Confirmado: detecção das ondas gravitacionais foi engano

Os novos resultados iam ser divulgados para a semana, mas a sua colocação acidental na Internet por elementos da equipa científica antecipou esse anúncio para esta sexta-feira.

Céu do Hemisfério Sul observado pelo telescópio Planck: a zona a tracejado já tinha observada pelos telescópios BICEP2 e Keck Array
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Céu do Hemisfério Sul observado pelo telescópio Planck: a zona a tracejado já tinha observada pelos telescópios BICEP2 e Keck Array ESA/Colaboração Planck

É oficial: a detecção das ondas gravitacionais primordiais – ondulações no espaço-tempo que teriam sido produzidas por uma breve mas brutal expansão do Universo fracções de segundo após o Big Bang, há 13.800 milhões de anos –, anunciada no ano passado, está afinal errada. A análise conjunta de dados obtidos pelo telescópio espacial europeu Planck e por dois telescópios norte-americanos na Antárctida não conseguiu agora confirmar a existência das ondas gravitacionais, anunciaram esta sexta-feira tanto a Agência Espacial Europeia (ESA) como a National Science Foundation (NSF) dos Estados Unidos.

As ondas gravitacionais tinham sido previstas pela Teoria da Relatividade Geral de Einstein, em 1915, mas a sua existência carecia de confirmação. Por isso, o anúncio da sua primeira detecção directa, em Março de 2014, suscitou grande entusiasmo: confirmava, por um lado, a última previsão pendente da Teoria da Relatividade Geral e, por outro, a ocorrência da inflação brutal nos primeiros instantes do Universo.

Mas cedo começaram a correr dúvidas sobre a detecção das ondas gravitacionais primordiais feita pela equipa liderada por John Kovac, do Centro de Astrofísica Harvard-Smithsonian (EUA), que tinha usado o radiotelescópio BICEP2, instalado na Antárctida. Com esse telescópio, a equipa observou a luz emitida pelo Big Bang, a chamada “radiação cósmica de fundo”, que banha todo o Universo hoje na forma de microondas. Ora, as ondas gravitacionais, as pequenas perturbações no espaço-tempo, teriam deixado elas próprias uma determinada “assinatura” na radiação cósmica de fundo. E foi essa assinatura que a equipa de John Kovac anunciou ter detectado, mas que, pouco depois, foi sendo posta em causa pela comunidade científica, incluindo a própria equipa. Começou a dizer-se que essa assinatura foi produzida por poeiras da nossa própria galáxia, cujo o efeito não tinha sido retirado dos dados.

Para verificar se realmente se detectaram as ondas gravitacionais, a equipa do BICEP2, que também usou dados do telescópio Keck Array, juntou-se à do telescópio Planck, lançado pela ESA em 2009 e com contributos da agência espacial norte-americana NASA nos instrumentos científicos, e analisaram observações da radiação cósmica de fundo à procura do sinal produzido nela pelas ondas gravitacionais.

As equipas iam divulgar para a semana os resultados, que também tinham sido submetidos para publicação na revista Physical Review Letters, mas deu-se o caso de elementos franceses da equipa do Planck os terem colocado acidentalmente online quinta-feira à noite. De manhã, tinham sido já retirados, mas já estavam a ser muito debatidos na comunidade científica. O que obrigou a ESA e a NSF a emitirem os comunicados esta sexta-feira anunciando o enterro oficial da detecção das ondas gravitacionais, declarando que uma nova análise conjunta das observações dos telescópios Planck, BICEP2 e Keck Array “não encontrou provas conclusivas das ondas gravitacionais primordiais”.

“Este trabalho conjunto mostrou que a detecção do modo-B primordial [a tal assinatura na radiação cósmica de fundo] deixou de ser robusta quando se removeu a emissão oriunda das poeiras galácticas”, disse Jean-Loup Puget, da equipa do Planck no Instituto de Astrofísica Espacial, em Orsay, França, citado nos dois comunicados. “Por isso, infelizmente não conseguimos confirmar que o sinal tem uma impressão da inflação cósmica.”