Arquivo de Eduardo Lourenço: cem mil euros por cem mil documentos

Adquirido pela Biblioteca Nacional no final de Janeiro por cem mil euros, o acervo documental de Eduardo Lourenço tem uma dimensão muito superior à que foi inicialmente divulgada. Os mais de 11 mil documentos citados em várias notícias apenas dizem respeito,afinal, à sua correspondência.

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Eduardo Lourenço diz que há alguns textos que “nem daqui a 30 anos” poderão ser publicados. Enric Vives-Rubio

Ninguém sabe ainda ao certo quantos documentos integram o arquivo de Eduardo Lourenço adquirido pela Biblioteca Nacional (BN) em Janeiro passado por cem mil euros, mas enchem “102 caixas e 431 dossiers”, precisou ao PÚBLICO a presidente da BN, Inês Cordeiro.

 A informação, divulgada em vários jornais, de que o acervo se comporia de cerca de 11 mil documentos está errada, sendo provável que o equívoco se tenha ficado a dever a uma confusão entre a totalidade dos documentos e a parcela que diz respeito à correspondência do autor.

As cartas conservadas por Lourenço é que já foram inventariadas e ultrapassarão as 11 mil, constituindo um valioso testemunho dos diálogos que o autor de Pessoa Revisitado (1973), O Labirinto da Saudade (1978) ou O Canto do Signo (1994) foi mantendo ao longo de décadas com escritores portugueses de várias gerações, e também com autores estrangeiros.

“No total, poderão ser cem mil ou 120 mil documentos”, arrisca João Nuno Alçada, grande responsável pela vinda para Portugal deste impressionante acervo que Eduardo Lourenço foi acumulando ao longo de décadas na sua casa de Vence, em França. Foi também Alçada que deu início à organização e catalogação do arquivo, um trabalho que começou a ser feito há já alguns anos, com o apoio da Gulbenkian, do Centro Nacional de Cultura e da Fundação EDP, nos vários lugares que foram provisoriamente acolhendo estes papéis: a própria Gulbenkian, a Torre do Tombo e, finalmente, a Biblioteca Nacional.

A directora da BN não tem dúvidas de que este é um dos mais extensos núcleos documentais a integrar o Arquivo de Cultura Portuguesa Contemporânea, e observa ainda que a sua “integralidade”, a “garantia de que está ali praticamente tudo”, lhe confere um valor muito particular.

E basta pensar nas Obras Completas de Eduardo Lourenço em curso de publicação pela Gulbenkian – com coordenação científica de João Tiago Pedroso de Lima e Carlos Mendes de Sousa – para se perceber a vantagem que representa para os responsáveis do projecto o acesso ao arquivo integral. A julgar pelos volumes já divulgados, a lógica tem sido a de agregar a cada título originalmente publicado por Lourenço um extenso conjunto de outros textos seus que partilham o mesmo universo temático, um critério que deveria implicar percorrer todo o acervo para garantir que não fica de fora nenhum ensaio ou artigo relevante.

Ainda que esse propósito de exaustividade esteja sempre potencialmente ameaçado pela própria vitalidade intelectual de Lourenço, que aos 91 anos mantém a sua proverbial dificuldade em recusar solicitações para colóquios e afins e continua a escrever ou improvisar oralmente sobre os mais diversos temas e autores.

Mas nem tudo o que está no acervo poderá ser publicado de imediato. Neste momento, o acesso à documentação está aliás limitado à equipa que trabalha na sua inventariação e organização e aos investigadores envolvidos quer no projecto das obras completas em curso de publicação pela Gulbenkian, quer na preparação dos novos títulos de Lourenço que vêm sendo editados pela Gradiva, onde saiu já este ano Do Brasil: Fascínio e Miragem, um livro que compreende textos dispersos e inéditos de diversa natureza e redigidos ao longo de quase 70 anos, entre 1945 e 2012.

No total, e segundo a directora da BN, há apenas 27 pessoas autorizadas por Eduardo Lourenço a consultar esta documentação. Uma restrição habitual em acervos deste tipo, e que é fácil de compreender se pensarmos que a BN conserva agora milhares de cartas que Lourenço trocou com autores como Miguel Torga, Adolfo Casais Monteiro, Vergílio Ferreira, Jorge de Sena, Sophia de Mello Breyner Andresen, José Saramago, Agustina Bessa-Luís, Eugénio de Andrade, António Ramos Rosa, José Cardoso Pires ou António Lobo Antunes, para citar apenas um pequeno número dos seus correspondentes, que inclui ainda muitos dos mais importantes investigadores estrangeiros da obra de Pessoa.

Tendo em conta as características do meio literário português, que não serão muito diferentes das de qualquer outro, e o presumível grau de intimidade que Lourenço manteria com alguns destes seus correspondentes, não é difícil imaginar-se a trapalhada que adviria da divulgação imediata e irrestrita de todas estas cartas. Numa entrevista publicada esta semana no Jornal de Letras, João Nuno Alçada conta que Eduardo Lourenço permitiu, por exemplo, o estudo e posterior publicação da correspondência com Casais Monteiro ou José-Augusto França, mas interditou a consulta do seu diálogo epistolar com Vergílio Ferreira e foi avisando que há alguns textos que “nem daqui a 30 anos” poderão ser publicados.

Bastaria provavelmente esta correspondência, sugerem dois alfarrabistas que o PÚBLICO ouviu, para justificar a verba paga pelo Estado. E não deixa de ser curioso que, não obstante o interesse profissional que teoricamente poderiam ter em que toda esta documentação fosse parar ao mercado, ambos se mostram satisfeitos com a solução agora encontrada. António Duarte, da livraria portuense O Homem dos Livros, congratula-se por saber que “os papéis de um autor como Eduardo Lourenço vão ficar devidamente conservados num local onde os investigadores poderão estudá-los”, e adianta a sua convicção de que “o Estado fez um bom negócio”, lembrando, a título de exemplo, que “qualquer carta de Torga, por exemplo, vale sempre umas centenas de euros”.

Também Adelino Correia Pires, da D’Outro Tempo, em Torres Novas, que tem larga experiência em venda de manuscritos e cartas de escritores, acha o preço “perfeitamente razoável”, mas acrescenta que “é sempre muito subjectivo dizer o que vale o arquivo de uma pessoa que é talvez a mais importante figura viva da cultura portuguesa”. Acredita, sim, que os papéis de Lourenço “ficam nas mãos certas”, e lembra, a título de comparação, que a BN, em 2009, “deu 12 mil euros por meia dúzia de coisas de Luís Pacheco”.

Outra aquisição recente foi a compra, em 2008, de alguns materiais pessoanos que ainda estavam na posse da família do poeta, incluindo o dossier relativo a Aleister Crowley”. O Estado desembolsou cerca de 150 mil euros e os documentos “cabiam todos numa caixinha”, diz Inês Cordeiro, não para censurar a compra, mas justamente para mostrar que nem tudo pode ser “avaliado a metro”.

Um amigo de Eduardo Lourenço que pediu para não ser identificado contou ao PÚBLICO que a possibilidade de este arquivo ir para a BN começou a ser discutida já no tempo do ex-director Jorge Couto, que "a intenção original do professor era fazer uma doação" e que "um grupo de amigos" teve grande dificuldade em o dissuadir, fazendo-lhe ver que devia "pensar nos seus netos e bisnetos".

Dada a centralidade de Fernando Pessoa na indagação lourenciana, não deixa de haver uma certa justiça poética em que os arquivos de ambos estejam hoje reunidos no mesmo espaço. Carlos Mendes de Sousa, que está a preparar o próximo volume das obras completas de Lourenço – a reedição de Tempo e Poesia (1974) acrescida de um vasto conjunto de textos dispersos e inéditos –, acredita que, numa obra que abarca uma multiplicidade de temas e autores, Pessoa “é talvez o mais forte fio condutor”.

E o ensaísta fez uma descoberta curiosa nas suas consultas ao arquivo: a revelação de que Eduardo Lourenço, já no final dos anos 40, tinha o hábito deveras pessoano de projectar livros futuros, inventando-lhes capas e títulos programáticos, como “Alberto Caeiro ou a Metafísica de Fernando Pessoa”, “Álvaro de Campos ou a Compensação Imaginária de Fernando Pessoa”, “Ricardo Reis ou a Vontade Poética de Fernando Pessoa”, ou ainda “Fernando Pessoa ou o Heterónimo Essencial”.

Mas se não chegou a escrever e publicar estes livros, Lourenço nunca foi um autor a produzir para a arca, como Fernando Pessoa. Em certo sentido, e apesar de o seu arquivo incluir certamente bastantes inéditos e distintas versões manuscritas de textos editados, pode mesmo dizer-se que é um exemplo de escritor sem arca, que publicou, além dos seus muitos livros, uma selva de dispersos que não é hoje nada fácil de rastrear. Para quem agora tem a missão de, com a sua ajuda, organizar toda esta documentação, e escolher o que editar ou reeditar, e em que moldes, o problema será mais o de decidir como formatar este esplendoroso caos sem o trair.