troika para utilização exclusiva na capitalização dos bancos.

Para resolver todas estas necessidades, a solução defendida pelas autoridades europeias é a Grécia voltar a negociar com a troika o cumprimento do actual programa. Se o fizesse, o prémio seria a entrega da última tranche do empréstimo no valor de sete mil milhões de euros, o que seria suficiente para fazer face às necessidades.

Contudo, do lado do Governo grego, liderado por Alexis Tsipras, defende-se que cumprir o actual programa é apenas prolongar por mais tempo a aplicação das medidas de austeridade que não resultaram. Por isso, o que os seus responsáveis têm pedido é que lhes seja dada a possibilidade de realizarem mais emissões de dívida de curto prazo, que permitam ao país cumprir os seus pagamento pelo menos até Setembro, altura em que já terá sido possível chegar a um novo acordo de longo prazo com as autoridades europeias.

Os líderes dos outros governos europeus e, em particular, o BCE não gostam dessa solução porque uma grande parte dos compradores nessa emissão adicional de dívida de curto prazo teriam de ser os bancos gregos, expondo-os demasiado ao risco soberano.

A pressão do BCE
Mas, se para o Estado as contas já estão bastante apertadas, a verdade é que os problemas mais imediatos podem mesmo surgir noutro lado: no acesso ao financiamento por parte da banca.

Neste momento, os bancos gregos estão fortemente dependentes dos empréstimos de emergência que lhes estão a ser concedidos pelo banco central grego, até a um limite de 65.000 milhões de euros. Esses empréstimos – denominados Assistência Líquida de Emergência (ELA na sigla em inglês) – têm de ser autorizados pelo conselho de governadores do BCE. Vários responsáveis do bancos central têm vindo a recordar que esta é uma linha de crédito de carácter temporário e que apenas pode ser disponibilizada se os bancos forem solventes.

Com o elevado volume de depósitos que têm vindo a sair os bancos gregos nos últimos dois meses e com as incertezas em relação à capacidade do Estado grego para capitalizar as instituições financeiras do país, o BCE pode começar rapidamente a fechar esta última torneira, caso o Governo grego não aceite cumprir um programa da troika.

Tanto na Irlanda, em 2010, como em Chipre em 2013, o BCE ameaçou os dois países que os seus bancos deixariam de ter acesso à Assistência Líquida de Emergência caso não assinassem um programa da troika. Nesses dois casos, Dublin e Nicosia cederam quase imediatamente.

Se o BCE fizer o mesmo à Grécia e Atenas não ceder, os bancos gregos ficam muito rapidamente sem fundos para fazer face aos seus compromissos e a saída da Grécia do euro fica muito mais próxima.

É por isso que, no caso de se manterem os sinais de desentendimento entre a Grécia e os seus parceiros europeus na reunião desta segunda-feira, as atenções vão imediatamente virar-se para a reunião do conselho de governadores do BCE agendada para quarta-feira e onde a continuidade dos empréstimos de emergência à banca grega irá ser discutida.