Passos Coelho diz que o pior já passou, quem está no terreno não deu por isso

Reacções aos dados do INE sobre o aumento do risco de pobreza em Portugal.

Os últimos dados do INE apontam para 18,7% da população com rendimentos abaixo da linha de pobreza, o maior valor desde 2005
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Em 2013 cerca de 20% da população portuguesa estava em risco de pobreza Nuno Ferreira Santos

Estiveram juntos em Fátima, mas o encontro não aproximou leituras sobre a realidade da pobreza em Portugal. Durante um almoço com os dirigentes da Confederação Nacional das Instituições de Solidariedade Social (CNIS), que esteve reunida neste sábado para eleger o seu presidente, o primeiro-ministro Passos Coelho anunciou que os dados do Instituto Nacional de Estatística (INE) sobre o risco de pobreza, revelados na sexta-feira, são um “eco” do que o país passou, mas não retratam a situação actual. As reacções não tardaram.

“A notícia que veio ontem [sexta-feira] divulgada pelo Instituto Nacional de Estatística é um eco daquilo por que passámos, não é a situação que vivemos hoje, reporta aquilo que foi a circunstância que vivemos, nomeadamente em 2013, que foi, talvez, o ano mais difícil em que o reflexo de medidas muito duras tomadas ao longo do ano de 2012 acabaram por ter consequências”, comentou Passos Coelho sobre os dados que dão conta que, em 2013, o risco de pobreza continuava a aumentar, atingindo quase dois milhões de portugueses.

Em declarações aos jornalistas, o padre Lino Maia, presidente e único candidato à liderança do CNIS, discordou, dando conta que ainda não sentiu que o pior já passou, embora note que há “uma esperança maior no povo português, uma maior confiança”. Para Lino Maia, a situação de risco de pobreza mantém-se, alimentada por  “dois elementos que são muito importantes. Temos uma população jovem que emigrou e uma população idosa cada vez mais numerosa”. “Esta desarmonização geracional intergeracional provoca necessidade de mais  apoio e temos menos agentes para responder”, alertou.

Mas, por outro lado, acrescentou, há uma mudança em relação ao estado de espírito da população. “Sentia-se que a situação em que estávamos no país era muito má, porque nós tínhamos sido muito maus e tínhamos usado aquilo que não é nosso, mas neste momento parece respirar-se um outro ambiente e que é possível um futuro menos mau”.

Segundo o INE, 19,5% das pessoas estavam em risco de pobreza em 2013 face aos 18,7% do ano anterior. Isto significa que Portugal voltou aos níveis de pobreza de há 10 anos. Os dados do INE mostram também que sem as pensões e apoios sociais 47,8% da população residente em Portugal estaria em risco de pobreza em 2013.

Passos Coelho reconheceu que, durante estes anos, “houve nm  risco de pobreza maior” e “sectores sociais que ficaram mais pobres”, mas considerou que o país conseguiu “passar por esse processo sem aumentar as clivagens e as assimetrias na forma como os rendimentos estão distribuídos”.

Também presente em Fátima, o presidente da Cáritas Portuguesa, Eugénio Fonseca, considerou que é “urgente” um plano estratégico de luta contra a pobreza  no país e que este “devia ser coordenado ao mais alto nível pelo gabinete do próprio primeiro-ministro”.

Eugénio Fonseca recordou que no último relatório da Cáritas Europa “já se apontava no ano passado para cerca de dois milhões e 750 mil portugueses em risco de pobreza”, mas foi crítico em relação ao INE porque os números apresentados “como sempre não são reais”. “Não é possível estar a medir-se a pobreza com quase dois anos de distância”, justificou.

Para o secretário-geral do PS, António Costa, os dados do INE  mostram que o “mexilhão” é que sofreu durante estes anos  “A tese que o Governo quis apresentar que no programa de ajustamento tinha havido justiça social - que aqueles que mais tinham, tinham suportado mais, e aqueles que menos tinham, tinham suportado menos - é uma ideia falsa”, defendeu. Pelo contrário, disse neste sábado o líder socialista,  o programa da troika  traduziu-se “num drama social não só na emigração, no desemprego, mas num aumento significativo da pobreza e das desigualdades”.

Também o secretário-geral do PCP, Jerónimo de Sousa, acusou o Governo de ser o responsável pelo aumento do riso de pobreza em Portugal. “Passos Coelho, na sua propaganda do costume, dizia-nos directamente, na Assembleia da República, que a austeridade e os cortes iriam atingir mais os ricos do que os pobres, mas este inquérito do INE mostra que mentiu”, disse na sexta-feira.