Miguel Carmo
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Miguel Carmo

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A competitividade no râguebi português

Como poderão progredir clubes com apenas um campo para 300 ou mais praticantes e com treinadores pouco qualificados?

Muito se tem falado nos últimos tempos sobre a competitividade do râguebi português no contexto internacional e a sua relação com os modelos competitivos nacionais. Nos últimos vinte anos variados foram os modelos que vigoraram nas competições seniores em Portugal. Não foram, no entanto, os diversos modelos que contribuíram para uma melhor performance internacional.

Os resultados internacionais mais positivos de Portugal, que se registaram a partir de 1999/2000, foram motivados por melhorias significativas na preparação das equipas nacionais que passaram a ter a sua base no Estádio Nacional, embora ainda em condições claramente insuficientes, mas bem melhores que as anteriores, quando não havia base fixa. E ainda num conjunto de jogadores de excelente qualidade com uma nova atitude competitiva e pelo incremento do recurso a luso-descendentes que se havia iniciado na década de 90. E essa melhoria teve o seu auge nos anos 2004 a 2007. A partir daí foi apenas mantido o nosso nível com maiores ou menores variações.

Em artigo escrito em Abril 2012, referindo-me ao que achava necessário para reforçar o desenvolvimento do râguebi em Portugal, dizia:

“- Continuar a apostar na formação de jovens nos escalões Sub-16 e Sub-18, fundamentais para assegurar o futuro. Temos vindo a melhorar a qualidade nestes escalões e há que continuar a apostar neles. Os clubes deverão dotar estes escalões de técnicos competentes que não só preparem os jogadores mas que também os motivem para atingir plataformas mais altas.

- Investir nas selecções nacionais Sub-17, Sub-18 e Sub-19 proporcionando-lhes a maior experiência internacional possível. Só assim poderemos manter e melhorar a competitividade a nível internacional sénior em XV e Sevens.

- Manter o esquema competitivo nos seniores nas duas divisões principais trabalhando para dotar os clubes menos competitivos com estruturas que lhes permitam diminuir esses fossos. Não me parece boa solução, a médio prazo, a diminuição do número de clubes na divisão principal pois isso iria contribuir para um afunilamento dos melhores jogadores num nº limitado de clubes o que se me afigura negativo.

- Promover a participação de equipas B dos clubes principais nas divisões inferiores como meio de manter em actividade um maior número de jogadores desses clubes. Verifica-se que muitos jogadores que transitam para escalões seniores abandonam a prática pois não têm acesso imediato à equipa principal desse clube. Como alternativa, incentivar esses jogadores a passarem para outro clube onde possam ter acesso a uma prática continuada.”

Continuo a pensar que são estes os pontos fundamentais, acrescidos de um outro, a necessidade urgente de conquistar novos espaços para a prática do râguebi. Sem educadores e treinadores capazes tecnicamente e motivadores para os praticantes, sem espaços para a prática não teremos progresso quaisquer que sejam os modelos das competições nacionais. Poderemos fazer alguns ajustamentos mas que em nada alterarão a situação actual.

E como poderão progredir clubes com apenas um campo para 300 ou mais praticantes e com treinadores pouco qualificados?

Os técnicos ao serviço da FPR, que já não são bem poucos, devem ter aqui uma área fundamental de actuação, promovendo o apoio continuado aos treinadores dos clubes Se compararmos as condições e as disponibilidades em Portugal com as existentes nos países com quem concorremos elas são-nos claramente desfavoráveis.

Por isso concentremo-nos no essencial. Formação dos agentes do râguebi, treinadores, árbitros e dirigentes, conquista de novos espaços. Melhoria da orgânica de FPR e dos clubes. Melhor e mais rigor na organização dos jogos.

Para melhorar a competitividade do nosso râguebi, além do que atrás de menciona, teremos que ultrapassar velhos atavismos individualistas, constituindo equipas supra clubistas que possam competir para além das nossas fronteiras. Os exemplos da Irlanda, com quatro equipas regionalizadas e da Nova Zelândia, com os seus quatro níveis (clubes, campeonato por regiões, Super Rugby e All Blacks) podem representar um bom exemplo para um modelo que nos possa inspirar. Bem sei que isto será bem difícil de conseguir mas parece-me um dos caminhos que podem contribuir para melhorar a competitividade e uma para uma maior exposição mediática.

Se mantivermos as nossas competições internas, com uma ou outra variante, apenas poderemos aspirar a uma manutenção no nível em que nos encontramos: o Torneio Europeu das Nações e considerar que a presença numa fase final de um Campeonato do Mundo foi um acontecimento efémero na história do râguebi português.