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Sim, eles — ditos deficientes — fodem. E querem falar sobre isso

Primeira conferência do Sim, Nós Fodemos, movimento que se bate por desmistificar a sexualidade dos deficientes, realiza-se simbolicamente a 14 de Fevereiro, no Maus Hábitos, no Porto

Sim, eles — as pessoas com diversidade funcional, vulgo deficientes — fodem. Ou, para "os ouvidos e mentes mais sensíveis", eles amam, namoram, desejam, fazem amor, excitam-se e, por isso, "têm direito a uma sexualidade digna e adequada". Palavras do Sim, Nós Fodemos, movimento que tem como objectivo abordar e desmistificar a sexualidade dos deficientes, e que a 14 de Fevereiro nos quer pôr a falar, lá está, de Sexualidade e Deficiência.

A data não é inocente. "Queríamos fazer uma coisa diferente para o Dia dos Namorados", explica Rui Machado, um dos organizadores. "E algo que desse visibilidade ao tema." Isto porque, mesmo quando se realizam conferências sobre deficiência, raramente "é abordada a questão da sexualidade". Aproveitando a "boa receptividade" que o movimento sempre teve junto da comunidade académica, decidiram que era então tempo de dar à letra.

A jornada arranca às 10h e prolonga-se até meio da tarde (ainda dá tempo para os jantares românticos com direito a peluches pirosos). Em cima da mesa, conta Rui, estão os mais variados temas: a psicóloga Ana Garrett aborda a reabilitação da sexualidade em pessoas com alterações sensitivas ("Será uma intervenção virada para soluções e alternativas"), enquanto que as investigadoras Lia Raquel Neves e Ana Lúcia Santos, do projecto Intimidade e Deficiência, reflectem sobre estereótipos discriminatórios ("Um dos nossos cavalos de corrida") e sobre a existência de diferentes orientações sexuais e identidades de género dentro da deficiência.

"Sim, Nós Fodemos", um nome "político"

O sexólogo Manuel Damas, uma figura polémica dentro do meio LGBT e também científico, mas que tem feito um "trabalho muito interessante na área da Sexualidade e Deficiência", sublinha Rui, terá a primeira intervenção ("Vamos falar claro?"). O sexólogo e psicólogo clínico Jorge Cardoso dá a perspectiva dos profissionais, "de quem recebe as queixas e anseios dos deficientes", enquanto que Manuela Ralha oferece a sua visão enquanto paraplégica. O dia termina com a intervenção "As fodas não se medem aos palcos" de David Almeida, actor com nanismo, alguém "que vai falar de sexualidade de forma muito franca". Está prometido.

Depois das intervenções haverá debates com moderação de membros do Sim, Nós Fodemos, neste caso Jorge Falcato e o próprio Rui Machado, 31 anos, doente neuromuscular e mestre em Psicologia Clínica, que vê este encontro como uma forma de "quebrar o preconceito e estereótipo" entre os "ditos normais", mas também entre as pessoas com deficiência. "Para terem consciência de que podem ter uma vida plena." "Curiosamente", em ano e pouco de activismo, as poucas críticas que receberam vieram de outros como eles. Também por causa do "Sim, Nós Fodemos", nome sem medo, "político, intencional, provocatório".

Criado em Novembro de 2013, o grupo Sim, Nós Fodemos surgiu dentro do movimento (d)Eficientes Indignados, onde a "necessidade" de abordar a questão da sexualidade ia sendo debatida. Missão: abordar o tema com naturalidade, não ter um discurso patologizante, dar voz, informar. E, encarando a sexualidade como um motor de desenvolvimento pessoal e social, discutir possíveis apoios sociais para pessoas com diversidade funcional. O nome e a imagem foram inspirados pelo documentário espanhol "Yes, We Fuck", mas depressa o grupo ganhou uma identidade própria — quanto mais não seja pelo design (a cargo de Rui), pela frontalidade, pelo humor da página de Facebook. "Vivemos numa realidade em que aquilo de que não se fala é porque não existe. Então vamos falar. De foder."

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