Anatomia de uma mulher

Ana Cássia Rebelo acaba de publicar Ana de Amsterdam, antologia de textos do blogue homónimo que mantém desde 2006. É uma das vozes mais aguardadas no panorama editorial português. As suas palavras não desiludem a expectativa gerada.

Ana Cássia Rebelo tem quarenta e poucos anos, três filhos, e é jurista numa instituição da banca
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Ana Cássia Rebelo tem quarenta e poucos anos, três filhos, e é jurista numa instituição da banca ENRIC-VIVES RUBIO

Stendhal lia aplicadamente livros de direito para treinar e cumprir um estilo desafectado e sem rodeios, à luz fria da linguagem jurídica. Ana Cássia Rebelo diz-nos algo semelhante: “Aprendi a escrever com a escrita do direito.”

Dirá que essa experiência, no domínio jurídico, deixa marcas no seu estilo. Marcas na língua que escreve. “O gerúndio. A forma como a frase é concluída.” Há-de mesmo afirmar que aprendeu a escrever dessa forma. “Com o direito e com o blogue”, esclarece. Quando começou a trabalhar, conta, nem sequer sabia redigir com correcção e propriedade, tão-pouco pontuar. Os documentos vinham devolvidos, com anotações e larguíssimos trechos corrigidos. Com o blogue, e com a exigência que se fazia, de escrever, a sua escrita foi melhorando. Também no trabalho. Ao ponto de um chefe lhe ter elogiado os progressos que ia fazendo nesse particular. “Mas às vezes é o inverso.” É a escrita funcional, profissional, que é afectada pela parte criativa do seu uso das palavras.

Ana Cássia Rebelo tem quarenta e poucos anos, três filhos, e é jurista numa instituição da banca. Tem o que é costume chamar um emprego das nove às cinco. E é muitas vezes no meio da elaboração de pareceres, na redacção de ofícios ou de contestações, que assume o seu outro papel. Esse papel é o de uma escritora de enorme singularidade, que, até ao momento, se deu a conhecer no blogue que mantém desde 2006, Ana de Amsterdam. Acerca do nome do blogue, elucida: “Gostava da canção, e foi apenas por essa razão que, há quase dez anos, a escolhi para dar nome a um blogue. Havia a letra – tão simples quanto forte – e aquele verso com o qual me identificava: “Sou Ana do Oriente, Ocidente, acidente, gelada.” “Ao longo destes anos”, diz-nos ainda a autora, «muitas vezes, me interroguei sobre a mulher da canção, mas nunca procurei saber quem era. Ana de Amsterdam, mulher gelada, gelada como eu própria me sentia, permaneceu durante muito tempo uma desconhecida para mim.» E relata-nos o percurso que a levou a Ana, a de Amsterdam: “Até que o PÚBLICO, há uns anos, editou toda a obra de Chico Buarque. Só então descobri que Ana de Amsterdam é uma canção cantada pela personagem homónima na peça Calabar – O Elogio da Traição, escrita por Chico Buarque em parceria com Ruy Guerra, em 1973. A peça conta a história de Domingos Fernandes Calabar, nascido em 1600, mulato pernambucano, contrabandista, considerado um dos grandes traidores da história brasileira. Durante a ocupação holandesa, Calabar troca de lado, fornecendo auxílio aos holandeses, revelando-lhes os segredos das matas, dos caminhos e do recorte da costa. Ana, uma das personagens principais da peça, existiu mesmo. Francesa, prostituta, dotada de um espírito livre, terá chegado ao Brasil para distrair os ocupantes holandeses nos intervalos dos seus assuntos. Na peça, Ana, que atravessou o mar para casar, cansada dos homens, sua violência e iniquidade, acaba por se apaixonar por Bárbara, viúva de Calabar. Juntas, cantam uma das mais belas canções de amor do repertório buarquiano (Bárbara). A revelação da história de Ana de Amsterdam, sobretudo desse seu amor por Bárbara, causou-me alegria, emoção profunda.” E, num remate, confia-nos: “Atribuo muita importância ao conhecimento imprevisto, acidental, daquilo que verdadeiramente me importa: descobrir o nome de uma árvore, de um pássaro, de um peixe, ou, como foi o caso, descobrir a história atrás de uma canção.»

Antes do blogue Ana de Amsterdam ainda houve, por 2003, Alice no País dos Matraquilhos, depois Pano-Cru e, mais tarde, 2.º Andar Direito. Tanto este como o seu primeiro blogue roubavam o nome a músicas de Sérgio Godinho – como o actual o rouba a Chico Buarque. Fazem parte da “santíssima trindade, Sérgio Godinho, Fausto e Chico Buarque”. Quando andava na faculdade, algumas colegas, entre as quais uma próxima do cantor português, lembrou-se de oferecer a Ana Cássia Rebelo um disco autografado pelo músico. Ana, que, em tempos, escreveu sobre Godinho: “Se o tivesse à mão dava-lhe um beijo na boca.”, diz-nos, acerca daquela bem intencionada oferta: «Ali estava o meu Sérgio Godinho. E escreveu isto, o normal: “Um abraço, Sérgio Godinho”. Ficamos com a sensação de que as colegas erraram o alvo. Mas também que seria difícil que isso não acontecesse. Ana não é de “deslumbres”, palavra que usará mais do que uma vez. Como se perceberá, nunca pelos melhores motivos.

Um dos lugares privilegiados pela sua escrita é Goa. Não a Índia, clarifica Ana. “A Índia não me diz nada, é um país como outro qualquer, é em Goa que me sinto em casa.” Essa geografia é um dos agregadores de aspectos centrais no universo de Ana Cássia Rebelo, como a família, a importância dos sentidos, a luta contra o carácter opressor da vida moderna. “Os meus pais passam metade do ano em Maina, aldeia que fica entre Corturim e Margão”, conta. “A minha mãe trata da horta, atravessa a estrada movimentada, vai à mercearia e ao mercado. Senta-se na cadeira de baloiço, lê, vê a RTP Internacional, estuda inglês, passa os olhos pelas fotografias dos netos. O meu pai, com 80 anos, levanta-se muito cedo e, durante uma hora, na sua passada acelerada, caminha no grande terreiro que fica em frente da igreja de Corturim.” Deixando-se transportar para aquele subcontinente, mas mantendo-se firme no mapa sentimental de Goa, explica: “Gosto de acreditar que se apercebe da singular beleza daquele local, a lagoa com os nenúfares, o alçado branco da igreja, a grade árvore de pune que floresce em cor de fogo. Volta a casa, toma um duche. Passa o dia em serviços administrativos, repartições, tribunais. Aguenta estoicamente a burocracia indiana, para tratar dos seus assuntos e nos facilitar a herança. Em Goa há praias de águas mornas, restaurantes onde se servem pratos típicos, feiras de artesanato, monumentos de interesse mundial e vistas assombrosas de paisagens.” Não se trata de uma fantasia indiana, ou de um desejo de escapismo. É por isso que afirma: “Não é isso que me faz todos os anos desejar voltar (volto quando tenho dinheiro e arranjo quem fique com os miúdos). Preciso de estar em Maina como preciso estar na Portela de Sacavém ou em São Bartolomeu da Serra. São os lugares dos meus pais, da minha tia, da minha família. E a família é tudo para mim.”

Quando se deu a grande explosão dos blogues em Portugal, sentiu um certo entusiasmo por alguns desses espaços de escrita. Foi o caso de Mónica Marques. O livro da autora, contudo, desiludiu-a. Talvez por esse motivo tenha hesitado tanto antes de aceitar transpor a escrita do seu blogue para um livro. Porque temia, porventura, o teste da página impressa, publicada, a passagem para qualquer coisa de mais definitivo. Esclarece: “As minhas reservas não eram morais mas formais”. Não a retinha o pudor de assumir o «lado mais negro», nem a vulnerabilidade da mulher que expõe o interior descarnado da sua condição. Seja pelo desabar da sexualidade e do desejo, seja pela roleta russa da doença e do antídoto. Qual dos dois será o veneno? Ou ainda por aquilo que a autora vê como fealdade própria, e classifica em termos ríspidos, cobertos de uma pele dura e rugosa, como a do “caimão”, que usa para se descrever, a dado ponto. Não é vulgar este tipo de entrega, mas, acima de tudo, o despudor com que se assume a mágoa e o sofrimento. Sem fingimentos nem subterfúgios literários ou outra técnicas de camuflagem e guerrilha escrita. “O blogue é o diário do meu desespero, da minha angústia”, diz numa síntese com a qual se mostra tranquila, mas que não consegue ocultar por completo as camadas de crise que mal se ocultam. E que a escrita, medida, burilada, sabe levar a bom termo.

Basta ouvi-la. Independentemente de se ter lido o blogue. Mas isso ajudará a compor o retrato-robô. Basta ouvi-la, dizia-se, para se perceber que toda a fragilidade é aparente. Ou que toda a fragilidade está bem no fundo desta mulher que se dirige a nós como se trouxesse uma arma nas mãos. Bem despidas, por sinal, pequenas e lisas. Limpas e escovadas, como a escrita que delas sai. Sem qualquer adorno, ambas. Por vezes, desviará o olhar; muitas vezes, quase cerrará os olhos, num franzir honestamente pensador, de quem calibra o que pronuncia. Porque a fatuidade não passa por aqui. É possível que, em certos momentos, procure refrear o fluxo do seu discurso. Apesar de sereno, é inegável a sua firmeza, e em certas alturas será duro. É-o, com certeza, em muitas alturas. Como nos disse em relação a certos textos recolhidos em Ana de Amsterdam, o livro que acaba de publicar na Quetzal, podemos imaginar muitas horas, ou dias a fio, meses, mesmo, a remoer. Para ser justa, para dizer de forma leal. Quando as palavras lhe fogem dos lábios, que têm alguma coisa de tenso, já saem armadas, no entanto – como a deusa do mito. Mas tudo isto é uma reflexão diferida. A conversa decorre quase sem paragens, salvo as inevitáveis. O dia é frio, de chuva intermitente, obstinada. A sensação é de que não podia ter sido pior. O calor talvez se adequasse mais à violência de que a escrita de Ana Cássia Rebelo é capaz. E contudo, nada a impede de falar com frontalidade, como quem não afronta ninguém. Não precisa. Ana falará, sem a mínima hesitação, da sua frigidez, da terapia que faz há anos, dos progressos alcançados no seu tratamento. Do desejo e da fuga dele. Do sexo e da sua ausência. “É costume dizer que é difícil escrever sobre sexo”, diz Ana Cássia Rebelo, reflectindo, “e que nenhum autor português consegue escrever bem sobre esse tema. Eu acho que é muito mais difícil escrever sobre amor. Eu nunca escreveria sobre isso. Eu não escrevo sobre o amor.» «Se este livro tem um força», afirma, «é a de assumir que a frigidez é um assunto importante”. Ana considera que o tema é tabu, no nosso presente. Como o são outros que se prendem com a sexualidade feminina. “A masturbação”, aponta, de modo pronto e inequívoco. Para ela, não há tabus. Mas não há qualquer cálculo da sua parte. Apesar da ponderação que rapidamente se percebe na sua escrita, tanto ela como a forma como Ana se exprime, ao falar, é toda carne e sangue, e o artifício não tem lugar. Definitivamente, é o contrário do “anúncio a telemóveis” a que alude para descrever grande parte da sua e da nossa actualidade. Vivemos, diz ela, “num mundo de aparência”, em que, no fim, é Ana quem parece “um bicho raro”. Pensando nas mulheres de hoje, diz: “Elas esquecem-se de si próprias”. Quando confrontada com o nome de Simone de Beauvoir, e com o que chama “servidão” da maternidade, propõe um outro nome, o da historiadora Élisabeth Badinter, que tem vindo a descobrir nos últimos tempos. E declara peremptória: “Eu não sou uma fêmea. Eu não sou como as mães gatas, as mães cadelas. Sou uma mulher.” A sua consciência feminina, que é, sobretudo, uma profunda lucidez humana, fá-la questionar a irredutibilidade do instinto maternal, e derrubar, como quem passa com pé firme, mitos como os da amamentação. Ciente daquilo que diz, elenca traumas, padecimentos físicos e psicológicos, que abalam até à raiz mais funda o que é ser mulher. Fala na primeira pessoa, revê a sua própria biografia, a pressão docemente sufocante da mãe, da tia, em defesa intransigente do aleitamento materno; mas extrapola, porque, visivelmente, pensou muito no assunto. Vê que este é apenas um exemplo: importante, sem dúvida, mas apenas parte de um quadro bem mais vasto e complexo. Porque a questão mulher é questão por excelência.

A imagem da capa do seu livro reproduz uma fotografia a preto e branco que mostra um conjunto de rosas-de-pedra. Não é só pelo nome desta planta carnuda e pelo seu aroma exótico que este elemento se adequa de forma tão plena ao livro. Ana Cássia Rebelo encontra nas plantas alguns dos lugares mais certeiros do seu afecto – “Herdei da minha mãe o feminino deslumbre pelas jarras com arranjos barrocos», escreve em Ana de Amsterdam. Motivo pelo qual uma afirmação como «Gosto de ter a casa florida.” ganha o estatuto de uma simples constatação de facto, que não necessita de desenvolvimento ou explicitação.

Interessam-lhe as obras, mais do que os autores. Tantas vezes desiguais, não é raro desiludirem-na. Mas não Virginia Woolf, uma redescoberta recente. Ana tem lido os romances em conjugação com os diários correspondentes à escrita da ficção. Mas o seu olhar, nada brando, pousa também numa outra autora, desta vez portuguesa: Maria Judite de Carvalho. Uma obra, como sublinha Ana, que “não se resume a Tanta Gente, Mariana”. A resposta, quando lhe perguntamos porquê M. Judite de Carvalho, é elucidativa. E revela uma relação muito peculiar com os livros e a escrita. Não é habitual, este tipo de franqueza e despretensão. “Porque me revejo nos livros dela. Ela fala das mulheres. Num tempo diferente, claro. Mas eu identifico-me com ela. A linguagem dela é tão simples, sem artifícios. Flui. É poderosa. Chega até nós.” É difícil não fazer comparações com a escrita de Ana Cássia Rebelo. Como é difícil não ver que, para esta autora, a escrita é parte da vida. Ainda que não seja a única. Também isso não deixará de repetir. “Mas ao mesmo tempo, eu gosto muito de que o autor seja só para mim. O pior que podia acontecer era ver certas pessoas, que eu abomino, a falar dela, cheias de prosápia.” Esta contradição não diminui a energia da sua adesão. É, antes, o sinal de uma personalidade forte, de uma individualidade marcada e incisiva. É ela que explica as suas palavras de uma agressividade com sentido, que não tem qualquer vizinhança com um escárnio fútil. São os «deslumbres bovinos» de que nos fala. “E depois há os consensos. É a minha opinião, que vale tanto como as outras. Nisso tenho segurança. Daí eu gostar tanto de uma autora esquecida, como M. Judite de Carvalho.” E há, enfim, uma casta à parte. São os “deslumbrados da literatura. Como se a literatura fosse a coisa mais importante. Como se eles fossem os eleitos. Parece que têm orgasmos quando falam de livros.» Ana procede por outra via. Gosta de ler em recato, como prefere ir ao cinema sozinha. Parece-lhe estranho que se acabe de ver um filme logo a ter ideias, e em animada discussão. Ana escolhe sair a sós do escuro do cinema e, já na rua, caminhar, reflectindo acerca daquilo que viu. Deve sair da escrita da mesma maneira, ficamos a pensar.

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