Crítica Cinema

O romance fragmentado

Um primeiro filme simpático com mais ideias do que a maioria da concorrência indie.

Às vezes, não é preciso que a história que se conta seja nada de especial; basta que o modo como ela é contada lhe saiba dar a volta.

É o que acontece com a estreia francamente simpática do americano Sam Esmail, onde uma situação típica de comédia romântica – um boy meets girl acompanhado do início ao fim da relação – surge fragmentada e desarticulada numa coreografia sedutora de gestos, planos e diálogos. Kimberly e Dell conhecem-se por acaso numa noite em que assistem a uma chuva de meteoros num cemitério de Los Angeles (mas será realmente Los Angeles?). A partir desse início Esmail salta para a frente e para trás no tempo para desenhar o que une e o que separa o casal, cruzando escrita e montagem num processo que lembra aqui e ali o melhor da geração mumblecore (Lynn Shelton, Alex Ross Perry, Andrew Bujalski).

Mas a sofisticação visual de Cometa remete muito mais para o genial e injustamente desconhecido Shane Carruth (Primer, Upstream Color): se Carruth tivesse querido aplicar a sua levitação sinestésica a uma comédia romântica, o resultado poderia ser este romance moderno, convenientemente fragmentado, que dissolve a narrativa linear e convida o espectador a entrar no jogo de perceber o que é memória, o que é real e o que é inventado. Não é um filme isento de falhas, mas tem mais estilo e mais ideias do que a grande maioria do que passa hoje por indie americano, e o seu hipsterismo quase alheado dá-lhe charme a rodos.