Editorial

Lost in Greek

Pela amostra dos primeiros dias do novo Governo grego, ficou claro que corremos o risco de nos perdermos muito na tradução.

Foi Cícero quem primeiro aconselhou o mundo a não fazer traduções literais, “palavra por palavra”. Quando isso acontece, o resultado pode ser catastrófico. No mínimo, gera confusão. O novo ministro das Finanças grego, Yanis Varoufakis, mal começou as suas funções – e mal começou a falar – e já gerou controvérsia universal.

O que disse exactamente quando caracterizou a troika em grego?

Alguns tradutores traduziram como “uma instituição assente em instituições podres”, outros como “instituição antieuropeia”. E o ministro disse ou não que o novo Governo de Atenas não queria negociar “com a troika”, mas apenas “com a Europa”? Sabemos que o ambiente ficou gelado e que o chefe do Eurogrupo Jeroen Dijsselbloem lhe sussurrou algo ao ouvido. Especula-se que foi “acabaste de matar a troika”, e que Varoufakis terá respondido “Uau!”. Quando Dijsselbloem se levantou, a imagem do constrangimento foi registada e foi capa do PÚBLICO no sábado: os ministros não olham um para o outro e despedem-se com um aperto de mão fugidio.

Depois deste momento, Varoufakis admitiu que talvez devesse ter usado o inglês (“para vocês não ficarem lost in translation…”). Ontem, dois dias depois da confusão, o ministro ainda estava a explicar-se. Em Paris, onde começou um périplo pelas principais capitais europeias, esclareceu que o que quis dizer é que a troika “é um grupo de tecnocratas” e que o mandato do novo Governo de Atenas “é repensar o programa de assistência financeira” e que “os tecnocratas não estão autorizados a fazê-lo”. Uma mensagem que conhecemos bem em Portugal.

O mal-entendido foi tal que, já depois da tensa conferência de imprensa, Dijsselbloem telefonou a Alexis Tsipras para lhe assegurar que as negociações com Atenas são para continuar.

Noutro episódio, foi noticiado que a Grécia vetara a novas sanções da União Europeia à Rússia, mas Varoufakis disse que o executivo grego nem se tinha pronunciado sobre o assunto. “A questão não é se nosso novo Governo concorda ou não com novas sanções. A questão é se a nossa opinião pode ser dada como garantida, mesmo sem termos dito qual é”, escreveu no seu blog. “Podem os jornalistas do mundo inteiro tentar perceber a importante distinção entre protestar por não termos sido ouvidos e protestar pelas sanções em si, ou isso é muito complicado?”

Os estrangeiros que dominam o grego descrevem a língua como emotiva, visceral e apaixonada. Os gregos gostam de dizer que têm palavras intraduzíveis. O exemplo clássico é philotimo, que vem de filos (amigo) e timi (honra) e que quer dizer algo entre fazer o bem, mesmo quando colocamos a nossa vida em risco, decência, dignidade, respeito, verdade, sinceridade, sentido de dever, coragem, amor pela família, sacrifício pessoal, generosidade, honra. “Não tens philotimo?” ou “Quanto philotomo tens?” são perguntas que se fazem no dia a dia, quer para motivar uma criança a fazer os trabalhos de casa, numa situação de guerra ou simplesmente para alguém parar de fazer barulho.

Se a palavra pública é fundamental em política, num governo novo que vem da esquerda radical com o plano de salvar a Grécia e a Europa é ainda mais decisiva. Pela amostra destes primeiros dias, já ficou claro que nos próximos anos vamos perder-nos muito na tradução.