Assad recebe informações sobre os ataques internacionais

Numa entrevista à BBC, o ditador sírio volta a desmentir quaisquer crimes do seu regime e até brinca com o uso de armas indiscriminadas, como os barris cheios de explosivos.

Assad recebeu o enviado da BBC em Damasco
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Assad recebeu o enviado da BBC em Damasco AFP

Bashar al-Assad não conversa com os Estados Unidos, que lideram a coligação internacional criada para combater os jihadistas no Iraque e na Síria. Mas é “informado” sobre as missões aéreas na Síria, disse o ditador numa entrevista à BBC.

“Por vezes, eles transmitem uma mensagem, mensagens gerais, nada táctico”, diz Assad. “Não há diálogo. Há, podemos dizer, informações, não diálogo.” Essas informações chegam através de “terceiros”, incluindo o Iraque, mas também “outros países”. Questionado sobre se o seu Governo envia mensagens para os membros da coligação, Assad responde que não, “de maneira nenhuma”.

“Não, nós não podemos de forma nenhuma” integrar essa coligação", afirma ainda. “Não o queremos por uma simples razão, não podemos aliar-nos a países que apoiam o terrorismo… porque nós estamos a combater o terrorismo”, justifica, referindo-se ao apoio que alguns países ocidentais e do Golfo Pérsico dão aos rebeldes sírios e à oposição política. O regime considera toda a oposição “terrorista”.

Numa conversa de quase meia hora com o editor para o Médio Oriente da emissora pública britânica, Jeremy Bowen, Assad volta a desmentir quaisquer crimes por parte do seu Governo, recusando que alguma vez os sírios se tenham manifestado pacificamente.

Bowen, que já esteve várias vezes na Síria desde o início dos protestos pacíficos, em Março de 2011, diz que as pessoas que conheceu e participaram nas primeiras manifestações em Damasco não queriam um Estado islâmico, só “mais liberdade e direitos”. “Nas primeiras semanas muitos polícias foram mortos, mortos a tiro. Não me parece que tenham sido atingidos e mortos pelas ondas de som dos manifestantes, é uma fantasia falar disso. Desde o início que as manifestações não eram pacíficas”, afirma.

“No máximo, num dia, terão estado 140 mil pessoas em manifestações em toda a Síria, vão dizer que eu estou a diminuir os números. Ok, que fossem um milhão, um milhão perante 26 milhões de sírios não é nada”, diz o líder sírio, insistindo que o seu país não é um Estado falhado e que o Governo e as instituições estatais ainda “cumprem os seus deveres para com os sírios”.

Confrontado com relatórios sobre tortura de civis às mãos das suas forças, recurso a armas químicas (como o ataque de Agosto de 2013, nos arredores de Damasco, em Ghouta, quando gás sarin matou mais de 1400 pessoas) ou uso de armas indiscriminadas em zonas habitadas, Assad responde como sempre, desmentindo tudo. Sobre Ghouta, o ditador diz que “não é possível saber” quem esteve por trás desses ataques.

Bowen descreve a Assad uma conversa que teve em 2012 com um militar que desertou: “Não posso ver o meu povo, a minha família síria a ser morta às nossas mãos”, disse-lhe o sírio, conta o jornalista. “Qualquer guerra é má e em qualquer guerra morrem civis. Não podemos falar de uma guerra benigna, sem baixas. Nós estamos a defender os civis”, garante Assad. “Se fossemos nós que estivéssemos a matar o nosso povo como é que poderíamos ter aguentado quatro anos no poder, com as pessoas contra nós?”

Mantendo-se sempre tranquilo – e sorrindo com muita frequência –, Assad defende tudo o que fez, descrevendo-se como um “patriota” e apelando ao “senso comum”. “Se as pessoas nos apoiam é porque nós as defendemos”, diz, sem nunca comentar as referências aos mais de 200 mil mortos e dez milhões de deslocados (incluindo 4 milhões de refugiados), no que a ONU descreve como “a pior crise humanitária desde a Segunda Guerra”.

Questionado sobre o uso de bombas de cloro e o recurso muito frequente a barrel bombs (barris de aço cheio de explosivos e munições), actualmente o tipo de arma mais usado pelo regime, o Presidente sírio chega a fazer piadas. “O gás de cloro existe em todo o lado no mundo… Qualquer coisa pode ser militarizada.”

Sobre os barris com explosivos, começa por perguntar o que são. “Eu conheço o Exército. Eles usam balas, mísseis e bombas. Não sei nada sobre o Exército estar a usar barris, ou talvez, panelas de pressão”, diz depois. Um pouco mais à frente, volta a referir-se às “panelas de pressão”.

Num texto escrito para o site da BBC, o entrevistador diz que é impossível saber quem dá realmente as ordens na Síria e lembra que Assad começou a dar mais entrevistas a media estrangeiros (deu uma recente à revista Foreign Affairs), sugerindo "que se está a sentir mais seguro". Comentando a resposta sobre as barrel bombs, Bowen descreve uma resposta “ligeira; a referência a panelas de pressão ou é crueldade, numa bizarra tentativa de provocar o riso, ou um sinal de que Assad está completamente desligado que do que está acontecer no seu país”.