Crítica

Dupla rítmica

Contrabaixista e baterista, parceiros em diversos grupos, editam discos de estreia quase em simultâneo

Foto
António Quintino DR

António Quintino e Joel Silva formam uma das mais sólidas duplas rítmicas da cena jazz nacional. Respectivamente contrabaixista e baterista, colaboram juntos em diversos grupos e formam uma base rítmica estável. Músicos jovens, acabam ambos de editar os seus discos de estreia e, curiosamente, mantendo a parceria em ambas as gravações: Silva chamou Quintino para o contrabaixo de Geyser, Quintino chamou Silva para a bateria de Prólogo

António Quintino apresenta a proposta mais directa. Além da bateria de Joel Silva, o contrabaixista juntou apenas a guitarra de André Santos e o saxofone de Gianni Gagliardi. Este é um disco de afirmação como compositor, com Quintino a assinar seis das oito faixas – as excepções são os temas Down Home de Fred Hersch e Ouro Preto de Sérgio Godinho e Mílton Nascimento. Desde logo sente-se a força do contrabaixo do líder, mas Quintino mostra também saber expressar a sua imaginação – ouça-se a agilidade melódica no solo de Down Home. Gagliardi destaca-se pelo dinamismo do seu sopro, puxando o quarteto para a frente – saxofonista nascido em Barcelona, cruzou-se com Quintino em Paris e reside actualmente em Nova Iorque. Outro destaque inevitável do disco é a guitarra de André Santos, jovem promessa que se estreou com o óptimo Ponto de Partida, fazendo-se aqui notar e bem (impecável no tema de Hersch). O disco fecha com a toada melancólica de Ouro Preto, bela despedida para um bom cartão-de-visita de um excelente músico.

Da mesma geração mas um pouco mais experiente, o baterista Joel Silva optou por uma estratégia diferente. Contratou um reforço de peso, o piano do veterano João Paulo Esteves da Silva, que funciona como eixo central do disco. Juntam-se depois os convidados: os trompetes de João Moreira e Diogo Duque e a voz de Sofia Vitória. Silva é responsável por todas as composições e surpreende pela qualidade dos temas, salientada pelo nível alto com que os músicos trabalham cada interpretação. O piano e o trompete são as estrelas, desenvolvendo os temas, fazendo a melodia evoluir, cumprindo o papel na perfeição. A bateria de Joel Silva soa irrequieta, nunca se deixa levar por soluções simples, fervilha ideias e guia sempre a música. Quintino é um parceiro ideal, complementando e dialogando, com uma presença equilibrada e inteligente. Entre os vários temas, poderemos destacar a sequência Geyser e Terra Branca, pela diversidade de ambientes e contrastes, e pela evolução de cada composição. O disco fecha com a voz sussurrada de Sofia Vitória. Um dos grandes discos jazz editados em Portugal.