Os esforços de Pedro Barateiro para chegar ao presente

Impressiona, em Palmeiras Bravas. The current situation, a maneira como o artista não ensaia nenhuma forma de escapar ao confronto com a realidade – arrisca tomar a palavra.

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Estas obras (pintura, desenho, escultura, vídeo, instalação) não são documentos da actualidade, são esforços para chegar ao presente. NUNO FERREIRA SANTOS
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Vista da exposição Palmeiras Bravas/ The Current Situation DR
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Pedro Barateiro, The Current Situation (Prologue) Cortesia do artista e da Galeria Filomena Soares
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Vista da exposição Palmeiras Bravas/ The Current Situation DAVID RATO
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Vista da exposição Palmeiras Bravas/ The Current Situation DAVID RATO

Com um assinalável percurso internacional — Bienal de S. Paulo (2010), Bienal de Sidney (2008), entre outras exposições colectivas e individuais relevantes em Serralves, Basel, Malmö ou Cambridge, entre outras —, Pedro Barateiro (Almada, 1979) tem desenvolvido um trabalho que se caracteriza pela maneira como aborda a circulação de imagens, conceitos e objectos entre diferentes culturas, geografias e tempos.

Não se trata de questionar os contextos dos diferentes objectos produzidos pelo homem. Mas mostrar a sua circulação. Os lugares que sua a obra tem abordado nas exposições que faz desde 2003 são tão variados como as antigas colónias portuguesas ou os armazéns da Amazon. Mas não lhe interessa documentar essas realidades e contextos específicos, antes misturar essas referências e, sobretudo, usar a arte como palco onde confluem coisas tão distintas. É o caso da nova exposição do CCB, Palmeiras Bravas. The current situation: o extermínio das palmeiras na Europa e a crise social, económica e humanitária provocada pela crise actual. É uma ideia de circulação acentuada pelo modo como a obra de Barateiro é composta de coisas tão diferentes como pintura, fotografia, desenho, escultura, vídeo, performance, palavras escrita e ditas, não se deixando aprisionar num estilo ou retórica. Há uma preocupação ética do artista em não acrescentar mais objectos ao mundo mas antes, como contou ao Ípsilon, usar o que já existe, porque isso lhe chega para desenvolver as questões que lhe interessa. Por isso, a sua prática, guiada por uma lógica importante de contenção, tem sido a de reutilizar imagens de arquivo, recortes de jornais, coisas encontradas, e com isso criar novos sentidos e fazer novas perguntas.

Adeus ao escapismo
A exposição no Museu Berardo, a primeira com esta dimensão que faz em Lisboa, abre com um vídeo que funciona como prólogo. Não se trata de explicitar a narrativa, mas de indicar a atmosfera conceptual e emocional com que devemos abordar as quatro grandes galerias por onde se estendem esculturas, pinturas, objectos e imagens. Nesse “prólogo” o artista, usando o texto como imagem, cita a edição especial The World in 2015 da revista The Economist em que Anne Wroe, editora de obituários, declara um Adeus aos escapismo: “Por norma, as pessoas comuns não querem escapar. O homem é um ser social (...) Optar por estar de fora, na solidão ou silêncio, era uma escolha considerada muitas vezes bizarra ou que tinha que ser explicada”. Aparentemente, a citação não adianta nada, mas se escutada com atenção mostra a posição do artista relativamente ao lugar a partir de onde devem ser vistas as suas “coisas”. Portanto, trata-se de uma posição que não aborda o mundo do lado de fora, da qual não fazem parte o silêncio nem a solidão, ou seja, são trabalhos para serem vistos no lugar da comunidade, com os outros, accionando discursos, pensamentos, imagens. O apelo ao “não escapismo”, sublinha Barateiro, reforça a ligação destes trabalhos ao presente. E a forma como o presente surge não é uma tentativa de assumir um lugar de comentário ou de ilustração do “nosso mundo”, mas de entender o presente na sua dimensão paradoxal, instável, confusa. Estas obras (pintura, desenho, escultura, vídeo, instalação) não são documentos da actualidade, são esforços para chegar ao presente.

O vídeo final, e que dá parte do título da exposição The Current Situation, funciona como elemento de síntese. Ouve-se uma voz: “Escrevi por ter sido confrontado com uma realidade tão presente que era impossível escapar. Ao mesmo tempo que cortavam a última palmeira em frente à minha janela, tinha como barulho de fundo as manifestações contra a austeridade em frente à Assembleia da República. O som dos dois eventos funde-se um no outro, passando a ser um ruído distante, mas próximo. O barulho das vozes e da serra eléctrica que cortava a palmeira encontram-se em uníssono. Não consigo tirar esse som da minha cabeça. Talvez isto ajude. Tento trabalhar alheado dos assuntos políticos e sociais, manter-me distante, como espectador, mas neste momento não consigo.”

Estas palavras, escritas por Barateiro, ilustram a forma como a articulação arte, política, sociedade é feita de maneira subtil pelo artista. Como explica, tentando desvendar o misterioso título da exposição e, simultaneamente, o seu processo: o paralelismo entre a morte das palmeiras na Europa causada por um agente vindo de países tropicais do Sul e o desastre social e humanitário causado pelas políticas do Norte da Europa criam um encontro que ultrapassa qualquer relação de ilustração e ironia, mas que faz pensar na estranheza dessa coincidência e sobretudo reenvia para a tão presente ideia de Sul e da crise, da corrupção, da falta de trabalho, repetindo um cliché político que tem dominado o mundo.

A esta luz toda a exposição pode ser entendida como plataforma, ou arena, para o encontro de elementos com origens e funções diferentes. É mais um dispositivo gerador de uma situação (cultural, política, social) do que a apresentação de elementos contemplativos. O “parque de esculturas” com que abre é um bom exemplo: cerca de uma dezena de elementos de betão que tanto podem ser mobiliário urbano, monumentos ou elementos escultóricos, mas tudo corpos uniformes que estão entre uma função ainda identificável (podem ser um para-vento, um banco, uma paragem) e o objecto sem função e inútil da experiência estética (falando em termos kantianos). E o lugar desta confusão é um ponto central de criatividade e gerador das imagens com que este artista trabalha.


Barateiro chama a atenção para o facto de a articulação arte-política ter sido ainda mais importante nesta exposição, porque o contexto do museu e de todas as relações de poder que convoca, passadas e presentes, fazem deste um lugar simbólico. Expor em Belém, explica, é expor no lugar que foi palco da exposição do Estado Novo sobre o “mundo português”, onde se erigiu o símbolo do Portugal na Europa – e todos os outros elementos que a Praça do Império em Belém convoca. Esta consciência, sublinha, não se traduz em nenhuma peça em concreto, mas na maneira como o artista decidiu distribuir as obras pelo espaço contrariando a arquitectura dominante que é fechada e virada para dentro. Uma reflexão que acontece a partir de um texto que o artista escreveu para a exposição em que convoca o projecto que a arquitecta brasileira Lina Bo Bardi desenvolveu, e perdeu, em 1988 para o concurso do CCB. Nos desenhos da proposta, um enorme pavilhão aberto para o rio e com uma cobertura feita de jardins, Lina Bo Bardi escreveu: “Cultura, como livre escolha, como Liberdade de encontros e reuniões, e não como duplicado de um trabalho escravo.” Barateiro faz suas estas palavras e integra-as no seu texto e, assim, há mais uma peça da exposição. Palavras que não são descrições, mas elementos plásticos com que o artista constrói os seus universos sensíveis e conceptuais.

Nesta exposição há, principalmente, a estranheza do mundo, da política, da economia, estranheza esta associada aos modos como estes instrumentos de poder configuram as actividades humanas transformando-as a ponto de quase não as podermos reconhecer: em telas aparece inscrita a expressão fulfillment center [centro de satisfação], mas só se vêem traços pretos, abstractos, e não se consegue reconhecer nada e esta incapacidade de dar uma figura, atribuir uma imagem, à satisfação humana assinala a transformação civilizacional do homem, da natureza, da cultura. Impressiona a maneira, desassombrada, com que o artista torna clara uma posição e, neste sentido, não ensaia nenhuma forma de escapar ao duro confronto com a realidade – mas sim fazer da realidade o seu elemento fundamental, arriscando tomar a palavra.