Os exames de Cambridge chegam a cada vez mais partes do mundo

Este ano realiza-se, pela segunda vez nas escolas portuguesas, um teste de Inglês criado pela Universidade de Cambridge. Fomos até lá visitar as instalações e perceber como se fazem exames para centenas de países.

As escolas recusam perder verbas para o ensino superior
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As escolas recusam perder verbas para o ensino superior Paulo Pimenta

Parece uma fábrica. São 21 mil metros quadrados de máquinas, estantes, caixotes, papéis, códigos de barras. Entramos de colete. Os telemóveis e as bolsas ficam à porta. Segurança máxima. Estamos na companhia de responsáveis da Universidade de Cambridge, nas instalações inglesas onde são impressos, empacotados e despachados exames de Inglês para mais de uma centena de países. Porém, o teste que os alunos portugueses farão em Abril e Maio será impresso em Portugal. O país é dos poucos, se não o único na Europa, que imprime os exames.

Nestas instalações, vigiadas por cerca de 180 câmaras, com quase nove quilómetros de estantes, são despachados, todos os anos, sete milhões de certificados para 170 países. Uma das áreas tem capacidade para armazenar 30 mil caixas com enunciados devolvidos. Ao final da tarde, o director de pesquisa do Cambridge English Language Assessment, Nick Savielle, resume a visita à infra-estrutura que assegura a gestão, segurança e distribuição dos exames desta forma: “Fazer exames a uma escala internacional implica uma logística massiva.”

O teste diagnóstico de Inglês obrigatório em Portugal para os alunos do 9.º ano (e facultativo para outros) será mais exigente do que o que foi feito pela primeira vez em 2014. A parte escrita realiza-se a 6 de Maio e a oral entre 7 de Abril e 5 de Maio. Para quem quiser um certificado, as inscrições já arrancaram.

O Cambridge English Language Assessment, que faz parte da Universidade de Cambridge e produz estes exames, tem mais de 500 funcionários no mundo. Dezenas de milhares de examinadores e professores, entre outros profissionais, estão envolvidos no processo. No último ano, foram feitos cinco milhões exames. Ao contrário do que acontece com os exames em Portugal, os de Cambridge não são tornados públicos.

Hugo Moss, responsável pelo grupo de avaliação, recebe-nos num silencioso escritório no centro de Cambridge: “É um grande escritório, mas calmo. Precisamos de concentração. Há muito trabalho a preparar estes exames.” Garante que a procura de vários tipos de testes, que atribuem uma certificação reconhecida internacionalmente, tem aumentado em todo o mundo, sobretudo entre os mais jovens. “Mais e mais países têm a ambição de aprender inglês.” Apesar de trabalharem com vários governos, através da realização de exames ou consultoria, não existem muitas parcerias semelhantes à que foi feita em Portugal, com o Ministério da Educação e Ciência.

Mas afinal como são feitos os testes? “Não escrevemos os materiais dos exames. Temos equipas de fora que são especialistas em língua inglesa”, explica Hugo Moss. Os materiais, que estão sempre a ser renovados, são produzidos por esses peritos, segundo orientações “muito claras” dos responsáveis de Cambridge. Há vários encontros para elaborar os exames e temas que não entram, como política ou religião. A razão é simples: os exames são feitos em vários países.

Há ainda uma fase na qual todos os materiais produzidos, sejam da parte escrita, oral ou de audição, são previamente testados. Vão para vários países para serem feitos por “um vasto leque de estudantes”. Esses testes iniciais são devolvidos, analisados e verifica-se que percentagem de alunos deu respostas certas ou erradas. Produz-se estatística. Há novos encontros para analisar dados. São pedidos comentários aos professores que colaboraram na realização destes testes prévios.

Depois de vários passos e de ser feita toda a verificação de possíveis erros, os itens vão para um chamado banco de perguntas, uma plataforma electrónica, na qual, depois de inseridos, podem ser escolhidos para serem incluídos nos testes.

Estudos
Em Portugal, os professores que vão conduzir o teste receberam formação de Cambridge – deram formação a 100 team leaders portugueses. Por exemplo, nas orais, os docentes não podem sequer abanar a cabeça, não podem dar qualquer pista sobre a resposta correcta. Além disso, estas orais não são feitas da forma tradicional, entre professor e aluno. São conversas entre dois, às vezes três, estudantes. Para avaliar a interacção entre eles.

Em Cambridge ainda se faz trabalho de investigação. Os resultados dos exames são avaliados, produzem-se relatórios. Jane Lloyd, que trabalha nesse departamento, explica que, no caso de Portugal, estão a analisar o impacto que a realização destes testes vai ter na sala de aula e como irá progredir o nível de inglês num período de três anos. No teste feito em 2014, Key for Schools, a parte da audição foi aquela em que os alunos portugueses do 9.º ano se saíram melhor. A pior foi a oral. Este ano, o Preliminary English Test vai ser mais puxado.

De acordo com os relatórios produzidos, a falta de confiança dos alunos pode ser uma das razões para os fracos resultados na parte oral. Os alunos ouvem músicas e vêm filmes em inglês, daí terem tido um desempenho melhor na audição. Mas lêem poucas revistas e livros. A leitura fica-se por jogos de computador e sites.

Uma grande percentagem de alunos, pais, professores e directores ouve músicas em inglês todos ou quase todos os dias, bem como filmes ou programas de televisão – nos alunos e professores, a percentagem ultrapassa os 80%, nos pais e directores os 60%. Porém, quando questionados sobre com que frequência lêem livros, revistas ou jornais em inglês, mais de 30% dos alunos e mais de 40% dos pais nunca o faz. No grupo dos docentes, cerca de 35% fá-lo diariamente ou quase todos os dias. Para este relatório, 1084 professores e 1425 pais, familiares e encarregados de educação responderam a um questionário online (19 participaram, entre outras formas, através de entrevistas).

Há ainda um contraste no que se refere ao tempo passado nas aulas: 40% dos alunos dizem que passam mais tempo com gramática, enquanto cerca de 35% dos professores afirmam que nas aulas dedicam mais tempo à parte oral. Neste documento, refere-se, porém, que é necessário melhorar o desempenho dos alunos na parte oral.

O PÚBLICO viajou até Cambridge a convite do IAVE (Instituto de Avaliação Educativa) e do Cambridge English Language Assessment.