O novo e estranho mundo da dívida a taxas negativas

Com cada vez mais países no mundo desenvolvido a sofrer com a deflação, os investidores estão a começar a ficar habituados a pagar para emprestar dinheiro aos Estados.

Onde guardar?
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Onde guardar? REUTERS/Yves Herman

E se lhe pedissem dinheiro emprestado, dizendo-lhe que, em vez de ter direito a receber juros, ainda teria de pagar por isso, qual seria a sua resposta? Muito provavelmente não, de tão absurda que pareceria a proposta. Mas na verdade, e por incrível que pareça, há cada vez mais pessoas no sistema financeiro internacional a responder sim a esta mesma pergunta, naquele que é um dos sinais mais claros de que as pressões deflacionistas estão a vencer em diversos pontos do Globo.

De acordo com dados compilados pela agência de notícias Bloomberg, existem neste momento nas mãos de investidores de todo o Mundo mais de quatro biliões de dólares (cerca de 3,5 biliões de euros) de dívida pública com taxas de juro negativas. Isto é, na prática, quem detém estes títulos de dívida está a emprestar dinheiro aos Estados que os emitem e a pagar juros pela operação.

São vários os países onde as taxas de juro de várias emissões de dívida estão actualmente em terreno negativo: para além do Japão (que já se encontra nesta situação há vários anos), a Alemanha, França, Suíça e outros países europeus de rating elevado.

Como é que se explica que os investidores emprestem dinheiro nestas condições? Porque é que não emprestam a quem esteja disposto a pagar-lhes juros ou, ainda mais simples, porque não guardam o dinheiro nos seus cofres?

São várias as explicações para este fenómeno. Em primeiro lugar, guardar o dinheiro pode não ser uma alternativa melhor do que emprestar com taxas de juro negativas. Os bancos e os grandes fundos de investimento não podem simplesmente guardar o seu dinheiro debaixo do colchão. E quando os bancos ficam com excedentes, o que têm de fazer é depositar o dinheiro no banco central.

Mas precisamente, os bancos centrais aplicam neste momento taxas de juro de depósito negativas. O Banco Central Europeu exige que os bancos lhe paguem 0,20% para depositarem nos seus cofres os seus excedentes. Tendo em conta esse valor, comprar títulos de dívida alemã a cinco anos com uma taxa de -0,06%, como aconteceu nos últimos dias, pode começar a não parecer um negócio tão negativo. Até porque se as taxas de juro continuarem a cair – e muitos analistas prevêem que sim – isso significa que o valor dos títulos sobe, pelo que quem investe neles ainda pode conseguir ganhar dinheiro.

Outra explicação está no facto de muitos gestores de fundos terem de cumprir determinadas regras na distribuição dos seus investimentos, podendo estar, por exemplo, obrigados a colocar uma parte significativa dos fundos em activos com risco praticamente inexistente, como são considerados os títulos de dívida alemã.

A última explicação, e que é que mais preocupa os economistas e responsáveis políticos em cada vez mais regiões do Globo, é que os investidores estão cada vez com menos vontade de apostar em activos com mais risco. Em vez de comprar dívida pública alemã a taxas de juro negativas, poderiam talvez apostar em dívida que continua com taxas positivas, como a portuguesa, espanhola ou italiana, por exemplo. Poderiam ainda ir mais longe e comprar activos em mercados emergentes, ou mesmo, apostar em emprestar dinheiro ao sector privado, quer nas economias desenvolvidas, quer nas emergentes.

O problema é que, apesar de a rendibilidade potencial desses investimentos ser maior, os riscos que lhe estão associados são considerados muito mais elevados.

Isso é particularmente verdade actualmente na Europa. Num cenário em que as projecções apontam para a manutenção de taxas de inflação e crescimento muito baixas, emprestar dinheiro às empresas e às famílias é visto como uma actividade arriscada. E além disso, na actual conjuntura, as próprias empresas e famílias mostram pouco interesse em pedir crédito.

Isto é o que acontece quando uma economia começa a ser afectada por pressões deflacionistas. O banco central tenta empurrar os bancos e outras entidades financeiras a emprestar mais dinheiro às empresas e às famílias para que estas consumam e invistam mais, reanimando a economia. Para isso baixam os seus juros ao máximo, colocando as taxas de depósito em terreno negativo. Esperam que a resposta dos investidores seja arriscar um pouco mais, para garantirem taxas de juro positivas. No entanto, antecipando um cenário prolongado de queda da inflação e estagnação económica e não encontrando muitos projectos prometedores no sector privado, os investidores preferem continuar a emprestar aos Estados, mesmo que a taxas muito baixas ou negativas.

Para reanimar a economia, num cenário deste tipo, podem apenas restar os Estados, que com custos tão baixos de financiamento ficam com condições mais favoráveis para investir. Na zona euro, contudo, a opção dos governos tem sido a de aproveitar os juros baixos para reduzir os défices.