Cancro Ponto e Vírgula porque não tem de ser o fim e há mais para dizer

Preparada pelo Instituto de Patologia e Imunologia Molecular da Universidade do Porto, exposição é inaugurada esta segunda-feira de manhã na Fundação Calouste Gulbenkian, em Lisboa. Destina-se sobretudo a alunos do ensino secundário.

Ilustração representando Bob Marley no livro <i>Cancro Ponto e Vírgula</i>: o cantor morreu de cancro da pele
Ilustração representando Bob Marley no livro Cancro Ponto e Vírgula: o cantor morreu de cancro da pele José Cardoso
Ilustração de Angelina Jolie, que fez uma dupla mastectomia para reduzir o risco de cancro da mama
Ilustração de Angelina Jolie, que fez uma dupla mastectomia para reduzir o risco de cancro da mama José Cardoso
Substâncias existentes num cigarro
Substâncias existentes num cigarro José Cardoso
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Angelina Jolie tinha mesmo de tirar as duas mamas? Por que é que as freiras têm tanto cancro da mama? Só as pessoas de pele clara precisam de ter cuidado com o sol? Perguntas como estas podem ser feitas a cientistas do Instituto de Patologia e Imunologia Molecular da Universidade do Porto (Ipatimup) que prepararam a exposição Cancro Ponto e Vírgula, inaugurada esta segunda-feira de manhã na Fundação Calouste Gulbenkian, em Lisboa. Esperam os visitantes, até sexta-feira, o tempo de duração da exposição. Fica, porém, um pequeno livro, preparado por seis cientistas e comunicadores do Ipatimup e ilustrado por José Cardoso, que serve de guião e memória da exposição. E é lá que estão as três perguntas do início deste texto...

E as respostas, também. A decisão de Angelina Jolie é muito pessoal. “Um passo tão difícil, como uma dupla mastectomia, sobretudo quando falamos de um órgão que afecta a feminilidade, tem de ser por vontade da pessoa”, lê-se no livro, com o mesmo título da exposição. A actriz norte-americana tem uma mutação genética hereditária que aumenta risco de cancro.

“Uma portadora de uma mutação no gene BRCA1 (como ela) tem entre 50 a 85% de probabilidade de vir a desenvolver um cancro da mama até aos 70 anos, e 40 a 60% de probabilidade de vir a desenvolver cancro do ovário”, refere ainda o livro. “A análise de risco da actriz pode ter acrescentado outros elementos que a levaram a optar por uma dupla mastectomia e também por uma dupla ooforectomia (remoção dos ovários), de modo a diminuir drasticamente o risco de vir a ter cancro.”

Mas nem todos os cancros da mama são hereditários e, entre estes, nem todos se devem a mutações dos genes BRCA1 e BRCA2. Nas mulheres em Portugal, o cancro da mama é aliás o mais frequente — surgem cerca de 5000 casos por ano — e, de forma geral, é também o mais frequente nas mulheres em todo o mundo.

Ainda sobre o cancro da mama — um dos seis tipos de cancro abordados na exposição e no livro, a par do da pele, colo do útero, colo-rectal, estômago e tiróide —, encontra-se uma história curiosa, onde se juntam freiras e o início da epidemiologia do cancro. No século XVIII, observou-se pela primeira vez uma relação entre um número elevado de casos de cancro da mama e a clausura religiosa, o que lançou as bases da epidemiologia (estudo dos padrões da ocorrência de doenças e factores envolvidos) das doenças oncológicas.

“As religiosas, votadas ao celibato e sem nunca terem amamentado, tinham maior incidência de cancro da mama do que as mulheres comuns.” Isto porque as alterações hormonais ocorridas na gravidez e amamentação têm um efeito protector. Outras ligações epidemiológicas do cancro foram sendo entretanto estabelecidas — incluindo a do tabaco como agente cancerígeno, apontada pela primeira vez em 1761.

Sem desvendar muito mais, o cantor jamaicano Bob Marley também é aqui invocado, quando se fala de cancro da pele. Quem tem a pele e os olhos claros tem mais riscos de ter este cancro, devido a uma menor protecção natural contra a radiação ultravioleta, mas quem tem a pele escura, como a de Bob Marley, não está livre da doença, sobretudo se passar os dias na praia e não se proteger com roupas e cremes. “Estrela maior da música reggae, morreu de um melanoma [em 1981] que não foi tratado suficientemente cedo e metastizou”, lê-se. “Este melanoma originou-se debaixo de uma unha, onde a pele é muito mais clara, mesmo em pessoas de pele negra.”

Os 25 anos do Ipatimup

Cancro Ponto e Vírgula

é uma adaptação de uma exposição em 2014 na Câmara Municipal do Porto,

Os Passos da Ciência nos Paços do Concelho

, para assinalar os 25 anos do Ipatimup. Agora, a Fundação Calouste Gulbenkian desafiou o Ipatimup a fazer uma exposição sobre cancro, adaptando-se materiais daquela exibição aos alunos do ensino secundário, e assim nasceu

Cancro Ponto e Vírgula

. Objectivo: promover a prevenção e o diagnóstico precoce.

“Os 25 anos do Ipatimup foram da maior importância para a construção do edifício português da ciência, que tem hoje uma densidade e alcance que já ultrapassa a real dimensão do país. Este livro é o reflexo da vontade que o Ipatimup sempre teve de ser uma instituição aberta, ao serviço de todos e útil na temática da prevenção”, diz-nos Nuno Azevedo, consultor da exposição e do livro.

Em Portugal, há actualmente por ano cerca de 50.000 novos casos de cancro e 21.000 a 24.000 mortes. Estima-se, no entanto, que a incidência de cancro vá aumentar bastante, seja porque vivemos cada vez mais tempo, seja por termos novos estilos de vida. “Na segunda metade do século [XXI], um em cada dois portugueses virá a ter pelo menos um cancro durante a vida (hoje a taxa é de um para três)”, alerta o livro.

“As pessoas não sabem bem o que é o cancro, acham que é uma espécie de infecção. Não é. O cancro é uma coisa que nasce dentro de nós. Não há nada mais parecido connosco. Um cancro seria mais parecido comigo do que um irmão gémeo”, diz Manuel Sobrinho Simões, director do Ipatimup, na newsletter da Fundação Calouste Gulbenkian. “O cancro surge dentro de nós e não respeita as fronteiras, é isso que o caracteriza. E o nosso objectivo é que os miúdos percebam isso e como se pode prevenir.”

O livro funciona como complemento da exposição. Muito gráfico, com folhas sobre os seis tipos de cancro que se desdobram, não só tem uma estética distinta da exposição como é feito de perguntas e respostas. Sem fotografias, as ilustrações dão-lhe vida. “É visualmente muito diferente do que seria esperado de um livro que fala sobre cancro, porque foi todo pensado para os adolescentes”, diz-nos por sua vez Susana Lamas, da Unidade de Prevenção de Cancro do Ipatimup, envolvida na criação do livro. “A linguagem, escrita e visual, procura ser o menos científica possível e mais próxima da linguagem dos jovens.”

E porquê o título Cancro Ponto e Vírgula? “Porque há mais qualquer coisa por dizer sobre o cancro”, responde. E porque o cancro, com prevenção, diagnóstico precoce e terapias que vão surgindo, não significa necessariamente um ponto final na vida.

Para os cinco dias da exposição, já está marcada a visita de 800 alunos. Sobrinho Simões é um dos cientistas que estarão lá a semana toda à espera das perguntas dos alunos e de quem mais quiser aparecer.