Crítica

Gisela João triunfante, à beira de um desafio maior

Num Coliseu de Lisboa completamente esgotado, Gisela João celebrou o fado com entusiasmo juvenil e uma voz como poucas. O futuro é o seu maior desafio.

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Gisela João em palco, em Agosto de 2014 (imagem de arquivo) Miguel Madeira

Se mais não houvesse a dizer, o simples facto de Gisela João ter esgotado completamente os coliseus do Porto e Lisboa neste ponto da sua ainda curta carreira é certamente um feito inédito. Sobretudo quando tem sido regra as apresentações nos coliseus serem momentos de consagração para a maioria dos artistas, já com muitos anos de palco e vários discos gravados, e não um trampolim para glórias futuras.

Dir-se-á que no caso de Gisela João as coisas parecem andar ao contrário, extemporaneamente. Apenas com um disco gravado em nome próprio na sua fase “lisboeta” (um excelente disco, aliás, que deixou a razoável distância os registos “nortenhos”, o incipiente O Meu Fado e o seu trabalho como vocalista do grupo Atlantihda) e ainda a tactear caminho para o segundo, Gisela João conquistou público e crítica com merecimento, resultado de uma entrega sem limites e de uma arte que lhe vem de dentro e soa iluminada. O preço de começar pelo fim, no entanto, pode ser elevado. Porque o grau de exigência, colocado em patamar tão alto, é sempre um desafio maior do que uma subida lenta mas segura até ao zénite do reconhecimento artístico. Alcançado este, todo o cuidado é pouco para não ceder à vertigem.

Dito isto, o espectáculo que Gisela João apresentou em Lisboa a 31 de Janeiro (no Porto foi a 23) foi uma espécie de “arrumar” a casa: mostrar fados antigos, influências, momentos do percurso que a trouxe até aqui, tudo sem espartilhos cronológicos e com uma fluência vinda do interior dos próprios fados. O cenário que acolheu tal ideia foi-lhe ajustado, embora pueril: uma árvore, o mar, o nome “Gisela João” recriado em flocos de nuvens. Isto e um “diário de bordo” em oito capítulos, lido por ela em “off”, a comandar a rota do espectáculo sobre ondas imaginárias.

Talvez por isso a imponente abertura tivesse ficado a cargo do belo fado Naufrágio, que Alain Oulman compôs sobre um poema de Cecília Meireles para a voz de Amália (e que abria o seu disco Com Que Voz), seguido de celebrações de encontros: Alguém assim, com um arranque próximo da balada e efusivo no final, e depois o fabuloso Vieste do fim do mundo, de João Lóio.

A mudança de capítulo no “diário de bordo” trouxe o divertido O senhor extraterrestre, um dos raros temas de Carlos Paião que fizeram história na voz Amália e que Gisela reabilitou com alegria e classe. Para, em seguida, “experimentar” Camané (Não sei, fado versículo com letra de Manuela de Freitas) e voltar a Amália (Meu amigo está longe, de José Carlos Ary dos Santos e Alain Oulman, que Gisela gravou e a que voltou a dar excelente forma agora no coliseu).

Labirinto ou não foi nada, de David Mourão-Ferreira, e Pomba branca, de Max, soaram na voz de Gisela em versões de grande nível, a segunda surpreendentemente transformada numa trova épica. Depois, uma estreia: Capicua escreveu uma letra em torno do S. João do Porto para o fado Triplicado e Gisela cantou-a como só ela sabe (aqui está uma colaboração que ainda há-de dar muitos e bons frutos). E, prova de que a fadista consegue transitar entre registos diferentes com o mesmo grau de entrega e dignidade, homenageou João Ferreira-Rosa (presente na sala) com uma interpretação sentida e envolvente de um dos grandes fados da sua longa carreira: Arraial.

Depois o palco foi deixado aos músicos: Ricardo Parreira (guitarra portuguesa), Nelson Aleixo (viola de fado) e Francisco Gaspar (viola baixo) tocaram Canto de rua, rebaptizado por Gisela, ao anunciá-lo, como “Instrumental introspectivo”. A boa marca de Carlos Paredes num instrumental que percorre, em pouco mais de três minutos, diversos estados de alma e de forma encantatória.

De volta ao palco, Gisela homenageou Beatriz da Conceição, cantando Meu corpo com emoção mas saltitando no final, o que pareceu um mote involuntário para o popular Pezinho, gravado por Amália nos anos 1970. Naquela noite em Janeiro (Francisco Ribeirinho/Fado Acácio) e Canção grata (fado criado a partir de um poema de Carlos Queirós, contemporâneo de Pessoa e Almada) trouxeram-lhe uma tempestade de aplausos. Novo virar de página, desta vez para (A casa da) Mariquinhas recriada por Capicua e para dois fados de Amália: Que Deus me perdoe, que Gisela ouvia na infância e que foi decisivo na sua formação e ligação definitiva ao género; e Fado da saudade (de José Galhardo), fado pelo qual se apaixonou, como ela explicou antes de o cantar.

Para o fim ficou a veia minhota e “malhona”: com a presença, em palco, do Grupo Etnográfico Danças e Cantares do Minho (grupo residente em Lisboa, no coliseu do Porto actuou o grupo de Barcelos), atirou-se à rapsódia Malhões e vira, que gravou no disco, e fez do popular Valentim (que Amália várias vezes cantava e gravou) um esfuziante fim-de-festa. Aplaudiram-na de pé.

O que levou, necessariamente, ao encore. Primeiro com um fabuloso Madrugada sem sono, Fado Menor do Porto com que abre o disco Gisela João, editado em 2013; depois com Antigamente, de Manuel de Almeida, o fado que fecha esse mesmo disco. Abertura e fim, num só passo calculado e inteligente. A seguir, sucedeu o que não se previa: as pessoas pensaram que era mesmo o final e começaram a abandonar a sala. O que fez Gisela João, a seco, irromper pelo palco e começar a cantar, sem microfone e a capella, Quando eu era pequenina. As saídas estancaram, muita gente voltou ao seu lugar e, depois de um desafio breve (“Estão felizes? Eu também!”) regressou a festa e o fado. O popular Bailarico saloio, num justo reaquecimento dos ânimos, seguido de Julguei endoidecer (de Tristão da Silva e Júlio Proença, num fado Esmeraldinha do repertório de Carlos Ramos). Reconquistado o público, que ao longo da noite esteve sempre do seu lado (embora sem expressar grandes manifestações de euforia), Gisela João repetiu Valentim, a puxar às palmas e à dança, com os muitos elementos do grupo Danças e Cantares do Minho de novo em palco.

Voltando ao início: se mais não houvesse a dizer, esgotar os coliseus foi já um notável feito. Mas há mais a dizer. E Gisela soube dizê-lo através da sua voz, independentemente dos vestidos, dos cenários, dos capítulos da sua encenada história. Uma voz que flui admiravelmente, de forma apaixonada, que nos melhores momentos expõe uma paleta magnífica alicerçada nuns graves claríssimos, expressivos, maduros, que dignificam cada palavra, mesmo as mais improváveis.

Esse é o maior trunfo de Gisela João, não o facto de a verem como eterna menina que cresce em milissegundos quando canta. A que diz ao público “boa noite, meus amores”, a que chama aos músicos “os meus muchachos”, a que brinca com o sotaque do norte ao elogiar a arte fadista de um “senhor” (um “sinhuôr”, pois então), a que canta de ténis, descalça ou de joelhos e mesmo assim consegue agarrar as audiências com o íman da sua poderosa e expressiva arte vocal.

Portugal, que até já teve no fado um “miúdo da Bica” (o saudoso Fernando Farinha, que manteve essa alcunha até morrer) pode ter agora uma “miúda de Barcelos”. Mas até mesmo Gisela João sabe que o seu maior desafio, daqui em diante, é virar mais uma página do seu “diário de bordo” e mostrar que a “miúda” sabe crescer à altura da voz que tem. E que é o seu bem mais precioso.
 

P.S.: Pomba branca, como observou um leitor e muito bem, é um poema de Vasco de Lima Couto (1923-1980). A música é que é de Max, que celebrizou o tema (cantado, depois, por outros intérpretes dentro e fora do fado). N.P.