Um morto em atentado na Dinamarca durante debate com cartoonista

Pelo menos três polícias ficaram feridos e um suspeito está em fuga após o tiroteio em Copenhaga. Debate era organizado pelo sueco Lars Vilks.

Fotogaleria
Marcas de tiros no edifício onde decorria o debate MATHIAS OEGENDAL/AFP
Fotogaleria
AFP
Fotogaleria
A polícia isolou as imediações do centro cultural MARTIN SYLVEST/AFP
Fotogaleria
A polícia admite que Vilks fosse o alvo do ataque François Campredon/AFP
Fotogaleria
Imagem do suspeito revelada pela polícia Polícia dinamarquesa/Reuters

Um atentado contra um centro cultural em Copenhaga, na Dinamarca, fez um morto e três feridos, no momento em que decorria um debate sobre "Arte, blasfémia e liberdade de expressão", em homenagem aos cartoonistas e jornalistas do Charlie Hebdo mortos em Janeiro por radicais islâmicos.

"A Dinamarca foi alvo de um acto de violência cínico. Tudo leva a crer que o tiroteio foi um atentado político e um acto terrorista", afirmou num comunicado a primeira-ministra, Helle Thorning-Schmidt. A dirigente deslocou-se para o local do atentado, guardado por polícias e militares.

O alerta de segurança foi elevado para o nível máximo em todo o país e os serviços de segurança suecos também estão mobilizados, caso o suspeito atravesse a ponte que une Copenhaga à cidade sueca de Malmö. Já na madrugada deste domingo, um segundo tiroteio junto à sinagoga de Copenhaga causou pelo menos três feridos, não se sabendo se os dois ataques estão ligados.

Entre os que assistiam à sessão no centro cultural no sábado à tarde estava o cartoonista sueco Lars Vilks, autor de uma série de cartoons em que Maomé surgia como um cão, publicada em 2007. Vilks, que vive com protecção policial, foi o promotor deste debate em Copenhaga. "Estou vivo e ainda dentro do edifício", escreveu no Twitter o embaixador francês em Copenhaga, François Zimeray, no momento em que o tiroteio começou.

Inicialmente foi noticiado que a polícia estava à procura de dois ou três homens, suspeitos de serem os responsáveis pelo tiroteio. Mas as autoridades disseram entretanto terem um único suspeito e divulgaram a imagem de uma câmara de vigilância onde este surge, com um blusão e um gorro. Um comunicado divulgado descreve-o como "um homem de 25 a 30 anos, cerca de 1,85 metros, constituição atlética e aparência árabe, com cabelos negros e lisos".


Imagem do suspeito revelada pela polícia

Segundo a televisão dinamarquesa TV2, o atacante fugiu do local num automóvel, um Volkswagen Polo escuro. A polícia encontrou entretanto a viatura, abandonada e vazia. Algumas linhas de transportes foram interrompidas.

"Eles dispararam a partir do exterior. A intenção era a mesma que no Charlie Hebdo, a diferença é que aqui não conseguiram entrar", disse o embaixador à AFP. Vários membros do Governo francês e o próprio Presidente já condenaram o ataque e solidarizaram-se com as autoridades dinamarquesas. François Hollande anunciou entretanto que o ministro do Interior, Bernard Cazeneuve, está de partida para Copenhaga.

Os três polícias feridos estavam no exterior do edifício com a missão de proteger os participantes, uma vez que o debate foi considerado de risco, devido ao seu conteúdo e ao receio de poder haver uma reacção por parte dos radicais islâmicos.

"Eu diria que foram disparados cerca de 50 tiros, pelo menos, mas os polícias aqui disseram-nos que devem ter sido 200. As balas passaram através das portas e toda a gente se lançou ao chão", disse o embaixador francês quando o grupo ainda estava dentro do edifício, "bloqueado pelos atacantes".

Dentro da sala, e segundo escreveu no Twitter a militante da Femen Inna Shevchenko, estavam "várias dezenas de pessoas". O tiroteio começou pouco depois do início da sessão.

"Vi um homem encapuzado a correr", disse à Associated Press Helle Merete Brix, uma das organizadoras. "Tenho a certeza de que isto foi um ataque contra Lars Vilks." A polícia admite que o alvo fosse o cartoonista. 

Brix foi levada pela polícia com Vilks por um dos guarda-costas que o acompanha sempre que ele vai à Dinamarca. Inicialmente, Vilks foi escondido na câmara frigorífica do centro cultural.

O canal TV2 conta 30 buracos de bala no edifício. A polícia diz que a vítima mortal é um homem de 40 anos que estava dentro do café do centro cultural onde decorria o debate.

"Ouvi alguém a disparar uma espingarda automática e alguém a gritar. A polícia respondeu aos disparos e eu escondi-me atrás do balcão. Foi surreal, como um filme", contou ao TV2 o jornalista Niels Ivar Larsen, um dos convidados para participar no debate.

Lars Vilks já recebeu inúmeras ameaças de morte desde 2007. No ano passado, uma norte-americana da Pensilvânia, que se apresentava como Jihad Jane, foi condenada a dez anos de prisão por conspirar para o matar. E em 2010, dois irmãos foram presos depois de tentarem atear fogo à casa de Vilks, no Sudeste da Suécia.

Depois do Charlie Hebdo
O ataque ao jornal satírico francês Charlie Hebdo, no dia a 7 de Janeiro, fez 12 mortos. Dois dias depois, mais quatro pessoas foram mortas durante um ataque a uma mercearia judaica em Paris. O atacante, que na véspera matara uma agente da polícia municipal, tinha conspirado com os dois irmãos que entraram no jornal – os três acabaram mortos pela polícia em duas operações quase simultâneas.

Depois do atentado contra o semanário francês, Vilks disse à AP que ia passar a ser convidado ainda menos vezes para falar em público, por motivos de segurança, afirmando esperar que os serviços de segurança aumentassem a sua protecção. "Isto vai provocar medo nas pessoas a um nível completamente diferente do que estamos habituados", afirmou. "O Charlie Hebdo era um pequeno oásis. Poucos se atreviam a fazer o que eles faziam."

A polémica sobre os cartoons de Vilks seguiu-se a outra, em 2005, quando o jornal dinamarquês Jyllands-Posten publicou caricaturas de Maomé assinadas por vários artistas. A publicação desencadeou uma série de protestos em vários países muçulmanos nos quais morreram pelo menos 50 pessoas.

"Era algo que temíamos depois do Charlie Hebdo", disse à AFP o secretário-geral dos Repórteres Sem Fronteiras, Christophe Deloire. "Vemos como os grupos ultra-radicais estão em guerra contra a liberdade de expressão, contra a liberdade de crítica irreverente das religiões e contra a simples liberdade de debater estas questões."