A vida de Stephen rebobinada por Jane

Stephen Hawking, o cientista vivo mais famoso do mundo, acredita nas viagens no tempo. Porém, a ser possível, ainda não existe tecnologia para o fazer. Excepto no cinema.

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Cambridge, Reino Unido, finais dos anos 1970. Sentados à volta da mesa de jantar estão Stephen Hawking, numa cadeira de rodas, a sua mulher Jane e um convidado. Hawking tem dificuldade em falar e Jane vai “traduzindo” algumas das suas palavras. E, quando o cientista se engasga a engolir umas ervilhas, ela aproveita para descrever ao convidado o trabalho do seu marido… com ervilhas e batatas cozidas.

Num ápice, esta linguista especializada na poesia espanhola da Idade Média explica-nos as dificuldades com que se defrontam os especialistas que tentam unificar as ervilhas (as partículas subatómicas) e as batatas (os corpos celestes) numa “teoria de tudo” – ou seja, reconciliar as leis da física quântica com as da relatividade de Einstein. Uma espectacular aula-relâmpago, feita por uma mulher que, anos antes, nunca teria imaginado que viria um dia a interessar-se pelas grandes questões da física.

Na passada semana, Jane Hawking, ex-mulher do brilhante físico, esteve em Lisboa para apresentar à imprensa o filme A teoria de tudo (realizado por James Marsh), que retraça os 25 anos do seu casamento com Stephen Hawking e foi nomeado para os Óscares. A propósito da cena das ervilhas e das batatas, perguntámos-lhe até que ponto tinha conseguido perceber a investigação do seu marido ao longo dos anos. “De facto, percebia muito pouco”, respondeu-nos. “O céu fascinava-me, mas em termos poéticos mais do que científicos. Mas ele descrevia-me sempre, em imagens, o trabalho que fazia.”   

Muito cedo, Stephen Hawking decidiu que queria estudar o tempo. E hoje, décadas depois, permanece convicto de que viajar no tempo é teoricamente possível. Porém, mesmo que o seja, a tecnologia que permitirá fazê-lo provavelmente não estará ao alcance dos seres humanos num futuro remotamente próximo.

Mas como no cinema tudo é possível, o filme foi, para Stephen Hawking, um incrível rebobinar da fita do seu tempo pessoal.

25 anos em duas horas
Quando assistiu pela primeira vez ao visionamento de A teoria de tudo, Hawking foi literalmente transportado para o passado: sentiu que era ele quem fazia dele próprio na tela. A sua identificação com o actor Eddie Redmayne foi tal que Hawking foi outra vez jovem, falador, correndo atrasado para uma aula de cosmologia na Universidade de Cambridge ou participando em regatas com os colegas.

“Stephen ficou muito perturbado, era tudo tão real”, diz Jane, cujo livro Viagem ao Infinito – A Extraordinária História de Jane e Stephen Hawking (publicado em Portugal pela Marcador) deu origem ao filme estreado esta semana em Portugal. E acrescenta: “Também me revi totalmente na personagem interpretada por Felicity Jones. A interpretação dela é incrível.”

O filme permite descobrir o mais famoso cientista do mundo desde Albert Einstein – uma espécie de rock-star da ciência, como dizem alguns – na sua vida pessoal, enquanto filho, marido, pai, amigo. Mas essa máquina do tempo também nos leva para os anos em que Stephen Hawking ainda era um estudante como muitos outros, com toda a sua vida, física e intelectual, pela frente.

Hawking, que tinha chegado a Cambridge em 1962 para fazer um doutoramento em cosmologia, não se mostrava então particularmente empenhado em estudar. Mas já era reconhecido como uma mente fora de série: uma cena no filme mostra como, tendo acordado tardíssimo, Hawking consegue resolver num instante uma série de problemas de física particularmente difíceis.

A vida parece correr-lhe muito bem em todos os planos: suscita a admiração do seu eminente professor, conhece e apaixona-se por Jane Wilde, que estuda na mesma universidade. Porém, já se nota nele qualquer coisa de errado – uma certa fraqueza no andar, a mão que treme quando escreve intermináveis fórmulas matemáticas no quadro, os dedos que ficam “congelados” em estranhas posições.

Hawking parece suspeitar que algo se passa, mas deixa correr os meses. Até que, em 1965, os seus sintomas se tornam impossíveis de ignorar e acontece o cataclismo: aos 21 anos, é-lhe diagnosticada uma doença degenerativa, progressiva e sem cura, que afecta os nervos que controlam os movimentos voluntários dos seus músculos. Chama-se esclerose lateral amiotrófica e é a mesma doença que vitimou, em 1941, o célebre jogador norte-americano de beisebol Lou Gehrig.

No hospital, o médico dá a Hawking… dois anos de vida, em condições crescentes de incapacidade motora. Um cenário de pesadelo que o irá deixando sem conseguir andar, falar, engolir, respirar.

Nos dias que se seguem, Hawking fecha-se no quarto da residência universitária, recusa ver os amigos, diz a Jane que já não casam. Diz que não tem tempo para nada mais a não ser resolver importantes questões de física fundamental antes de morrer. Ironia das ironias: já decidira que o tema da sua tese seria… o tempo.

Mas Jane não cede ao desespero: “Achava que ele era brilhante”, explica. “E nesse momento, senti que a minha missão na vida era ajudá-lo a realizar essa promessa.” Casam nesse mesmo ano.

Tempo, Big Bang e buracos negros
Nos anos que se seguem, Hawking doutora-se com uma tese sobre os inícios do Universo, começa a estudar os buracos negros – que, na altura, eram estranhos e incompreensíveis “monstros” cósmicos –, torna-se famoso no meio científico quando postula que os buracos negros, que até aí se pensava que “engoliam” tudo o que caía dentro deles, incluindo a própria luz, afinal emitem uma radiação, baptizada “radiação de Hawking” (cuja existência ainda hoje não foi comprovada pela observação) e torna-se numa celebridade mundial junto do grande público com o seu livro Uma Breve História do Tempo, que vende dezenas de milhões de exemplares e é traduzido em dezenas de línguas.

E Jane? Cuida da casa, dos filhos e do marido – e escreve. “Viajava no tempo à minha maneira. O que escrevi permitiu-me dizer o que tinha a dizer. E foi graças a isso que consegui continuar a viver.” Um primeiro livro de memórias será publicado em 1999, onde faz revelações sobre a deterioração do seu casamento.

Jane e Stephen Hawking divorciaram-se em 1995 e só muito recentemente se reconciliaram. Viagem ao Infinito foi publicado em 2007. O filme é fiel ao livro? “O filme comprime 25 anos em apenas duas horas. Por isso, não entra no lado escuro da nossa vida, como o livro, que vai muito mais ao pormenor”, frisa Jane. “Para mim, aqueles anos foram de completa exaustão, de desespero. Isso não transparece no ecrã. O filme é mais uma celebração da nossa vida juntos.”

Um dos diferendos que Stephen e Jane Hawking tiveram desde o início da sua relação diz respeito à religião: ela sempre foi crente e ele um ateu declarado. No filme, o casal tem conversas à volta do tema, mas a religião não parece tê-los separado.

“A minha fé foi o rochedo que me deu a força de cumprir a missão que me tinha proposto [em relação ao meu marido]”, diz Jane. “Stephen respeitava a minha fé, não era um ateu agressivo – e eu, pelo meu lado, não o tentava converter, a minha fé é algo de muito pessoal.” Contudo, com o passar do tempo, ele tornar-se-ia mais provocador face à religião – “e difícil de suportar”, acrescenta Jane.

“Stephen foi sempre um cientista absolutamente racional. Mas também percebi que ele tinha boas razões para não ser crente: alguém que é diagnosticado com uma doença tremenda aos 21 anos não consegue acreditar num deus bom.”

Voz de robô
Hoje, Stephen Hawking tem 73 anos e a sua doença continua a progredir – ao ponto que os seus médicos receiam que a sua mente brilhante fique “presa” dentro da sua cabeça, incapaz de comunicar, nem pelo mais leve movimento, com o exterior. Uma situação muito semelhante à da chamada “síndrome de encarceramento” (locked-in syndrome) que atinge certos doentes que parecem estar em coma.

Quando, em 1985, Hawking deixou de conseguir falar – na sequência de uma traqueotomia que lhe salvou a vida –, o mundo já tinha acordado para os computadores pessoais. Foi assim que ele pôde continuar a comunicar, através de uma voz sintética, registando primeiro os seus pensamentos num computador ao clicar num botão com os dedos que ainda conseguia mexer.

Actualmente, Hawking já só consegue controlar um derradeiro músculo – da bochecha – e é através de um sensor de movimento ligado a esse músculo que continua a partilhar as suas descobertas com o mundo. Todavia, os avanços tecnológicos dos últimos anos com doentes paralisados por lesões da espinal medula permitem esperar que, quando mesmo esse gesto subtil desaparecer, seja possível ir “ler” certos sinais eléctricos, directamente no cérebro de Hawking, para que possa continuar a dizer o que pensa.

Como é que Hawking conseguiu sobreviver tantos anos a uma doença que, ao que tudo indicava, lhe tiraria a vida em poucos anos? Acontece que padece de uma forma de evolução extremamente lenta de esclerose lateral amiotrófica.

“Stephen ainda é vivo e é provavelmente o maior cientista vivo”, diz Jane. “Acredito que esse foi o maior milagre da nossa vida.”