Crítica

Esta é a minha cabeça

Ana Jotta expõe-se em A Conclusão da Precedente

Na rua ou em feiras da ladra ou de velharias, locais onde terminam a sua vida útil recheios de casa e salvados de falências várias, Ana Jotta procura o significado possível naquilo que já ninguém quer
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Na rua ou em feiras da ladra ou de velharias, locais onde terminam a sua vida útil recheios de casa e salvados de falências várias, Ana Jotta procura o significado possível naquilo que já ninguém quer Nuno Ferreira Santos

Este é um livro sem texto, exceptuando as características técnicas, publicadas na última página. Poderia ser o catálogo da exposição que Ana Jotta realizou na Culturgest em 2014, intitulada A conclusão da precedente. E pode e deve ser mais do que isso: uma peça autónoma, significante, um convite a entrar na intimidade e no processo de criação da artista.

A conclusão da precedente referia-se em primeiro lugar a uma outra exposição de 2005, feita em Serralves, comissariada por João Fernandes que então dirigia esse museu.Rua Ana Jotta apresentava-se então como uma retrospectiva da obra desta artista, que trabalha exaustivamente questões ligadas à autoria e ao estilo. “Tudo o que faço e não faço outros fizeram assim”, diz-nos, em conversa, retomando uma frase de Amália Rodrigues, que também é reproduzida no livro. E é verdade que ainda hoje, olhando com cuidado o catálogo que então se publicou, notamos como a apropriação é o princípio operativo fulcral na obra de Jotta. Apropriação, mas não só: o deslocamento e a condensação, ou a metáfora e a metonímia, processos que se encontram na própria construção da linguagem (ou no sonho, mas isso daria uma outra conversa), são amplamente utilizados na concepção do seu trabalho.

Resta ao espectador interrogar-se sobre a origem das formas e imagens que a artista desenvolve de série para série, de exposição para exposição. A resposta estava em A Conclusão da precedente: uma multiplicidade de materiais, objectos, impressos, rabiscos, post-its e tudo o mais que se possa imaginar que enchiam um extenso corredor nas salas da Culturgest. “São as minhas notas de rodapé”, acrescenta, “nomes, post-its, papelinhos e papeletas, uma espécie de google, de motor de busca”. Este era o “núcleo duro” da exposição. E, em vez de realizar um catálogo à maneira clássica, com texto e reprodução das obras que então se tinham exposto, “pensei com o Miguel [Wandschneider] em como fazer uma coisa nova me excitaria mais um bocadinho. E por isso este livro é uma espécie da conclusão da Conclusão da Precedente.

De facto, este livro é uma peça nova. Folheando-o, notamos um denominador comum entre todos os materiais apresentados: a sua banalidade. Etiquetas de embalagens, desenhos técnicos, convites, impressos, formulários, post-its escritos pela mão da artista – e, como se sabe, um post-it é por natureza efémero, destinado ao lixo a partir do momento em que a tarefa nele inscrita está realizada –, fotos encontradas, pedaços de jornal rasgados, borrões e manchas de origem obscura, textos teóricos, críticas disto e daquilo, pensamentos, poemas, cartões e cartas de boas-festas entre muitos outros objectos aqui paginados. Há qualquer coisa de scrapbook – literalmente, livro de restos, de fragmentos – que a ausência de referentes diarísticos exclui. Há também qualquer coisa do diário, se não soubéssemos de antemão que todos estes objectos e restos fizeram há um ano parte de uma exposição. Mas, como acontece quando alguém lê o diário de outrém, também aqui existe a sensação de uma devassa do mundo privado. Ana Jotta confirma, com algum humor: “Esta é a minha cabeça, este é o meu corpo. É estar com o rabo à mostra.”

Há nove anos, Gaëtan Lampo assinava o texto do catálogo e comparava a actividade de Ana Jotta à de uma respigadora, invocando o título de um belíssimo filme de Agnès Varda de 2000. É que todos estes objectos foram descartados por alguém e recuperados pela artista. Na rua ou em feiras da ladra ou de velharias, locais onde terminam a sua vida útil recheios de casa e salvados de falências várias, Ana Jotta procura incessantemente o significado possível naquilo que já ninguém quer. “Tudo o que faço e o que não faço vem daqui”, acrescenta, no que se diferencia da atitude contemporânea de considerar o museu como repositório único de material de matéria-prima da pintura ou da escultura, por exemplo, ou do ready-made de raiz duchampiana, onde o objecto é sujeito a uma intervenção mínima da parte do artista. Na sua obra, pelo contrário, tudo é transformado, esvaziado do seu sentido inicial e recontextualizado. São as suas “artes finais” termina, “saem todas do lixinho.”