Um em cada cinco suicídios tem a ver com o desemprego

O fenómeno é global – e causa nove vezes mais suicídios do que a recessão económica, conclui um novo estudo.

O suicídio associado ao desemprego é um flagelo global
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O suicídio associado ao desemprego é um flagelo global Paulo Pimenta

Cada ano, cerca de 45.000 pessoas põem fim à vida porque estão desempregadas. E isso já acontecia antes da recessão económica dos últimos anos – embora a crise global de 2008 tenha obviamente exacerbado a situação. Esta é a principal conclusão de um artigo publicado nesta quarta-feira na revista The Lancet Psychiatry por investigadores Universidade de Zurique (Suíça).

Já se sabia que existe uma relação entre desemprego e suicídio, explica em comunicado aquela instituição. Mas em geral, os especialistas têm-se focado apenas no pós-crise de 2008 e apenas num dado país ou região do mundo.

Agora, pela primeira vez, a equipa do sociólogo Carlos Nordt fez uma análise mais dilatada no tempo, com base em dados recolhidos entre 2000 e 2011. E em termos geográficos, o novo estudo também é muito mais abrangente do que os anteriores, considerando quatro regiões: América do Norte e do Sul; Europa do Norte e Ocidental; Europa do Sul e Oriental; e fora da Europa e América.

Para determinar quantos suicídios tiveram a ver com o desemprego durante a primeira década do século XXI, os cientistas recorreram, por um lado, aos dados de mortalidade de 63 países, incluindo Portugal, vindos da Organização Mundial da Saúde (OMS); e, por outro, a dados sobre as respectivas situações económicas desses mesmos países vindos do Fundo Monetário Internacional. Contudo, ficaram excluídos, por falta de dados, a China e a Índia, bem como grande parte de África. Isso explica, como faz notar Carlos Nordt ao PÚBLICO num email, que o número total de suicídios por ano estimado no estudo ronde os 230.000, ao passo que estimativa global da OMS para 2012 é de 800.000.

Com base nos seus cálculos estatísticos, os autores concluem, como já se suspeitava, que o desemprego associado à crise de 2008 provocou efectivamente um excesso de suicídios: cerca de 5000. Mas os novos resultados revelam uma realidade bem mais assustadora: mesmo em tempos de estabilidade económica (anos antes da crise), cerca de 45.000 pessoas suicidaram-se por ano porque não tinham emprego. Ou seja, o estudo mostra que o número de suicídios anuais associados ao desemprego é nove vezes maior do que o número directamente relacionado com a crise.

“O que isto quer dizer é que se nos focarmos apenas no ‘ano da crise’, estamos a subestimar o efeito do desemprego na taxa de suicídios”, disse-nos Nordt. “Por exemplo, se a taxa de desemprego era de 7% antes da crise e passou a ser de 10% durante a crise, analisar apenas o ano da crise leva-nos a estimar o efeito de apenas 3% do desemprego. Ora, é óbvio que, mesmo com uma taxa de 7% de desemprego, muitas pessoas já tinham, antes da crise, um risco de suicídio mais elevado.”

Assim, cerca de um suicídio em cada cinco é devido ao desemprego e, em todas as regiões consideradas, o risco de uma pessoa desempregada se suicidar é 20 a 30% mais elevado do que o risco de uma pessoa empregada se suicidar.

Os resultados mostram também que, de uma forma geral, tanto as mulheres como os homens, e tanto os mais novos como os mais velhos, são vulneráveis face às variações da taxa de desemprego.

Todavia, diz Nordt no referido comunicado, o estudo “sugere que nem todas as perdas de emprego têm o mesmo impacto: o efeito sobre o risco de suicídio parece ser mais forte nos países onde estar desempregado é uma situação invulgar. É possível que um aumento imprevisto do desemprego desencadeie maiores receios e insegurança nesses países do que naqueles com níveis de desemprego [normalmente] mais elevados”.

Interrogado mais especificamente sobre a situação portuguesa e de outros países do Sul da Europa particularmente afectados pela crise (Grécia, Irlanda e Espanha), Nordt diz-nos acreditar “que Portugal foi o mais afectado em termos de suicídios ligados ao desemprego” – ressalvando contudo que “a qualidade dos dados disponíveis (o número registado de suicídios) era bastante fraca”, já que faltavam os anos de 2004 a 2006. Quanto à evolução da situação de Portugal desde 2011 – e ao impacto da austeridade sobre as taxas de suicídios –, o cientista responde-nos que tem dados relevantes.

Uma outra conclusão notável do estudo é que os suicídios associados à actual recessão económica mundial começaram a aumentar seis meses antes do início “oficial” da crise em 2008. “A evolução do mercado de trabalho foi claramente antecipada e as incertezas relativas à situação económica já tiveram, naquela altura, consequências negativas”, diz o psiquiatra Wolfram Kawohl, co-autor do estudo. “O aumento da pressão no local de trabalho – nomeadamente através das restruturações – pode portanto fomentar os suicídios.”

Segundo estes autores, os seus resultados poderão ter implicações importantes em termos de políticas de prevenção do suicídio. “São precisas estratégias de prevenção focadas nos desempregados, no emprego e nas condições de emprego, não só em tempos de dificuldade económica, mas também quando a economia é estável”, concluem no seu artigo.

Num comentário publicado na mesma edição da Lancet Psychiatry, Roger Webb e Navneet Kapur, da Universidade de Manchester (Reino Unido), alertam para o facto de que “a análise das variações dos níveis de desemprego contempla apenas uma fracção da exposição social aos efeitos da recessão económica e dos períodos subsequentes de cortes nas despesas e de austeridade fiscal”.

Para estes especialistas, os suicídios imputáveis à recessão são provavelmente “a ponta do icebergue” de um leque mais amplo de problemas sociais e psicológicos. “Muitas pessoas afectadas que continuam empregadas durante estes tempos difíceis”, escrevem, “também se defrontam com graves factores de stress psicológico devidos a constrangimentos económicos que incluem a redução do salário, os ‘horários zero’, a precaridade do emprego, a insolvência, as dívidas e a perda de alojamento”.

E por isso, consideram que, para além do suicídio, “também é preciso perceber melhor as outras manifestações da adversidade económica, tais como lesões auto-infligidas não mortais, stress e ansiedade, depressão, falta de esperança, alcoolismo, raiva, conflitos familiares e degradação das relações”. Como também desvendar “o que torna algumas pessoas altamente resilientes, fazendo com que consigam manter bem-estar e saúde mentais mesmo face às maiores adversidades económicas.”

Linhas de apoio e prevenção do suicídio

SOS Voz Amiga (Lisboa)
Atendimento das 16 às 24h
21 354 45 45
91 280 26 69
96 352 46 60

Escutar - Voz de Apoio
Gaia
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A Nossa Âncora
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Telefone da Amizade
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SOS Telefone Amigo
Coimbra
239 72 10 10

Departamento de Psiquiatria de Braga
Braga
253 676 055

SOS Estudante
Coimbra
808 200 204

Fonte: Sociedade Portuguesa de Suicidologia