Opinião

Com o Syriza, a política regressa à Europa

Se a tecnocracia nos quer fazer crer que não há alternativas, a política abre os horizontes de um futuro em construção.

Mais do que um grito de protesto contra a austeridade, mais do que uma revolução nacional, mais do que um manguito aos credores, a eleição do Syriza na Grécia por uma confortável maioria foi, para todos os europeus, uma lufada de ar fresco. Porque, até agora, a União Europeia não tem poupado esforços para nos fazer crer que não há alternativas ao statu quo, que, se não estamos bem assim, poderíamos certamente estar pior, e que, afinal, a troika é nossa amiga.

Entre a espada e a parede, ou seja, entre governos de centro-direita e de centro-esquerda, temos aceitados, com mais ou menos celeuma, cortes nos serviços públicos, aumentos de impostos, e um empobrecimento generalizado da população. A tecnocracia tem vindo nos últimos anos a substituir a política, os ditames económicos a verdadeira democracia, e os eleitores, desencantados, apenas esperam mais do mesmo.

Mas eis que a Grécia elege o Syriza. Incrédulos perante tal ousadia, os líderes europeus proferem algumas breves banalidades sobre o respeito por escolhas democráticas, para logo se pronunciarem severamente sobre a necessidade de os gregos honrarem os seus compromissos, vulgo, continuarem a pagar empréstimos insustentáveis.

A reação de muitos eleitores, não só gregos mas de todos os países europeus, perante esta eleição, resume-se na pergunta: “E agora?” E foi precisamente através desta singela interrogação que a política regressou à Europa. Porque se a tecnocracia nos quer fazer crer que não há alternativas, a política abre os horizontes de um futuro em construção, no qual (quase) tudo é possível, incluindo a eleição de Alexis Tsipras, um membro da esquerda radical, como primeiro-ministro de um país europeu.

E agora, repetimos nós? Agora ninguém sabe. Talvez a Grécia logre renegociar a dívida, talvez regresse ao dracma, ou talvez o Governo de Tsipras acabe por cair, sob o peso pesado da classe dirigente europeia, unida contra esta “anomalia” grega. Entre as diferentes possibilidades de uma sociedade está a de reconfigurar ou mesmo anular o contrato social, segundo nos ensinou Rousseau há mais de dois séculos. Se este contrato é nacional, como o concebia Rousseau, ou supranacional, como no presente caso da União Europeia, faz pouca diferença. Cabe aos gregos decidir sobre o seu destino político e cabe-nos a nós, restantes europeus, respeitar as suas escolhas.

O que a eleição do Syriza nos devolveu foi um horizonte de diferentes possibilidades, que é o sine qua non de qualquer democracia. Como nos lembrou o filósofo francês Jacques Derrida, a democracia está sempre por vir, o que significa que só existe enquanto a possibilidade de um futuro diferente do presente continuar viva. Para Derrida, não há sistemas políticos perfeitos, daí ser a completa democratização da sociedade, entendida como a forma mais acabada de política, relegada para um porvir que jamais alcançaremos. Ainda assim, qualquer democracia digna deste nome tem por obrigação abrir-se a um futuro que não seja mais do mesmo. A Grécia, berço da democracia ocidental, deu-nos assim mais uma lição política com a eleição do Syriza. Será este um feito dos deuses do Olimpo, cansados de tanta insensatez humana?

Seja como for, permanece por agora na mente dos europeus a pergunta: “E agora?” Resta-nos apenas acrescentar-lhe um clamoroso: “Força, Syriza!”

Professora na Universidade de Georgetown (EUA)