Grécia

O último adeus às três dinastias

É o fim de uma era. Por toda a parte se vêem fotografias de Alexis Tsipras. Os vencidos, os paladinos das três dinastias que dominaram a vida política grega durante quase 40 anos, desaparecerem da paisagem: os Papandreou, os Karamanlis, os Mitsotakis. Os vencidos são representados por Antonis Samaras, o derrotado nestas eleições. Mas Samaras não é um herdeiro “legítimo”: é um “usurpador” que arrancou a direcção da Nova Democracia (ND) aos Karamanlis e aos Mitsotakis.

As dinastias começaram com “pais” e “avós” antes do “golpe dos coronéis” de 1967. Revezaram-se no poder desde o fim da ditadura, em 1974. O clã Papandreou representava a esquerda, com o Pasok. Os Karamanlis e os Mitsotakis a direita conservadora ou liberal da ND. Os últimos a governar foram Kostas Karamanlis, entre 2004 e 2009, e Giorgios Papandreou, entre 2009 e 2011. Perante a ruína financeira, Kostas não hesitou em falsificar a contas nacionais. “A falsificação das estatísticas é uma longa tradição grega”, explicou o economista George Bitros. A Giorgios coube declarar a Grécia em estado de falência e chamar a troika.

É duplamente injusto o apagamento das dinastias. Foram tempos felizes de que os gregos têm saudade. E foram a sua irresponsabilidade e a sua corrupção que acabaram por dar uma inimaginável vitória eleitoral a uma coligação de “náufragos do comunismo”. Por isso serão lembradas.

O “herói” foi Andreas Papandreou (1919-96), que conquistou o poder em 1981. Criou um Estado-providência. Numa geração, os gregos passaram do subdesenvolvimento ao estatuto de país rico. Mas é ao seu governo que os economistas atribuem o começo da crise da dívida e da economia. Os fundos europeus serviram para aumentar o poder de compra e nada mais. Geriu as finanças de forma “irresponsável”. Mas todos eram felizes.

As dinastias não tocaram no sistema fiscal. Pela Constituição, os bilionários armadores e a Igreja Ortodoxa, o maior proprietário do país, não pagam impostos. E, por uso, as profissões liberais também não. Resumiu, em 2011, o politólogo Christos Lyrintis: “Nos últimos 35 anos, os dois maiores partidos reinventaram e reorganizaram as redes de patrocínio”, penetrando não apenas na máquina do Estado mas em largos sectores da sociedade civil. A alternância produziu um efeito perverso, já que, após cada mudança de governo, se verifica uma maciça alocação de favores à clientela do partido vencedor.”

Fazer reformas não encontra apenas a oposição dos poderosos, mas das clientelas eleitorais e sindicais. A protecção europeia teve um “efeito anestesiante”. Tudo se desmoronou em 2009.

“Vamos desmantelar a cleptocracia grega”, proclama Yanis Varoufakis, o novo ministro das Finanças. Há quem queira ver para crer.

PÚBLICO -
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Antonis Samaras, líder da Nova Democracia, o derrotado das eleições gregas Miguel Manso