Opinião

Eu gosto da TAP e gosto de cinema!

Há uma arrogância generalizada nas pseudo elites de esquerda.

Caro António-Pedro Vasconcelos, É óbvio que entre nós existe uma enorme diferença de opinião sobre o papel do Estado na economia. Essa diferença de valores em democracia é natural e saudável. Não aceito é que para se debater essas diferenças de opinião se utilizem adjetivos qualificativos impróprios, que tentam denegrir todos aqueles que têm opiniões diferentes da nossa.

Essas coisas de que V. Exa. pretensamente me acusa, ignorância, incompetência, má fé, ou não fazer o trabalho de casa, mais do que uma acusação constituem uma caraterística defensiva sua à qual já nos habituou.

Sempre que a opinião não lhe é concordante, sempre que a crítica de cinema não lhe é favorável, V. Exa. remata com um "são ignorantes.”

A democracia faz-se dos sábios, mas também dos ignorantes, e dos pseudo ignorantes. Há uma arrogância generalizada nas pseudo elites de esquerda, eu diria mesmo um preconceito, que V. Exa. muito bem expressa nessa missiva que me dirige, dizendo gostar mais da TAP do que eu por defender a sua não privatização. É mais um corolário do “são ignorantes.”

As nossas diferenças de opinião relativamente ao papel do Estado na economia e à utilização de recursos públicos são enormes. Acredito num Estado regulador, ao invés de um Estado interventor. Não posso é aceitar opiniões como a sua, segundo a qual só aqueles que defendem um Estado interventor na economia são os que defendem o interesse dos portugueses. Esta sua posição relativamente à privatização da TAP parece-me refletir um preconceito ideológico relativamente à iniciativa privada. Para si, na TAP, só a gestão pública é que defende os interesses de Portugal e dos trabalhadores. Eu não concordo. Eu gosto da TAP!

A análise que faz sobre a situação económico-financeira da TAP permite-me concluir que as suas competências a esse nível não estão em conformidade com as suas competências como cineasta. Ora vejamos:

Esquece-se de referir que o grupo TAP, em 31 de dezembro de 2013, tinha capitais próprios negativos, no montante de 373 milhões de euros. Esquece-se de referir que o passivo, independentemente da sua origem (e estou de acordo consigo quando cataloga a aquisição da brasileira VEM como desastrosa), tem que ser pago, acrescido dos juros anuais. Esquece-se que, na indústria aeronáutica, as economias de escala são fundamentais para a sua sustentabilidade, e daí a minha referência à dimensão da TAP enquanto companhia aérea. 

Esquece-se de esclarecer que os eventuais apoios comunitários, que diz serem possíveis, exigiriam um esforço hercúleo de reestruturação da companhia, à qual V. Exa. certamente se oporia, como seria a focalização da atividade da TAP nas rotas lucrativas e a redução dos custos com o pessoal (vamos ser mais claros: despedimentos!). Ou seja, tal como referi no meu artigo, aquela TAP que hoje existe desaparecia, com a agravante de, no final, ainda se correr o risco dessa ajuda estatal ser considerada ilegal por Bruxelas, à semelhança do que aconteceu com a companhia aérea húngara Malév, e que levou ao seu encerramento.

Estou certo que não é essa “ajuda” que V. Exa. pretende e defende para a TAP. Eu quero que a TAP cresça, se modernize, ganhe asas e continue a apoiar a economia nacional. E por isso é imperiosa a sua privatização, no sentido de lhe dar a robustez financeira e operacional que ela necessita e merece, para eu poder continuar a sentir-me em casa a dez mil metros de altitude...

Permita-me V. Exa. que ilustre o meu pensamento com uma (infeliz) comparação – e digo infeliz porque, de facto, nada tem a ver uma coisa com a outra –, mas talvez por ser a forma mais eficaz de fazer entender o meu pensamento numa linguagem que lhe é mais próxima: a do cinema.

Imagine que o Estado só poderia apoiar uma vez em cada dez anos, e a título excecional, cada realizador de cinema. Imagine que esse apoio era condicionado ao cumprimento de inaceitáveis restrições à sua criatividade? Como é que V. Exa. teria realizado nos últimos dez anos os seus filmes? Que faria V. Exa se colocado na contingência de não dispor de verbas para prosseguir, adequadamente, a sua atividade? Das duas uma: ou encontrava um parceiro privado que acreditasse em si e na qualidade da sua arte, e que tivesse as competências para alavancar comercialmente os seus filmes e os financiasse, ou, com muita pena minha, deixaria de nos presentear com a sua sétima arte, cujo expoente máximo foi o “Call-girl”, e aí, confesso-lhe, até seria eu o primeiro a subscrever um manifesto “Não nos TAPE os olhos!”

Eu gosto da TAP e também gosto de cinema!

Deputado e presidente da Distrital do Porto do PSD