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Conta-me como foi

Galveias é exemplo de uma concepção de romance como desenvolvimento de uma história, correndo o risco de reduzir a ficção a uma imitação da forma do romance

Em Galveias, o cenário rural é mesmo o da vila onde nasceu José Luís Peixoto. O Prémio José Saramago 2001 faz neste romance uma espécie de retrato do interior alentejano nos anos 1980
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Em Galveias, o cenário rural é mesmo o da vila onde nasceu José Luís Peixoto. O Prémio José Saramago 2001 faz neste romance uma espécie de retrato do interior alentejano nos anos 1980

Desde a sua estreia literária no romance, em 2000, com Nenhum Olhar (Quetzal), que José Luís Peixoto (n. 1974) tem a ruralidade como cenário a que recorre amiúde. Em Galveias, esse cenário rural é o da vila alentejana que empresta o nome ao livro — e terra natal do autor. Toda a acção decorre durante o ano de 1984, tendo início num dia de Janeiro em que “uma coisa sem nome” caiu do céu e veio perturbar a pacatez do lugar. Abriu no chão um círculo com uma dúzia de metros de diâmetro, ao mesmo tempo que pela vila se espalhava um inusitado “cheiro cinzento a enxofre”, e no centro do buraco ficou a tal “coisa sem nome”. “Os cães calaram-se durante um instante que não dava mostras de fim. O fumo das chaminés paralisou-se ou, se continuou, seguiu uma linha imperturbável, sem sobressaltos. Até o vento, que se entretinha apenas com o barulho de alisar as coisas, pareceu conter-se. Esse silêncio foi tão absoluto que suspendeu a acção do mundo. Como se o tempo soluçasse, Galveias e o espaço partilharam a mesma imobilidade.”

Este acontecimento fantástico funciona como a espoleta de uma série de histórias que vão revelando as personagens deste romance: Catarino, que tem uma mota que baptizou Famélia (Famel e a terminação do nome da avó Amélia) e que vive perturbado com a memória do pai; Armindo Cabeça, pai de uma família numerosa onde não falta a violência doméstica (“As mãos do Cabeça eram pesadas. Os dedos eram grossos. As costas das mãos eram duras. A pele era áspera”); a brasileira Isabella, que trabalha numa boîte; Justino, que há 50 anos se zangou com o irmão e uma manhã decide matá-lo; do médico Matta Figueira, filho de um latifundiário; a professora que não é olhada com bons olhos pelos vizinhos; o padre Daniel ,que vê no álcool um salvador das suas dúvidas de fé, e várias outras. 

Numa geografia quase labiríntica, porque circunscrita a meia dúzia de ruas, ao campo da bola e ao adro da igreja — para além dos extensos campos em redor da vila, com suas courelas e herdades —, Peixoto faz uma espécie de retrato do interior alentejano nos anos da década de 1980, montando sobre uma cartografia definida um patchwork narrativo em que recorre à descrição de ambientes e actividades características (como a caça, o esfolar de uma lebre, o fazer do pão). A acção, propriamente dita, não existe, são as várias histórias que avançam quase paralelamente acompanhando o tempo para, como num mosaico, se completar no retrato nostálgico de uma certa portugalidade do interior, com os velhos e as suas histórias, as tardes de ruas vazias e a modorra dos dias.

Ao longo da obra de Peixoto tem-se assistido a um descuido com a linguagem (pelo menos comparando com a que utilizou nos dois primeiros romances), é menos poética — apesar de ainda se encontrarem frases como esta: “O grosso da claridade nasceu da cal, a notar-se por baixo das trevas” — e as palavras não são tão precisas como o eram em Nenhum Olhar (2000) e em Uma Casa na Escuridão (2002). Neste Galveias, entre vários possíveis exemplos, pode encontrar-se: “Apanhava a carreira e lá ia, bem-posto, a analisar (?) os campos até Ponte de Sor.” A história passou a ter primazia sobre tudo o resto e vai progredindo sem obstáculos, arrastando sempre outras mais secundárias, de maneira mais ou menos translúcida, até ao seu esgotamento. Galveias é um exemplo de uma concepção de romance enquanto desenvolvimento de uma ou de várias histórias, de uma vontade de mostrar tudo, as costuras e os remates das linhas. Isso fá-lo correr o risco de reduzir a ficção a uma narrativa em que o romance apenas imita a forma do romance, podendo chegar a despojá-lo de qualquer dimensão crítica ou irónica. Ao deixar para segundo plano o estilo e o trabalho com a linguagem, o romance entrega-se ao primado da história, que satisfeita consigo própria acaba por quase se esgotar nos seus enredos. Não que se esperasse aquele fechamento tão próprio do romance modernista (curiosamente partia da ideia exagerada da “impossibilidade de narrar”); no entanto, há uma linha para lá da qual a história anula a dimensão irónica da escrita e o universo de significações pode perder toda a densidade. Galveias não passou essa linha, mas arriscou muito.