Opinião

Eu gosto da TAP

Como é que podemos continuar a ter uma companhia aérea que continue a ser uma bandeira do país e que seja sustentável no curto, médio e longo prazo?

Eu gosto da TAP! Gosto da TAP como português!!! Gosto da TAP, orgulhoso de poder dizer que em Portugal existe uma companhia aérea que é uma das melhores do mundo (para mim, claro!), segura, onde, quando viajo, "me sinto em casa". Gosto da TAP!

Esta é a minha declaração de interesses inicial, que certamente poderia ser a declaração de interesses de muitos portugueses, mas, e porque gosto da TAP, é que tenho assistido com uma certa tristeza e preocupação ao que se tem passado relativamente ao seu processo de privatização.

Tal como o Professor Vital Moreira disse, e bem, no passado mês de Outubro, "Sob o ponto de vista do controlo empresarial, a TAP constitui desde há muito uma espécie de condomínio entre o Estado e os sindicatos da empresa, que exercem um eficaz poder de veto na gestão da empresa".

É efetivamente inaceitável que um conjunto de dirigentes sindicais, através da sua acérrima posição contrária à privatização da empresa, e fazendo reféns os interesses de Portugal e dos portugueses, teimem em manter a todo o custo, e sob a capa de uma qualquer ideologia, os seus anacrónicos privilégios e, no limite, hipotecando os interesses da empresa e dos seus trabalhadores.

Só quem desconhece a estrutura da TAP é que se pode opor à sua privatização, como única opção para a sua sobrevivência. Sabemos que hoje, e felizmente, é contra as regras comunitárias os Estados subsidiarem ou capitalizarem empresas de transporte aéreo. Não é por acaso que, das companhias aéreas "de bandeira" na chamada Europa ocidental, só a TAP é que é detida 100% por capitais públicos, todas as outras não, a saber:

– Maioria de capital público: Finlândia (56%)

Minoria de capital público: Dinamarca* (14%), Espanha (5%), França (20%), Holanda (6%), Irlanda (25%), Itália (19%), Luxemburgo (49%), Noruega* (14%), Suécia* (21%)

Totalmente privadas: Alemanha, Áustria, Bélgica, Reino Unido, Suíça.

* A SAS é a companhia "de bandeira" nos três países escandinavos, tendo os respectivos três governos 50% do capital entre eles.

Hoje, a TAP tem uma frota de 77 aeronaves, sendo 61 da TAP propriamente dita e 16 da Portugália. É, assim, do ponto vista operacional, uma pequena companhia.

A Ibéria, por exemplo, possui uma frota de 139 aeronaves, ou ainda a alemã Lufthansa, ou a companhia aérea de baixo custo Ryanair, que possuem, cada uma, uma frota de cerca 300 aeronaves. Acresce que a idade média da frota da TAP é de cerca de 12 anos, para além da idade média dos seus A340 (aviões de longo curso) ser de cerca 18 anos... É uma diferença enorme, em termos de dimensão, com as consequências óbvias e naturais, ao nível das suas economias de escala, e sobre a sua capacidade concorrencial comercial.

O que não é natural, e é manifestamente desajustado numa empresa aérea moderna do século XXI, é a TAP ter cerca de 4.500 trabalhadores e 12 sindicatos representativos dos mesmos. Ou seja, existem precisamente cerca de 58,5 trabalhadores por avião, e cerca de um sindicato por cada 6,4 aeronaves. E isto explica também, e muito, a (in)eficiência económica da empresa, e a sua incapacidade de se autocapitalizar. Para além disso, os seus trabalhadores usufruem salários muito superiores à média nacional e possuem múltiplas regalias acessórias, que constituem verdadeiras remunerações indiretas, e que, por certo, serão caso único do tecido empresarial português, tais como viagens aéreas gratuitas, acordos com hotéis de 5 estrelas que proporcionam descontos de 50%, um sistema de saúde próprio e gratuito, etc., etc. E tudo isso acrescenta-se um passivo de mais de 1.000 milhões de euros...

E, por isso, na minha opinião, ser a favor ou contra a privatização, não é a questão correta. A questão correta é: como é que podemos continuar a ter uma companhia aérea que continue a ser uma bandeira do país, e que seja sustentável no curto, médio e longo prazo?

A pior decisão que o Governo poderia tomar era uma não decisão, ou seja, era fazer de conta que não existe nenhum problema com a TAP, era fazer de conta e deixá-la morrer de forma lenta e agoniante, para tristeza de todos aqueles que, como eu, gostam da TAP.

O Governo não pode deixar morrer a TAP: a TAP dos privilégios anacrónicos, essa, sim, acabará obrigatoriamente, mas a TAP de todos os portugueses, a TAP de que eu gosto, essa não pode morrer e é imperativo que se assegure o seu futuro.

As questões certas a colocar em torno de todo este processo deverão ser:

Conseguirá o Governo privatizar a TAP?

Conseguirá o Governo privatizar uma companhia com ativos envelhecidos, altamente endividada e com trabalhadores mal habituados, e que permanentemente põem em causa o futuro da empresa, com as suas múltiplas e constantes exigências?

Conseguirá o Governo encontrar um parceiro credível para a TAP, no sentido de continuar a ser uma companhia de excelência, a servir os interesses de Portugal, e não uma companhia aérea mais, de segunda classe, de que se desconfia e que só se utiliza por obrigação, e não por opção?

Esperemos que sim... e esperemos que sim para bem não só da economia nacional, para bem de todos os setores de atividade a montante e a jusante do setor do transporte aéreo, e para bem de todos aqueles que, como eu, esperam continuar a voar na TAP e continuar a "sentir-se em casa" dentro de um espaço exíguo... a 10.000 metros de altitude. Eu gosto da TAP!

Presidente da Distrital do PSD do Porto