Crítica

Imperdoável

Imperdoável a forma como Clint, depois do Gran Torino, vem enfileirando no servilismo – não há mitologia do tarefeiro que possa aguentar mais algo que já encostou ao kitsch.

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Imperdoável: a forma como Clint Eastwood evacua de Sniper Americano, como se de uma adenda episódica se tratasse, o assassínio de Chris Kyle, tido como o mais certeiro sniper do exército americano, por um “colega”, um veterano de guerra perturbado: como se essa história de violência não fosse, afinal, a verdadeira história, e aquilo que neste filme é necessário branquear para servir a hagiografia.

Imperdoável, aliás, a forma como Clint, depois do Gran Torino, de 2008, vem enfileirando no servilismo – não há mitologia do tarefeiro que possa aguentar mais algo que já encostou ao kitsch, e não se percebe como ainda se continuar a falar em John Ford.

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É qualquer coisa da ordem da traição à forma como Eastwood se colocou no vórtice da contradição, da problematização, da complexificação – todo o seu Dirty Harry foi um abrir o peito às balas, expondo e simultaneamente sabotando o individualismo, o reaccionarismo, a xenofobia, a homofobia.

Mas para além de branquear a memória da sua persona, que é o seu património mas é também o nosso, é a memória do cinema americano que neste filme se faz por ignorar – mas esse é um state of the art da actual Hollywood e arredores, a incapacidade e o medo de ser adulto, como o mainstream já foi, porque desapareceu o público adulto das bilheteiras.

Mas há qualquer coisa de acto falhado, porque Sniper Americano não deixa ser penetrado por fantasmas do passado, os filmes do Vietname, por exemplo, como O Caçador, de Michael Cimino, e O Regresso dos Heróis, de Hal Ashby: a abertura e o fecho com a caça ao veado, a sequência em que Chris Kyle/Bradley Cooper regressa aos EUA depois de uma das suas comissões (cena solitária no bar, como o “fantasma” que regressava da Ásia, no filme de Cimino, para estragar a festa dos que se preparavam para partir) ou a crispação de Bruce Dern do filme de Ashby, parte de uma personagem cindida em duas, a outra sendo interpretada por Jon Voight, o homem que perdeu uma parte do corpo mas ganhou a consciência.

O diálogo entre esses dois filmes, que continuaram a confrontar-se na cerimónia dos Óscares de 1978/1979, talvez ainda não tenha acabado porque se acabou a guerra do Vietname não terminou a guerra pelo controle de uma narrativa: não há muito tempo, o crítico A. O. Scott escrevia sobre o “liberalismo ferido” de um, Coming Home, e o “conservadorismo ferido” do outro, O Caçador. Talvez, então, que a grande cobardia do actual cinema americano, e a desfeita do Eastwood de Sniper Amnericano, seja a de mascarar que é possível uma aventura humana indolor e neutra para personagens e espectadores; talvez seja o medo de enfrentar a dor.