Reportagem

O padre Estêvão deixou o passaporte português caducar em Angola

Nas ruínas de uma povoação colonial abandonada vive um missionário português que chegou a Angola no início de uma guerra e ficou durante a que se lhe seguiu. Numa delas foi raptado. A sua libertação ficou registada em jeito de western: “Ao raiar da aurora o padre Estêvão, envergando a batina e a estola habitual, escapou ao tiroteio e foi resgatado”.

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Vitorino Simões nasceu a 2 de Fevereiro de 1934. Chegou a Angola em 1962, vindo do mosteiro de Singeverga, em Santo Tirso Manuel Roberto
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No Moxico Velho, onde vive num palacete sem luz, é o “padre Estêvão” Manuel Roberto

“Aqui não caiu nenhuma bomba”. O padre Estêvão refere-se ao local preciso em que os seus pés calçados com meias beje e sandálias abertas de tiras estão assentes no chão. De resto, vai rememorando e apontando os locais das quedas dos variados objectos explosivos que designa genericamente como “bombas”, com sotaque ainda minhoto: “Aí caiu uma, outra ali, caiu uma ali à frente, outra ali, outra na ponte, outras acolá”. E já lhe faltam direcções para onde apontar, o mundo à sua volta foi bombardeado. As paredes do palacete colonial em ruínas onde vive sozinho guardam em si marcas de muitas guerras. Como o padre Estêvão. Não há quem não o conheça em Luena, que ainda se chamava Luso quando para ali foi (Leste de Angola), é uma personagem famosa na região. É o português que por ali ficou, sempre. E que agora é deles.

Estêvão é o nome religioso que escolheu para si quando se tornou beneditino, explica que quer dizer “coroado”. São poucos os que ali saberão que o seu nome de baptismo é Vitorino, que, por sua vez, quer dizer “o pequeno vencedor”, e que o seu apelido é Simões. O padre Estêvão, como todos o conhecem, habita um sítio fantasma, que parece fora do espaço e fora do tempo. Para se chegar até ele é preciso ir num veículo todo-o-terreno, sair da cidade de Luena, e depois percorrer durante meia hora (se tudo correr bem) um caminho de terra batida cheio de crateras e pequenas elevações de terra.

O sacerdote de 81 anos está, em teoria, contactável, conta que é proprietário de nada menos do que dois telemóveis, “um é um Somsung, Simsaung, Samsung”, diz brincando com a sua inaptidão para pronunciar o nome da marca. De pouco lhe servem, o de marca sul-coreana e o outro da Movicel, no sítio onde vive não há rede. Também não há luz eléctrica. Para acender o gerador que tem encostado a um canto seria preciso repará-lo e comprar gasolina, para acender os candeeiros em casa seria preciso petróleo e, para isso, “tinha de ir buscá-los ao aeroporto”, explica-nos, parecendo dizer que tem tudo o que precisa mesmo ali.

É lusco-fusco, na casa onde vive acende uma vela que lhe ilumina parte do rosto e deixa entrever o tecto desmoronado de um dos salões de ar senhorial. Noutra divisão há uma enorme mesa de madeira corrida que um dia terá acolhido convidados importantes - é onde come sozinho e onde tem o fogão. No escritório tem uma secretária, uma máquina de costura e estantes de livros cujos títulos não se conseguem ler apenas com a luz da vela que transporta na mão.

 É o único habitante deste casario que guarda a história dos primórdios da presença colonial portuguesa nesta região remota do interior de Angola, foi ali a primeira capital da província do Moxico. As primeiras expedições à região remontam ao final do século XIX, a edificação desta primeira povoação foi levada a cabo pelo chefe da primeira expedição, o tenente-coronel Trigo Teixeira, em 1895.

O sitio onde vive o missionário foi a residência do primeiro governador português na região, D. António de Almeida, na década de 1920, que depressa se desencantou do local, conta o sacerdote. Deixou para trás a povoação e cedeu-a aos missionários. “Fugiu, foi atrás do comboio.” Foi criada uma nova capital da província ali a uns 20 quilómetros, onde ficou até hoje e se chama Luena como o nome do rio que a banha. Os portugueses baptizaram mais tarde a cidade de Luso. Ao sítio remoto onde o padre Estevão habita, e onde os poucos paroquianos habitam em cubatas tradicionais ali em volta, chamam-lhe hoje Moxico velho.

O palacete resistiu como pôde ao sabor das guerras, primeiro a colonial ou do Ultramar, como lhe prefiram chamar, depois a guerra civil angolana. “Há marcas de estilhaços na parede.” As lembranças dos conflitos parecem amalgamados na memória do padre, que vive em Angola há 53 anos, e quando nos começa a contar como, “durante a guerra”, foi raptado pelo MPLA, dos seus 25 dias de cativeiro já não sabe precisar em que ano aconteceram, nem se percebe em qual das guerras. Sabe que andou no mato entre um dia 25 de Outubro e um 18 de Novembro.

Um livro sobre as “conquistas” dos comandos portugueses (Siroco-Os comandos portugueses no Leste de Angola), da autoria do tenente coronel António Pires Nunes, ajuda-nos a preencher os lapsos de memória do sacerdote. Foi raptado em 1968, em plena guerra colonial. Neste livro editado pela Associação de Comandos (2014), o episódio é tratado como um revés na chamada operação Desbaste: “Na véspera do seu lançamento chegou ao comando da Zona Militar do Leste a notícia de que o Padre Estêvão da diocese do Luso acabava de ser raptado pelo MPLA quando teria ido à sanzala do Lumege dar a extrema-unção a um moribundo. Sucederam-se pressões eclesiásticas movidas pelo bispo do Luso para que se movimentassem as forças armas para libertar o padre.”

Escreve-se que o MPLA terá tido receio de que, nas idas do religioso à tal povoação, ele trouxesse de volta conhecimentos do terreno às autoridades portuguesas. O padre Estêvão diz que foi preso porque eles o ouviram usar o termo “turras”.

Em jeito de balanço escreve-se que a operação Desbaste foi um sucesso: “causou ao MPLA 47 mortos, 3 feridos e 74 capturados. Foi destruída uma apreciável quantidade de acampamentos” e “o padre Estêvão foi recuperado” depois de um ataque das forças armadas ao acampamento onde estava aprisionado. No livro, a história termina quase em estilo de western: “Ao raiar da aurora o padre Estêvão, envergando a batina e a estola habitual, escapou ao tiroteio e foi resgatado.”

O relato de padre Estêvão é bastante menos dramático. Passados 47 anos realça-lhe os elementos cómicos, graceja, Bíblia a todo o tempo debaixo do braço, quando diz que a sua memória lhe “cristianizou” o rapto, tornando-o talvez mais suave do que foi: “Eles, coitadinhos, não me fizeram mal. Cama não tinha, fome não passei, tinha sempre duas moças que me faziam comida”, nunca mais se esqueceu dos seus nomes de guerra, entre os guerrilheiros não havia nomes civis, “eram a Azarada e a Decidida. Tinham sempre um mata-bicho para mim. Elas até me lavavam os pés. Só que de andar descalço fiquei com os pés inchados”. Quando aquilo acabou teve de ficar três dias no hospital com os pés alçados, para desincharem do tamanho anormal que foram adquirindo nessa sua marcha forçada de 25 dias, conta bem-disposto. Também não fala mal dos “da outra parte": "Os da Unita eram umas jóias, a certa altura até acharam que eu era da Unita”.

É Raimundo da Silva, notário em Luena e cantor popular Rai Lex nas horas vagas, “mérito cultural” reconhecido pelo MPLA com a oferta da viatura Hyace 4x4 que nos conduz até ao padre Estêvão, quem nos quer muito vir mostrar o sacerdote e o local onde ele mora. É como se as ruínas desse tempo colonial português e o próprio sacerdote fossem monumentos “a não perder” para visitantes vindos de Portugal. Raimundo da Silva, 54 anos, foi aluno na missão católica do Moxico Velho. Como criança, lembra-se de ter de içar a bandeira portuguesa, de levar palmatórias quando não sabia a tabuada ou coisas da história de Portugal, ali ouviu falar dos mosteiros da Batalha e dos Jerónimos, num tal Afonso Henriques, numa tal rainha Dona Filipa de Lencastre, de um tal Egas Moniz, na Serra da Estrela. Na altura, nada se aprendia sobre a história de Angola. Foi também ali que teve de aprender que havia quatro estações, Primavera, Verão, Outono, Inverno, embora ele e os outros meninos angolanos só vivessem duas, “o tempo chuvoso e o tempo do cacimbo”. Um dia gostava de ir a Portugal, na Primavera, ouviu falar bem dessa estação.

Acabou “o tempo colonial”. Mas o padre Estêvão ficou. É quase como um troféu, como se ele agora fosse angolano. Raimundo da Silva diz que o padre é demasiado modesto, que pouco falou do que por ali passou, “de ter sido o escudo das populações” durante a guerra civil que durou até 2002, que a batina, mesmo em guerra, ainda valia alguma coisa. Chegou a dizer “se querem matar alguém, têm de me matar a mim primeiro”. Não por acaso o edifício mais bem cuidado deste povoado é a igreja, estilo Estado Novo, impecavelmente pintada.

Raimundo da Silva termina a visita turística ao padre oferecendo-se carinhosamente para lhe deixar ao menos mudar as lâmpadas, ligar o gerador, e o padre vai dizendo que não é preciso, brinca com Raimundo e o seu nome, “Raimundo, pensa que é o rei do mundo”.

Vitorino Simões nasceu a 2 de Fevereiro de 1934, no lugar de Anha, Viana do Castelo, foi ordenado padre em 1959, seguindo a vocação e o exemplo dos “primos padres”. Diz que foi mandado de bom grado para Angola em 1962 vindo do mosteiro de Singeverga, no concelho de Santo Tirso, onde chegou a responsável dos noviços, um cargo que deixou para vir para cá. O abade Dom Gabriel de Sousa fez-lhe a pergunta muito a medo, ficou surpreendido quando ele aceitou a missão. “Ninguém queria vir meter-se 'no meio dos pretos', que eram assim que se dizia na altura”.

Viajou no navio Vera Cruz, veio com os militares portugueses que vinham para a guerra. “Era como uma família dentro do barco, gostei muito das viagens”. Aquele sítio é a sua casa. Quando foi raptado, a família ainda alimentou a ilusão de que ia voltar para Portugal, que talvez o susto o convencesse. Estavam enganados. Há pouco tempo soube que o irmão gémeo lhe morreu em Portugal, a notícia chegou-lhe um ano depois. Tem algures ali guardado naquele palacete colonial em ruínas o seu passaporte português, mas deixou-o caducar.