Opinião

A “Europa” e os portugueses

Se a Alemanha manda, manda pelo poder inequívoco do dinheiro. E se a Alemanha não mandar, nem a sombra da utopia se salva.

Quando se discute a Grécia, em Portugal ou na Finlândia, os gregos são tratados como se fossem uma extensão normal do “homem europeu”, que, evidentemente, nunca existiu. Nas querelas financeiras 1 é 1 e o resto não conta.

Desde sempre que, bem à francesa, a “construção” que a burocracia de Bruxelas promoveu foi abstracta e universalista. A realidade não interessava aos “pais” dessa utopia que se veio a chamar a “União”. Não distinguiam, nem queriam distinguir, entre um luterano da Turíngia e um ortodoxo de Salónica. Distribuíam direitos e deveres como se toda a gente entendesse os direitos da mesma maneira ou tomasse os deveres igualmente a sério. E o euro, além de ser um erro técnico (hoje reconhecido e lamentado), pela sua própria natureza ignora a diferença.

Ao princípio, depois das matanças de 1939-1945, não se falou do passado. Os franceses precisavam do carvão da Alemanha e a Alemanha não se importava de pagar os camponeses da França. Infelizmente, a combinação não se ficou, como propunha o livre câmbio da Inglaterra, num “mercado comum”. Pouco a pouco um entendimento de pura mercearia acabou por se transformar na utopia da Europa política, exemplo para o mundo e grande potência. A Grécia vivera desde o século XV ao século XIX no império turco; a Itália até quase ao fim do século XIX era parte do Império austríaco, parte do Papa e parte dos Bourbons- Sicília, que tranquilamente continuavam no século XIX; a Alemanha nasceu em 1870; Portugal e Espanha só saíram das ditaduras de Franco e de Salazar em 1974-1976. Mas que importavam a cultura e a história? No grande saco de Bruxelas cabia fosse quem fosse, lambuzado de uma retórica vácua e de mão estendida à caridade do próximo.

A “solidariedade” da “Europa”, que hoje se invoca, não se manifestou em mais do que alguns subsídios relutantes, em troca de uma arregimentação que ninguém pedira ou agradecia. Quando agora os portugueses discutem com exaltação se devem ou não devem apoiar a Grécia ou juram candidamente reformar a União, não se lembram, como de costume, que o seu peso é nulo e, pior ainda, que a “Europa” é irreformável. Não há nada que a una; e o caos não se regenera por si próprio. Se a Alemanha manda, manda pelo poder inequívoco do dinheiro. E se a Alemanha não mandar, nem a sombra da utopia se salva.