Foi Coppens quem inventou o penálti “à Cruyff”

Morreu nesta quinta-feira o avançado belga que criou o penálti a dois toques, celebrizado mais tarde pelo holandês.

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Coppens, um dos grandes avançados da história do futebol belga, morreu na última quinta-feira, com 84 anos DR

Neném Prancha, que ficou para a história do futebol brasileiro como “o filósofo do futebol” pelas suas frases espirituosas, dizia que “o penálti é uma coisa tão importante, que quem devia bater é o presidente do clube”. É a ocasião suprema para marcar um golo, um duelo de marcador contra guarda-redes, uma bola que viaja 11 metros até à baliza e pode, ou não entrar. Há penáltis famosos, simplesmente pelo seu carácter decisivo, por terem, ou não, resultado em golo, mas também pela sua execução. Antonin Panenka e os seus nervos de aço no penálti ao meio da baliza deu um título europeu à Checoslováquia e criou o amplamente imitado “penálti à Panenka”.

Menos famoso, mas mais exótico foi o penálti com mais que um toque, que muita gente pensa ter sido criado por Johan Cruyff em 1982. Foi o holandês que o celebrizou, de facto, num jogo do Ajax, em parceria com Jasper Olsen, mas o pioneiro foi Rik Coppens, avançado belga, autor da proeza, 25 anos antes. Coppens morreu nesta quinta-feira, com 84 anos, e ficará na história do futebol belga como um dos seus melhores avançados, mas será, sobretudo, lembrado por aquele seu momento de loucura, em 1957.

Mas foi uma loucura controlada aquela que tomou conta de Coppens naquele jogo a 5 de Junho de 1957. Não era uma final e não estava a ser propriamente um jogo equilibrado. Era um jogo de apuramento para o Mundial que se iria realizar no ano seguinte, na Suécia, entre Bélgica e Islândia. Já perto do final da primeira parte, aos 44’, o resultado estava em 6-1 para os “diabos vermelhos” quando Coppens, que já tinha marcado uma vez nesse jogo, tem a possibilidade de fazer mais um golo da marca dos 11 metros. Provavelmente não o faria se o marcador estivesse assim, mas naquele dia resolveu tentar algo diferente.

Na baliza, o já muito massacrado guarda-redes islandês Bjorgvig Hermanssson esperava um remate directo de Coppens, mas o belga, em vez disso, passou para um colega seu, André Piters. O guarda-redes avançou rapidamente, Piters deu um toque para a esquerda e Coppens só teve de empurrar. “Ele era muito extrovertido no campo. Adorava fazer coisas de fazer as pessoas ficarem de boca aberta. Ainda bem que ele marcou o penálti naquele dia. Imaginem o que teriam dito se ele falhasse uma coisa daquelas?”, recordou, mas tarde, Theo van Rooy, colega de equipa de Coppens.

Chamavam enfant terrible a Henri Francois Louis Coppens, avançado goleador e, ainda hoje, o quinto melhor marcador da I Divisão belga (258 golos em 389 jogos). Passou os seus melhores anos ao serviço do Beerschot, clube de Antuérpia (que já não existe), mas ficou sempre no seu país, apesar de ter sido desejado por clubes como o Barcelona, deixando de jogar aos 40 anos. “Eu era um jogador bastante completo. Tinha boa técnica, velocidade e rematava bem com os dois pés”, era como Coppens se via a ele próprio.

É verdade que o seu penálti não foi tão imitado como o de Panenka, mas teve um seguidor ilustre naquela versão holandesa de Cruyff, marcado exactamente da mesma maneira. Foi a versão que ficou mais famosa. É claro que, como o de Panenka, também teve os seus momentos infames. Aconteceu, por exemplo, à selecção portuguesa de sub-21 em 2009, num particular frente a Cabo Verde. Bruno Pereirinha, actualmente na Lazio, tentou imitar Coppens e Cruyff, mas, ficou sem a bola assim que deu o primeiro toque.

O falhanço mais famoso aconteceu em 2005, num jogo entre o Arsenal e o Manchester City. Os gunners já venciam por 1-0, graças a um penálti convertido por Robert Pires, quando beneficiaram de novo castigo. Desta vez, Pires, resolveu dar um toque para ser Thierry Henry a marcar o golo, mas a bola mal saiu do sítio e Henry não chegou a tempo. A ideia, diz Pires, foi de Henry: “Ele tinha visto o Cruyff a marcar e queria fazer o mesmo, mas eu não queria porque era um jogo a sério e era demasiado arriscado. Passou-me muita coisa pela cabeça e o meu pé disse ‘não’.”

Planisférico é uma rubrica semanal sobre histórias de futebol e campeonatos periféricos