México oficializa morte dos 43 estudantes sequestrados em Iguala

O Governo encerrou a investigação e divulgou a confissão do membro do cartel que se encarregou da matança. Mas os familiares exigem um maior aprofundamento de responsabilidades.

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Familiares dos estudantes rejeitam as teorias das autoridades e exigem que a investigação prossiga REUTERS/Alejandro Acosta

O Governo do México acaba de oficializar a morte dos 43 estudantes de uma escola de magistério rural (ou “normalista”) que no fim de Setembro desapareceram na localidade de Iguala, no estado de Guerrero, sequestrados e posteriormente assassinados por elementos do principal gangue do narcotráfico da região.

As autoridades decidiram encerrar a investigação do caso e declarar o óbito dos estudantes – que até agora estavam dados como desaparecidos – após a detenção de Felipe Rodríguez Salgado, conhecido como El Cepillo ou El Terco, que já tinha sido apontado por vários membros do grupo Guerreros Unidos como o homem que se encarregou da operação de matança dos jovens normalistas.

“O chefe Chucky ligou-me a dizer que me iam entregar duas encomendas de detidos, e que eram de Los Rojos [um grupo rival de narcotraficantes]. (…) Eram entre 38 e 41, não os contei, alguns vinham amarrados e outros feridos e ensanguentados. (…) Ao chegar à lixeira de Cocula, tiramos os estudantes das camionetas. (…) Depois mandei El Pato tratar deles, e ele alinhou-os e começou a matá-los com tiros na nuca”, explica El Cepillo numa confissão escrita, que foi divulgada pelo Procurador-geral do México, Jesús Murillo Karam.

O terrível destino dos estudantes já era conhecido há meses, quando a imprensa começou a divulgar os detalhes das confissões que permitiram reconstituir os factos – e definitivamente acabar com as especulações (e as esperanças) de que os jovens pudessem estar vivos. “Foram privados de liberdade, privados da vida, incinerados e [as cinzas] atiradas ao rio. Por esta ordem. Essa é a verdade histórica dos factos, a verdade que terá validade jurídica perante os órgãos jurisdicionais”, declarou Jesús Murillo Karam.

Acompanhado pelo director da Agência de Investigação Criminal, Tomas Zerón, o procurador apresentou na terça-feira o balanço das investigações: 99 detidos, 386 declarações, 483 relatórios periciais, 95 telemóveis escutados… Todas essas diligências resultaram na obtenção de “provas contundentes” e suficientes para confirmar a veracidade da primeira reconstituição avançada em Novembro pelo mesmo Murillo Karam.

No entanto, os familiares dos jovens estudantes da escola de Ayotzinapa “repudiam e rejeitam as teorias do procurador” e exigem que as investigações prossigam até ser apurada toda a verdade. “Vamos manter a nossa luta até às últimas consequências. Para nós, nada está demonstrado”, reagiram os pais dos normalistas, acusando o Governo mexicano de querer encerrar o caso por razões eleitorais.

Os desaparecimentos de Iguala precipitaram uma crise política no México que levou a uma queda vertiginosa da aprovação do trabalho do Presidente Enrique Peña Nieto. “Não podemos deixar-nos enredar por este momento trágico e doloroso na História do México. Temos de ser capazes de ultrapassar: garantir que vai haver justiça, que todos os responsáveis por estes actos lamentáveis vão ser punidos, e que fazemos tudo o que é possível para assegurar um futuro melhor para o país”, declarou o Presidente, anteciopando-se à conferência d eimprensa de Murillo Karam.

Entre a versão divulgada em Novembro e a “verdade histórica” apresentada esta semana, só há um elemento que difere: a alegada responsabilidade do autarca de Iguala, José Luis Abarca, que foi detido juntamente com a mulher, ambos acusados de serem os autores morais do ataque aos estudantes, com o conluio das forças corruptas da polícia municipal, que são controladas pelos narcotraficantes.

Várias testemunhas indicaram que a ordem para atacar e deter os estudantes foi dada por Abarca, que queria evitar qualquer interrupção durante um evento de lançamento da carreira política da mulher, na praça principal de Iguala. Segundo esses depoimentos, também terá sido o casal a sugerir que os normalistas fossem entregues aos Guerreros Unidos, para que estes lhes dessem uma lição.

Segundo a confissão assinada por El Cepillo, os estudantes foram tomados por elementos dos Los Rojos e o massacre aconteceu no âmbito da guerra de poder e territorial entre os rivais do narcotráfico. A linguagem utilizada no seu depoimento remete para os códigos próprios desses gangues: encomenda é o nome usado para descrever inimigos capturados pelos traficantes.